domingo, setembro 24, 2017

Anónimos e famosos da vida real

Em suporte audiovisual e transmitido ao mundo através da funcionalidade do ecrã gigante do estádio a poucos instantes do início de um jogo de futebol este recentíssimo "sketch" do anúncio do alargamento da descendência do presidente teve o condão de, pela milésima vez, colocar na ordem do dia uma dúvida da maior importância para os sociólogos e para os terapeutas que se ocupam destas questões tão globais da influência, das transversalidades e da dependência do mundo do baixo entretenimento audiovisual na relação com áreas da informação e com as áreas do Poder instituído ou a instituir.

Eis, então, a questão necessariamente especulativa:
Tivesse Bruno de Carvalho sido dado a apresentar pela primeira vez ao público português não na condição de candidato e depois na condição de presidente do Sporting Clube de Portugal, como se verificou, mas na condição de um vulgar cidadão anónimo aspirante a "famoso" e apurado para um vulgar "reality-show" – onde entraria apenas como mais um Bruno Miguel – que favores (ou desfavores) receberia este tipo de personalidade dos seus colegas de internamento na "casa" e dos telespetadores destes concursos da "vida real"?

Achar-lhe-iam graça? Ou acabariam por se cansar do narciso e da chinfrineira? Teríamos, nessas circunstâncias hipotéticas, um Bruno Miguel saindo como vencedor depois de ter conquistado com o seu descaramento e linguarejar a simpatia de toda a gente ou, pelo contrário, seria o mesmo Bruno Miguel liminarmente expulso ao cabo da primeira semana de emissões do "espectáculo da vida real" castigado pelos extenuadíssimos demais concorrentes e pela crueldade do televoto popular? 

Colocando de lado os preconceitos aqui está um assunto que dá que pensar até porque se trata de um exercício especulativo alheio às magníficas emoções do futebol e às benesses do estatuto de presidente de um clube de futebol que conferem automaticamente a qualquer ex-cidadão anónimo uma posição de destaque na sociedade e uma reverência por parte dos mídia com que nenhum concorrente de um "reality-show" alguma vez ousou sonhar.

O Benfica revelou esta semana as suas contas. Há quatro anos que o clube não se endivida perante instituições financeiras. Neste período reduziu para metade a sua dívida à banca. Perante isto ninguém foi a correr para o Marquês de Pombal. O campeonato dos números pouco significa para os apaixonados para quem o campeonato da bola é tudo e mais do que tudo. Neste ponto, realmente, as coisas não andam famosas. Os benfiquistas quererão muito acreditar que aquele momento na noite de quarta-feira em que Luisão convocou os colegas para um abraço no meio do campo enquanto das bancadas chegavam o som terrível do descontentamento popular terá sido o arranque, em definitivo, para a temporada de 2017/2018. E já tarda.



Fonte : Leonor Pinhão @ record

sábado, setembro 23, 2017

Virados do avesso

O Benfica, tetracampeão nacional, anda virado do avesso. Alguma vez tinha de acontecer, é certo, porque estes transes da bola não acontecem só aos outros. No entanto, quatro anos é muito tempo e quatro anos de belos sucessos desabituaram, inevitavelmente, os adeptos do Benfica de experimentar o travo amargo da inoperância formal que a sua equipa vem exibindo, sem rodeios, em casa e fora de casa. 

A soma de resultados medíocres, o momento periclitante de alguns setores da equipa e os arranques sem mácula dos dois principais adversários internos viraram do avesso o estatuto do campeão e a relação de confiança com a vasta multidão de público afeto. 

De tal modo tudo é ao contrário do que devia ser, de tal modo vive o Benfica de pernas para o ar que o simples facto – simplicíssimo, na realidade – de ter marcado um golo cedo no jogo com o Sp. Braga na Taça da Liga despertou na assistência do Estádio da Luz um estado de angústia que, francamente, não se sabe se vem dos relvado para a bancada ou se, pelo contrário, parte da bancada para o teatro das operações. 

O caso é bicudo. Obedece a um comportamento padrão de foros surreais e que se resume ao facto de o pior que pode acontecer a este Benfica é adiantar-se no marcador. Assim aconteceu no jogo com o CSKA e depois foi o que se viu: as infames reviravoltas dos resultados mercê de um misterioso abandono do foco na ação e de uma notória incapacidade de gerir a vantagem e, mais preocupante ainda, de a dilatar para sossego das suas gentes. 

Só este bizarro, bizarro porque repetitivo, comportamento da equipa de Rui Vitória explica a ansiedade que se viveu na noite de quarta-feira na Luz quando Jiménez apontou, com um remate impecável aos 10 minutos da primeira parte, o golo que adiantou o Benfica no marcador no jogo inaugural da fase de grupos da tão estimada Taça da Liga. O público, naturalmente, ergueu-se dos assentos para festejar o golo do mexicano mas quando todos se voltaram a sentar o sentimento era unânime e tudo menos otimista: agora é que vão ser elas! E foram, outra vez. 

Tal como o fizeram CSKA e Boavista, também o Sp. Braga encontrou alento no seu suposto desalento e, trocando a bola com grande à-vontade, foi-se aproximando com perigo da baliza do Benfica até chegar ao empate. É um facto que não chegou à vitória como moscovitas e boavisteiros chegaram, mas chegou para o susto e para confirmar a teoria de que o Benfica desliga, e desliga sempre que se vê em vantagem tangencial. Ora é a isto, precisamente, que se chama andar virado do avesso. Até quando? 



Visão futurista da comunicação 
Os puristas que representam ‘os perigos no futebol português’ 
Para já é apenas ficção científica mas um dia veremos um qualquer espaço informativo de uma qualquer estação de TV atribuir o estatuto de comentadores ilustrados no tema ‘os perigos no futebol português’ aos especialistas que pelas suas práticas, pelos seus graus académicos e pelos seus currículos estarão em condições de explicar à multidão o que é isso da permeabilidade do desporto-rei à pequena, à média e à grande delinquência e como é isso de combater os que afligem o bom nome da modalidade com exotismos tribais e generosidades ignóbeis. 

Será este o futuro brilhante que nos aguarda: o império do ‘quem sabe, sabe’, as vozes autorizadas, o respeito do público, o explodir das audiências. Haverá também quem venha a considerar que o abjecionismo tomou conta, de uma vez por todas, da tropa-fandanga da bola. São estes puristas de meia-tigela, estes descrentes no progresso que representam ‘os perigos no futebol português’. Felizmente não passam de uma minoria.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Reductio ad Portugalum

É um quadro de Werner Buttner: tem um copo, uma escova de dentes, uma bisnaga de pasta dentífrica e uma espingarda. Por baixo, a legenda: “Cuida tus dientes como tus armas”. Se o ministro da Defesa segue o conselho do pintor, temo pelo seu hálito. Caso dedique aos dentes o mesmo cuidado que dedica às armas, Azeredo Lopes não sabe quantos dentes tem, onde estão, nem o estado de conservação em que se encontram. Há jornais espanhóis que sabem mais sobre os seus dentes do que ele próprio.

Numa recente entrevista, a propósito do furto das armas do paiol de Tancos, o ministro disse: “No limite, pode não ter havido furto nenhum. Como não temos prova visual nem testemunhal, nem confissão, por absurdo podemos admitir que o material já não existisse (…)”. Ora, quando a tropa permite que lhe roubem as armas, já estamos perante uma situação absurda. Tenho dúvidas de que ensaiar raciocínios que reduzem ao absurdo ocorrências absurdas seja filosoficamente possível. Gera-se uma concentração de absurdo que não pode fazer bem à saúde. O absurdo devia ser o sal da conversa: uma pitada de absurdo num argumento com pés e cabeça entretém e até ilumina; considerações absurdas sobre ocorrências absurdas são bastante menos proveitosas e costumam ser expendidas em sanatórios.

Sísifo empurra a pedra montanha acima; depois, a pedra volta a rolar para o sopé, e Sísifo começa tudo de novo. Isso, já foi assinalado, é absurdo. No entanto, se Sísifo se puser a conjecturar que, no limite, a pedra talvez não exista e que, por absurdo, a montanha pode nunca lá ter estado, a gente questiona a saúde mental de Sísifo. Uma coisa é executar repetidamente uma tarefa que se sabe ser desprovida de sentido; outra coisa é estar armado em parvo. Higino não falaria dele, e Homero arranjaria maneira de o expulsar da Odisseia.

Quando, em Julho, o Presidente da República visitou Tancos, disse: “Não podemos, em matéria de furto de material militar, ter furtos desta dimensão. Há que prevenir para que não volte a acontecer”, e acrescentou: “É preciso investigar se há alguma ligação entre este furto e furtos que têm acontecido nos últimos dois anos em países membros da NATO”. O ministro Azeredo Lopes, que o acompanhou, não disse (mas deveria ter dito) que não havia nada para prevenir, e que subsistiam dúvidas de que houvesse algo para investigar. É possível que, no limite, Tancos não exista – e mesmo Portugal, por absurdo, pode ser um produto da nossa imaginação. Mas em princípio não é, porque ninguém conseguiria inventar isto.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

domingo, setembro 17, 2017

Ascenção e queda de Talisca

Regressaram as competições europeias – que sempre têm o seu encanto especial ainda que frequentemente efémero – e o meio da semana viu-se preenchido com jogos e mais jogos para deleite de quem vibra, por dentro ou por fora, com estes confrontos das nossas equipas perante oponentes estrangeiros. A grande nota da participação portuguesa vai para o Sporting de Braga que, pela primeira vez na sua história, venceu um adversário alemão na Alemanha e para o Sporting, o Sporting propriamente dito, que pela primeira vez na sua história, venceu um adversário grego na Grécia. Estão, assim, os dois Sportings de parabéns pela eficácia com que iniciaram os respectivos percursos europeus.

Benfica e FC Porto, que ainda não tinham perdido nenhum jogo neste início de temporada em Portugal, perderam com estrondo os seus desafios internacionais para surpresa e consternação das suas massas adeptas. Também é verdade que nem o FC Porto tinha ainda jogado nesta época com os turcos do Besiktas nem o Benfica tinha ainda jogado com os moscovitas do CSKA, equipas da segunda linha europeia – ou terceira? – mas que em Portugal discutiriam certamente o título em pé de igualdades com os três grandes do costume.

O que a primeira jornada das provas da UEFA trouxe de substancialmente inesperado ao panorama retórico do nosso futebol foi a surpreendente reabilitação de Talisca aos olhos dos benfiquistas e a sua queda em desgraça na consideração dos portistas. E, também, por respeitosa solidariedade institucional, no apreço dos sportinguistas. Tudo porque o brasileiro emprestado pelo Benfica ao Besiktas marcou um golo a Iker Casillas. É isto o que o futebol gera. Súbitas alterações no clima provocadas por um mísero golo colocam em causa argumentos de outrora e inclinações do passado. 
Como se não bastasse a dramática alteração do estatuto interno de Talisca logo surgiria um novo episódio capaz de estilhaçar corações quando o simpático Aboubakar resolveu ir passar um bom bocado à cabina do Besiktas consumado que estava o jogo e o resultado no estádio do Dragão. Imediatamente emitiu o FC Porto um aparatoso comunicado lamentando a "falta de noção" da RTP. É verdade que a RTP nada – rigorosamente nada – teve a ver com o caso mas trata-se aqui de uma nova forma de comunicar por código. O que, na realidade, o FC Porto queria dizer é que lamentava a "falta de noção" do seu risonho jogador camaronês mas acabou por ser a televisão estatal a apanhar por tabela. Os decifradores desunham-se para entender estas subtilezas da arte da comunicação.
No entanto, e porque o amor é como o vento, já foi designado um "novo" Talisca para entreter os corações que batem a compasso no Dragão e no Altis. Trata-se de Nuno Gomes. E como Nuno Gomes já não pode marcar golos nem ao Porto nem ao Sporting a paixão tem tudo para durar. Se o Nuno Gomes consentir, claro."



Fonte: Leonor Pinhão @ Record


sábado, setembro 16, 2017

Dois maus ensaios gerais

De sexta-feira a terça-feira, em quatro dias apenas, os adeptos do Benfica viram-se forçados a mudar de ideias e a conformar-se com as realidades práticas que os jogos com o Portimonense e com o CSKA na Luz tão dramaticamente evidenciaram. O vídeo-árbitro é, afinal, um posto do progresso do futebol português e, pelo que se viu com os russos, ainda não vai ser este ano que o Benfica vai voltar a ganhar a mais importante prova do futebol europeu. Sabendo-se que as verdades nesta indústria não duram mais do que uma semana esperam agora os benfiquistas pelo desfecho do jogo desta tarde no Bessa para poderem, pelo menos, confiar num dos mais velhos axiomas do jogo da bola e dos espetáculos teatrais. Aquele que reza ser um redobrado mau ensaio geral a melhor dupla garantia para uma performance de estalo. 

Foi com este espírito, otimista, que o público da Luz abandonou o recinto na noite da penúltima sexta-feira, depois de André Almeida ter marcado o golo da sua vida e de o vídeo-árbitro ter anulado corretamente o golo incorreto com que os algarvios chegaram a gelar a casa dos tetracampeões nacionais. Este jogo foi logo considerado como um mau ensaio geral nas vésperas do jogo com CSKA, o que acabava por ser uma excelente notícia em função da crendice popular. Crentes em que a coisa só podia correr lindamente com os moscovitas, os espectadores da Luz regressaram aos seus lugares quatro dias depois para serem surpreendidos por mais um mau ensaio geral. A boa notícia, para quem se fia nisto, é que depois de dois maus ensaios gerais nada obstará cientificamente a que o Benfica acerte com as marcações e faça hoje uma grande exibição com um resultado correspondente na casa do Boavista. 

É bom que o público vá acreditando nestas tradições porque são lendas como estas que fornecem sal e pimenta às discussões anteriores e posteriores a cada ensaio geral. Mas, tal como é bom que os adeptos confiem, é péssimo que os artistas – jogadores e treinadores… - alinhem em semelhantes disparates. Nesta fase prematura da temporada, o Benfica precisa de racionalidade a todo o custo. A verificar-se um terceiro mau ensaio geral não faltará quem, por exemplo, reclame o regresso do emprestado Talisca no mercado de inverno. Precisamente o mesmo Talisca que no ano passado foi vituperado por se ter atrevido a marcar um golo ao Benfica na Luz. Alguma coisa se deve ter passado com Talisca esta semana porque, de repente, registou-se uma mudança de opiniões sobre os méritos do brasileiro exilado na Turquia. Ai passou-se, passou-se… 



Outras Histórias 
Uma grande lição no Dragão  
Aboubakar planando muito acima destas odientas questiúnculas 
Naquele minuto fatídico em que Ryan Babel assinou o terceiro golo do Besiktas no Estádio do Dragão aconteceu, certamente, que milhões de benfiquistas espalhados pelo mundo suspiraram fundo e disseram para com os seus botões. "Pronto! Agora já não podem gozar connosco!" É esta a triste cultura de rivalidade que domina o futebol. 

As tristezas de uns são as alegrias dos outros e vice-versa. Que diferença anímica faz para o povo ignaro levar 2, como levou o Benfica do CSKA, ou levar 3, como levou o FC Porto do Besiktas! Não há fair-play nestas coisas, não há solidariedade nem, muito menos, patriotismo. Uma lástima. Saúde-se, portanto, o simpático profissional camaronês Aboubakar que, planando muito acima destas odientas questiúnculas, visitou alegremente o não menos balneário do Besiktas no Dragão confraternizando com os seus antigos colegas. Antes do jogo? Ou depois do jogo? Não importa. É para dizer que foi antes do jogo? Ah, bom, então foi antes do jogo, não liguem à propaganda.



Fonte: Leonor Pinhão @ Correio da manha

quinta-feira, setembro 14, 2017

História do século XXI, primeiro volume

É difícil não só pelo escasso acesso às fontes, cuja destruição foi quase total, mas também porque só há cerca de dez anos deixámos de fazer fogo com pedras, o que prejudica bastante a historiografia. Quem precisa de esfregar dois calhaus para fazer o jantar (normalmente, baratas fritas) tem menos tempo para dedicar ao estudo da História do que um académico que disponha de um aparelho a que os antigos chamavam fogão. Segundo certos relatos, uma frase popular no século XXI dizia: "A História repete-se." Essa ideia parecia ignorar outra, porventura mais importante: "A Pré-História repete-se também." Foi o que aconteceu após a devastação provocada pela III Guerra. Sobre esse conflito global sabemos apenas que foi provocado por testes nucleares levados a cabo por Kim Jong-un, o ditador de um país chamado Coreia do Norte. Ao que se imagina, o principal problema de Kim Jong-un era o facto de a cara de Kim Jong-un ser extremamente parecida com o rabo de Kim Jong-un. Supõe-se que tenha sido essa circunstância a precipitar os trágicos acontecimentos de 2017, e que motivaram a inclusão, na Nova Constituição Mundial, do artigo 23º, que diz: "Nenhum indivíduo cuja cara pareça um rabo poderá alguma vez candidatar-se a cargos públicos" regra que deve, aliás, ser lida em articulação com o artigo 22º, que prevê a mesma inibição para candidatos com bigodinhos ridículos e/ou caras cor-de-laranja.

De acordo com jornais da época, descobertos no ano passado cem metros abaixo do solo numa casa situada numa localidade portuguesa chamada Marmeleira, a Coreia do Norte era um país subdesenvolvido que, ao contrário dos demais, não era visível do espaço, à noite, dada a escassa iluminação. O conflito iniciado por Kim Jong-un produziu, desse ponto de vista, uma uniformização bastante democrática, uma vez que, agora, nenhum país do mundo é visível do espaço, à noite. Com algum esforço, a humanidade consegue compreender as razões que levaram aos dois primeiros conflitos mundiais. Mas continua a não entender totalmente as intenções de Kim Jong-un nas vésperas do terceiro conflito global e, sobretudo, os motivos que o levaram a fazer eclodir uma inoportuna guerra mundial mesmo antes de o Benfica conseguir o Penta."



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

domingo, setembro 10, 2017

Almeida, o bruxo de serviço

Puxa uma cadeira e senta-se uma pessoa à mesa de um café onde já estão sentadas outras quatro ou cinco individualidades. O tom da conversa é desmesuradamente exaltado sendo o assunto ou política internacional ou futebol ou jardinagem ou desemprego de longa duração. Na realidade, tanto faz. Qualquer que seja o tema em apreço é a exaltação geral que se sobrepõe. Já jantada, sentadinha à mesa do café diz finalmente essa pessoa o que lhe vai na alma sobre isto ou sobre aquilo e caem-lhe em cima os demais comparsas em desacordo numa chinfrineira sem medida. São quatro ou cinco contra um. A conversa prossegue, dá à volta à mesa e todos exprimem com alarido opiniões incrivelmente iguais sobre tudo até chegar outra vez a vez do último a chegar que, constrangido pela desproporção em vigor, lá dá ao seu parecer sobre os tópicos em discussão. Logo lhe voltam a cair em cima os outros clientes numa tal gritaria que até parece coisa de gente doida. Uns impedem-no de falar batendo com as mãos no tampo da mesa, outros espumam-se e reviram os olhos e outros desatam a debitar recordações sobre as visitas que faziam à madrinha na Páscoa no tempo em que as madrinhas lhes davam saquinhos com amêndoas e já era um pau. O empregado de mesa não só não mexe uma palha para por cobro aos desacatos como ainda vai servindo doses reforçadas de cafeína porque o patrão lhe disse que estava ali para vender bicas e não para vender chá de tília que dá sono segundo a tradição popular. Um cidadão comum colocado perante uma situação destas, impossibilitado pela grossa maioria de exprimir as suas mais banais opiniões à mesa do café só tem duas opções: ou se levanta e vai para casa tranquilamente deixando os demais a falar sozinhos ou, se for dado a ímpetos socialmente condenáveis, levanta-se e, antes de voltar para casa, vira a mesa do café provocando estardalhaço e uma quantidade de louça partida. Ou não é assim? Toda esta historieta para sugerir que talvez esteja na altura de o departamento de comunicação do Benfica repensar seriamente os termos e os objectivos da participação – ou da não-participação – dos seus esforçados e minoritários comunicadores nas charlas televisivas que, na verdade, só existem maioritariamente à pala do mesmo Benfica.

O que Sporting e Benfica ontem sofreram para vencer o Feirense e o Portimonense deitou um bocadinho por terra a teoria de Manuel Machado e de todos os que, como ele, entendem que a diferença de orçamentos entre as equipas da Liga é determinante e incontornável. Ontem o Sporting só contornou o Feirense no oitavo minuto do tempo extra e o Benfica para vencer os algarvios passou pela vergonha de ter de agradecer ao vídeo-árbitro a anulação – certíssima – do segundo golo de Fabrício e pela vergonha de sofrer as passas do Algarve quando jogava em superioridade numérica contra um recém-promovido. Se foi questão de bruxos, os bruxos estiveram em grande. Os bruxos e André Almeida.



Fonte : Leonor Pinhão @ record




sábado, setembro 09, 2017

Dá-lhes, batanete, dá-lhes!

No remanso do lar, confortavelmente sentado no sofá sem deixar cair aquele sorriso de uma aprovação que vem do fundo da alma, com que orgulho deve o presidente da Liga ter assistido na noite de terça-feira à prova oral do presidente do Sporting, o seu colega de estudos. Ambos terão frequentado o mesmo estabelecimento do ensino superior e, por isso mesmo, ambos são doutores e camaradas de armas na linha da frente da luta pelo progresso. E não se trata de um progresso qualquer. Trata-se de fazer avançar para patamares invejáveis em toda a Europa civilizada a maravilhosa indústria do futebol nacional.

- Que talento! – disse o presidente da Liga, falando com os seus botões, quando viu o presidente do Sporting embrenhar-se na imitação do filho de um presidente de um clube com quem teve um desaguisado recentemente. 
– Dá-lhes, batanete! – clamavam, entretanto, pelos cafés dos subúrbios os apoiantes do presidente do Sporting definitivamente conquistados pelo momento único a que acabavam de assistir.
- Impecável! – murmurou embevecido o presidente da Liga quando viu o presidente do Sporting puxar dramaticamente da Constituição da República para fazer valer a sua liberdade de expressão e ignorar os castigos absurdos que um qualquer órgão disciplinar lhe impôs por dá cá aquela palha.

O presidente do Sporting reservou para si o estúdio da Sporting TV na já histórica noite de terça-feira passada porque terá sentido uma urgência em explicar à minoria ínfima de sócios que não o veneram as verdadeiras razões pelas quais dois ‘capitães’ do clube ficaram tão amarfanhados no fecho deste mercado. O caso de Adrien que vai estar sem jogar até ao Ano Novo e o caso de William que vai estar sem jogar até que Jorge Jesus, o psicólogo anunciado, o consiga recuperar para a vida ativa poderiam estar a provocar algumas ondas de incompreensão – mínimas, esclareça-se… - entre os sportinguistas menos dados a deliciar-se com estas práticas de gestão. E como nesta luta não está sozinho, visto que escolheu o presidente do Porto para companheiro de estrada, não espantará que este também tenha assistido à emissão televisiva por uma questão de delicadeza. 
- Ao pé disto aquela cena do major em roupão à porta de casa passou a ser um dos momentos mais chiques do futebol português! – terá proclamado o pensativo presidente do Porto, quando viu o presidente do Sporting a representar para a câmara o expelir do fumo pelo nariz e pela boca. 
Ai o progresso! O progresso que os confunde.

Outras Histórias
O fim da Aliança Luso-Britânica
Falta a chancela do Porto Canal aos emails do West Ham   
Os jornais noticiaram a decisão do West Ham no sentido de processar o dirigente ‘tuga’ que chamou "dildo brothers" aos responsáveis do clube inglês. Por ignorância, puritanismo ou alto sentido de Estado, a tradução para língua portuguesa da expressão em causa foi, de um modo geral, sonegada aos leitores nacionais deixando perplexos os que não dominam estas áreas de conhecimento linguístico e vocabular. Mas processado porquê? – ter-se-á interrogado muito boa gente antes de correr ao Google para solucionar o bicudo caso. Entretanto, sem menor pinta de fleuma, os britânicos, de tão ofendidos que ficaram, desataram a mandar para a Sky Sports – uma minúscula estação de televisão inglesa que funciona numa loja de sapateiro num bairro pobre de Londres – uns ‘supostos’, "alegados", "forjados" e "mal amanhados" emails. Coitado do West Ham! Coitada da Sky Sports! Mal sabem eles que para os seus ridículos emails serem levados a sério falta- -lhes a chancela do Porto Canal.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha 

sexta-feira, setembro 08, 2017

Se governar; não beba

Quando soube que o Texas ia ser acometido por um furação destruidor, Donald Trump procedeu como qualquer grande líder: foi imediatamente escrever no Twitter. A mensagem dizia: “Chuvadas HISTÓRICAS em Houston e por todo o Texas. Cheias sem precedentes e vem aí mais chuva. O espírito do povo é incrível. Obrigado!” Três coisas saltam à vista: 
1. Trump é um daqueles PATUSCOS que escrevem ALGUMAS palavras em MAIÚSCULAS no meio DO texto; 
2. Trump tem dificuldades com o conceito de tom; 
3. Trump agradece, como se fosse um favor pessoal, que o povo do Texas esteja a tentar salvar-se como pode. Gostaria de analisar todos estes pontos detalhadamente.

Quanto ao primeiro, deve registar-se que se trata de mais uma falha de carácter de Donald Trump, a juntar às já conhecidas – e não é das menores. Ao longo do tempo, os membros do Partido Republicano foram abandonando Trump por vagas: uns abandonaram-no mal ele abriu a boca; outros deram o benefício da dúvida até saírem umas gravações sobre o tratamento que ele dava às mulheres; outros esperaram um pouco mas não aguentaram mais quando ele disse que havia gente mesmo impecável na manifestação nazi. Agora que se SABE que ele faz ESTA brincadeira PARVA e extremamente IRRITANTE com as palavras, não se imagina quem possa continuar ao lado de um homem destes.

A propósito do segundo ponto, é interessante notar que o tweet parece ter sido concebido por aqueles maduros que vão contemplar vagalhões para o pontão quando há tempestade. Mais do que preocupação, Trump parece exprimir profunda admiração pelo fenómeno natural. São chuvas históricas – e não vão ficar por aqui. É um fenómeno sem precedentes e temos a sorte de estar cá para o contemplar. Realmente, a natureza tem coisas giras.

O terceiro ponto indica que o presidente dos Estados Unidos da América é aquilo que se costuma designar por “buéda fixe”. Obrigadão, malta. Força aí. Tenho visto pessoal a nadar com muito estilo, nesse dilúvio. Está a dar gosto ver. Continuem. Aquele abraço. Cumps.
Apesar de interessante, a mensagem de Trump não me deixa esquecer a ausência de um tipo especial de apreciador de furacões: aqueles fanáticos religiosos que costumam fazer uma interpretação moral dos fenómenos da natureza. Quando o Katrina destruiu Nova Orleães, disseram que se tratava de um castigo divino aos homossexuais daquele Estado. Ora, desta vez, Deus atacou no Texas, povoado sobretudo por caubóis, que não são cá dados a mariquices – apesar do que sugere o filme O Segredo de Brokeback Mountain, que é eminentemente uma obra de ficção científica. Além disso, Trump acabou de aprovar a proibição da entrada de transsexuais na tropa. Talvez Deus não receba o Diário da República.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, setembro 04, 2017

É apenas questão de pobreza

E lá seguiu para Marselha o extraordinário Mitroglou a quem os benfiquistas ficam a dever uma impressionante quantidade de momentos sublimes em apenas dois anos de permanência na Luz. O grego que não sabe sorrir e que tanto nos fez sorrir já não mora cá. O seu contributo foi mais do que inestimável para o título de 2015/2016 – foi ele o autor do golo solitário em Alvalade que permitiu ao Benfica ascender à liderança que não mais abandonaria – e, como se não bastasse, foi também ele o autor inspiradíssimo do golo solitário com que o Benfica venceu em Braga ao cair do pano não permitindo ao FC Porto ascender à liderança quando o campeonato de 2016/2017 se aproximava da decisão. A estes dois golos memoráveis somem-se mais 50 tentos assinados pelo grego em 88 jogos e some-se ainda aquele gesto tão seu de cumprimentar os adeptos com um sereníssimo agitar de mão à maneira da rainha de Inglaterra. Ou de outra rainha qualquer. Que rei.

O melhor jogador da última Liga viu-se afastado dos trabalhos da Selecção Nacional porque se terá lesionado no decorrer do jogo do Benfica em Vila do Conde. Vai continuar, assim, o Pizzi sem ver nenhum cartão amarelo durante mais uma semana. Uma coisa destas merece, no mínimo, três assanhadas dúzias de debates televisivos em prol da verdade desportiva convocando-se, para o efeito, todas as forças intelectuais da desgraçada coligação em vigor.

Na noite da passada terça-feira, enquanto o mundo civilizado se angustiava com o lançamento de um míssil norte-coreano que sobrevoou o território do Japão (merecendo este episódio bélico grande destaque nos serviços noticiosos estrangeiros) entretinham-se por cá todas as nossas estações de televisão servindo ao estimado público português altíssimas chinfrineiras sobre a tormentosa questão do vídeo-árbitro que, como é do conhecimento público, se trata de uma acção experimental superiormente autorizada pela UEFA em uns poucos – pouquíssimos – campeonatos da segunda linha europeia. Que a imprensa em Portugal vive uma crise danada é um dado adquirido e, assim sendo, ninguém com o mínimo de bom senso se atreve a sugerir que sairia mais em conta ao patronato manter correspondentes internacionais constantemente a debitar informação em directo do Congresso em Washington ou em directo da mais alta torre de Tóquio ou em directo de qualquer outro lugar exótico do planeta do que enfiar durante três ou quatro horas três ou quatro indivíduos de singela extracção nacional num estúdio de televisão à mão de semear e, sob a orientação profissional de um moderador da casa, pô-los sem moderação aos gritos sobre, repita-se, a tormentosa questão do vídeo-árbitro ou outra qualquer do mesmo género. E desta maneira se vão preenchendo diariamente emissões atrás de emissões a preços mais do que acessíveis. E quem quiser saber o que se passa neste mundo pois que sintonize a CNN. No fundo, a questão por cá é só uma e é triste: pobreza.



Fonte: Leonor Pinhão @ Record

sábado, setembro 02, 2017

É, portanto, costume...

Singularidades do campeão  
Findo o seu quinto jogo oficial da temporada – um empate molengão em Vila do Conde – o Benfica apresenta-se, do ponto de vista clínico, como a equipa mais regular da Europa e, eventualmente, do mundo. Cinco jogos e cinco jogadores recolhidos à enfermaria. Primeiro foi Grimaldo, titular indiscutível, seguiu-se Fejsa, titular indiscutível, depois foi Salvio, outro que tal, e, por fim, apresentaram baixa Jardel – que caminhava, lenta e naturalmente, para a titularidade indiscutível depois de um ano de ausência – e Pizzi, titularíssimo acima de qualquer discussão. A esta mão- -cheia vazia de jogadores de primeira água vem somar-se os três grandes – aliás, enormes – desfalques sofridos do último defeso: Ederson, Lindelof e Nelson Semedo. Se isto não é caso para levar as mãos à cabeça… 

Não, não é caso para tal! – responderão os mais otimistas entre os apaniguados da Luz lembrando que, na época passada, foi a mesma coisa o que não impediu a festa no Marquês, Nem, muito menos, a celebração final no Jamor. É verdade que o Benfica chegou ao título em 2016/2017 não dispondo de Jonas durante metade da temporada – e isto, sim, foi uma proeza – e contando de agosto a maio com as persistentes intermitências clínicas de jogadores como Salvio, como Fejsa, como Mitroglou, como Raúl Jiménez, como Grimaldo, como Samaris e como tantos outros. É, portanto, costume. E, sendo costume, não haverá motivo para alarme. Podem até, os mais otimistas, regozijar-se pelo facto de ter sido o Benfica, mesmo desfalcadíssimo, a impor ao surpreendente Rio Ave a primeira perda de pontos nesta Liga. É uma maneira de ver as coisas pelo prisma positivo tanto mais que esta Liga só agora começou. 

Trata-se tudo isto de uma questão de confiança. Uns confiarão na recuperação rápida dos pacientes, outros terão por certa a injustiça diariamente cometida pelos departamentos de propaganda do FC Porto e do Sporting que acusam os jogadores do Benfica de uma prática continuada de violência quando, na verdade, são eles – os jogadores do Benfica – que vão saindo a coxear a cada jogo efetuado. Exposto o que os otimistas e os confiantes pensam desta série de maleitas, chegou a altura de vos confidenciar o que pensam os calculistas destas singularidades. Os adeptos calculistas, mais frios e mais racionais, pensam que não podia ter vindo em melhor altura o tropeção em Vila do Conde nem a renovada onda de lesões nem as flagrantes fragilidades tendo em conta que as ditas ocorrências se verificaram a uma semana do fecho do mercado de Verão. Mãos à obra. 



OUTRAS HISTÓRIAS 
Balanço ainda impossível, mas…  
A expressão de Acuña em "pico cardíaco" é um hino ao futebol 
É cedo para o balanço do vídeo-árbitro no campeonato olhando, exclusivamente, para a verdade que a sua existência empresta à tabela. Mas não é cedo para duas outras verdades conclusivamente instaladas ao cabo de quatro jornadas da Liga e que se revelam de uma bondade extrema não para o jogo em si, mas, em primeiro lugar, para a corporação: se, há uns anos, uma equipa de arbitragem era composta por 3 elementos e, de repente, passou a ser de 5 com a introdução dos 2 árbitros que ocupam as linhas de fundo, agora passaram a ser 7 ou 8 os árbitros em função de cada jogo com a chegada dos vídeo-árbitros. Ora isto é, corporativamente, um maná. A segunda bondade do vídeo-árbitro é, como diz o treinador do Sporting, a "grande emoção" que dá ao porque provoca "picos cardíacos que até bates coma cabeça no tecto". Aliás, a expressão de Acuña a sofrer um pico cardíaco quando o Estoril atirou com uma segunda bola para dentro da baliza de Patrício é toda ela um hino ao futebol.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

O homem novo do MPLA envelheceu mal

No momento em que escrevo não se sabe ainda que partido venceu as eleições angolanas – e o suspense está a consumir-me. Será que o MPLA vai ganhar? 

E por quanto? 70%? 80%? 110% Todos os cenários estão em aberto. Quando este texto for publicado, o leitor já conhece os resultados, mas eu vou acompanhar pela noite dentro este renhido sufrágio, prestando especial atenção às sondagens à boca das urnas, para tentar antecipar o imprevisível vencedor. Quem não teve oportunidade de acompanhar a campanha eleitoral poderá recorrer ao relato imparcial do editorial do Jornal de Angola sobre todos os partidos concorrentes. De acordo com a avaliação do maior jornal do país, a UNITA vive de “esquemas ideológicos ultrapassados e de preconceitos do passado”, e está “totalmente desfasada da realidade”. A coligação CASA-CE tem “defeitos de nascença” e cai em “vícios políticos”. Quanto às outras formações, “praticamente não fizeram campanha”, sobretudo porque “vêm repetindo o mesmo de há 25 anos”. Finalmente, o MPLA apresenta um “pensamento diferenciador” e um “projecto altamente global e abrangente”. É, portanto, uma decisão difícil, e suponho que ninguém gostaria de estar na pele dos eleitores angolanos. Que fazer? Optar pela indigência política, o irrealismo, o defeito e o vício da oposição ou pela excelência do MPLA? É uma verdadeira escolha de Sofia. Nos últimos 38 anos, o povo angolano escolheu sempre o MPLA, e é provavelmente por isso que hoje tem uma sociedade livre de indigência, irrealismo, defeito e vício. Outra escolha talvez tivesse feito de Angola um país vergado à pobreza, à corrupção e ao abuso de poder.

Segundo os principais analistas, a única certeza que temos quanto ao resultado destas eleições é esta: José Eduardo dos Santos não vai ganhar. Sinceramente, não estou assim tão seguro. Creio que, em Angola, do facto de José Eduardo dos Santos não se candidatar a eleições não decorre necessariamente que ele não consiga ganhá-las. Basta que meia dúzia de delegados nas mesas de voto não tenham recebido a circular correcta. Se, no entanto, se verificar a substituição do actual presidente por outra figura do MPLA, vai ser interessante acompanhar as mudanças que essa transformação implicará: ao fim de quanto tempo estarão bilionários os filhos do novo presidente? Que meios de comunicação social portugueses irão eles e os seus amigos adquirir? Qual a lista de livros cuja leitura vão decretar proibida e punida com pena de prisão? Enfim, será sem dúvida nenhuma uma lufada de ar podre.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão 

segunda-feira, agosto 28, 2017

Comissão de Instruídos da Liga

Tivesse a Comissão de Instrutores da Liga as devidas preocupações ambientais e, certamente, teria elaborado "um auto de flagrante delito" ao Eliseu por ter andado a queimar gasóleo à tripa-forra na "zona técnica" das cabinas do Estádio da Luz para depois, não contente com a desfaçatez, ter o mesmo Eliseu continuado a queimar gasóleo no relvado do referido recinto em piruetas motorizadas para depois, como se não bastasse, ter-se enfiado com o veículo de duas rodas dentro de um autocarro de quatro rodas – o que é proibido pelo código dos transitários – para, finalmente, o mesmíssimo Eliseu desembocar em mais e maiores emissões de dióxido de carbono em voltinhas na Praça do Marquês causando aquele "alarme social" que varreu o país de lés-a-lés na noite do dia 13 de Maio passado. Fosse a Comissão de Instrutores da Liga uma Comissão de Instruídos da Liga, instruídos naturalmente em questões civilizacionais básicas, e o Eliseu estaria algemado desde a festa do "tetra" pelo horror que causou a uma quantidade de gente alérgica a estas coisas. Mas, infelizmente para o bom nome das competições profissionais no nosso país, existe uma Comissão de Instrutores da Liga mas uma Comissão de Instruídos da Liga é coisa que não existe. Pensem nisso.

Um voo proveniente de Bruxelas aterrou em Lisboa trazendo a bordo um adolescente de 17 anos a quem, presume-se, um dia será confiada a baliza do Benfica. É verdade que os fora-de-série Oblak e Ederson eram muito jovens quando se viram de pedra e cal no onze titular mas nenhum deles era propriamente um "teenager" quando Jorge Jesus, no caso do esloveno, e Rui Vitória, no caso do brasileiro, os fizeram alinhar pela primeira vez na equipa principal. O que pretenderá fazer o Benfica com Mile Svilar até ao momento em que o belgazinho estiver maduro para as altas tarefas da competição no mundo dos adultos? Ou já está? O mais jovem guarda-redes que alinhou alguma vez pelo Benfica em mais de um século de história foi Rui Nereu que se estreou aos 19 anos num jogo da Liga dos Campeões com o Villareal. O "teenager" Nereu substituiu Quim que se lesionou à meia hora do jogo no El Madrigal e fez os 90 minutos inteiros na recepção ao mesmo Villareal porque, à data, Quim continuava inoperacional e Moreira também tinha caído à enfermaria. Não foi nada feliz Rui Nereu nessa ocasião com o Villareal no Estádio da Luz e, desde então, a ideia de guarda-redes adolescentes de águia ao peito sempre horripilou um bocadinho os adeptos. A qualidade excepcional de Oblak e de Ederson ajudou, entretanto, a desfazer o preconceito contra a juventude extrema num lugar de tanta responsabilidade. Confiantes depois destes dois magníficos exemplos do passado recentíssimo, os benfiquistas anseiam agora por ver a alegada qualidade excepcional de Mile Svilar estabelecer um novo marco etário nos registos da casa. Ou isso ou esperar.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sábado, agosto 26, 2017

Uma questão de vírgulas

É injusta, deselegante e discriminatória a pena de três jogos de suspensão aplicada pelo Conselho de Disciplina da FPF ao árbitro Jorge Sousa. Foi-lhe aplicado esta semana o castigo por ter posto na ordem um jogador de futebol dirigindo-se--lhe, é verdade que autoritariamente – mas não é essa a sua função? – em termos isentos de perfídia, isentos de deseducação e de vulgaridade tendo em conta (e foi isto, precisamente, que os doutos juízes e conselheiros da justiça desportiva não tiveram em conta!) que o sobredito cidadão Manuel Jorge Sousa nasceu no Porto. Lá nasceu há 42 anos e lá, no Porto, deve ter sido criado desde o berço pelo que, à luz da Academia da Língua Portuguesa – que não existe mas devia de existir – está o árbitro em questão superior e civilizacionalmente autorizado a proferir a palavra "c……" no princípio, no meio ou no fim da cada frase, como soar melhor, sem que se lhe possa atribuir intenções de ofender quem quer que seja ou de se ofender a si próprio por recorrer a baixezas, a grosserias ou a coisas ainda piores. 

A condenação absurda de Jorge Sousa começa logo por incorrer num gravíssimo erro formal. A gravação das suas palavras não foi autorizada por um juiz!!! E, no entanto, já todo o país as ouviu. Ora aqui está o famosíssimo erro formal que, em tempos não muito distantes, serviu para safar das garras da lei uma catrefada de acusados de um outro processo em que o vernáculo era rei e senhor num rol infindo de palavras, de metáforas pecaminosas e de interjeições da mais variada estirpe que nada valeram em tribunal mas que continuam disponíveis no Youtube para os estudiosos destas coisas do linguarejar das nossas regiões. 

Ao infeliz Jorge Sousa bastou-lhe uns poucos "c……." para se ver castigado pela  FPF que tem sede em Lisboa e está, por certo, contaminada pelos falares de uma Capital de snobes onde as frases mais ouvidas nas suas ruas terminam invariavelmente num horrível "ok" – será por causa dos turistas? – e  não em "c……" que sempre é nosso porque é português. Deixem que vos relate um caso que vivi há meia dúzia de anos e que ajudará, espero, a ilibar Jorge Sousa perante a opinião pública. Conversava eu com uma simpática portuense que era professora de Língua Portuguesa no secundário quando, ao trigésimo oitavo "c……" em cinco minutos de diálogo, lhe perguntei sem agastamento mas com curiosidade. "Oh senhora doutora, não serão ‘c…….’ a mais?" E que resposta sublime recebi: "Oh, não ligue, sabe que no Porto ‘c……’ é como se fosse uma vírgula!" E com isto logo se me calou a sobranceria alfacinha. E por isto não posso aceitar o castigo a um árbitro só porque abusou das vírgulas quando utilizava o discurso direto numa ação pedagógica. Liberdade para Jorge Sousa! 



Outras Histórias 
Conspirações internacionais  

A questão da máquina de lavar não tem importância formal 
Uma fonte colocada na Comissão de Instrutores da Liga jurou-nos que a dita Comissão, dando provimento à queixa do diretor de comunicação do Sporting, acaba de abrir um auto disciplinar ao jornaleco "New York Times", esse bastião lampião a um oceano de distância, por se ter atrevido a escrever erradamente o nome do clube português. Aconteceu que o pasquim elaborou uma maçadora peça jornalística e, a propósito não se sabe de quê, entendeu arrolar o "Sporting Lisbon" a uma quantidade de dislates inspirados na teoria, absurda, de que o nosso país se transformou numa "máquina de lavar dinheiro" de uma antiga colónia. A questão da máquina de lavar não tem importância formal porque sendo coisa singela da área dos eletrodomésticos nem sequer é notícia. Já o caso da troca do nome do clube configura, em todo o seu esplendor, uma conspiração internacional que foi prontamente denunciada. Como se dirá ao "jornaleiro" do NYT, e em língua americana, "anda lá o quê, c……!"?.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha 

quarta-feira, agosto 23, 2017

Previsão de uma vida de sucessos

O Benfica recebe esta noite o Belenenses no Estádio da Luz e o desejo da multidão benfiquista será ver Filipe Augusto entrar em campo o mais cedo possível porque sempre que Rui Vitória lança Filipe Augusto é sinal de que a coisa se resolveu a bem. Na segunda-feira, em Chaves, o nosso Filipe Augusto só entrou aos 90+4 minutos porque o Benfica só conseguiu marcar aos 90+2 minutos e como o árbitro – que, no fim do jogo, até recebeu uma camisola oficial das águias por deferência com a grande penalidade sonegada – concedeu 6 minutos de tempo extra só conseguiram descansar os adeptos do Benfica entre os 90’+4 e os 90’+6. Foi, assim, curto o descanso que nos foi dado no jogo de Trás-os-Montes que nem sequer foi um ‘clássico’. Já o desta noite, sim, é um ‘clássico’ com tudo o que isso implica de imprevisibilidade. Corram, corram. Parece que o Fejsa se lesionou. Mas que grande novidade. Corre, corre, Filipe Augusto.

André Silva estreou-se na quinta-feira em San Siro e marcou dois belos golos deixando os adeptos AC Milan felizes com a categórica apresentação do avançado. Mais contente do que os adeptos do AC Milan – e trata-se de uma plateia exigente – ficou, no entanto, o próprio André Silva. Festejou as proezas com um sorriso largo que não engana. Ficou, assim, aprovada pelos ‘tiffosi’ locais a contratação do jogador português e, melhor ainda, ficou também explicado o sentido da misteriosa frase do director de comunicação do FC Porto – "o melhor ainda está para vir!" – que se referia, como agora se percebe, ao brilhante futuro profissional que inevitavelmente aguarda André Silva depois de ter trocado de patrão. Tomara sobre tantos outros funcionários do futebol português poder vaticinar-se uma vida de êxitos deste quilate a cada mudança de entidade patronal.

Menos de 24 horas depois do encosto ao árbitro de Camp Nou ficou Cristiano Ronaldo a saber que o seu gesto lhe valerá 5 jogos de suspensão. Apreciem como a justiça desportiva espanhola é tão mais célere do que a nossa em matéria de decisões. Esta semana, por cá, houve a decisão do caso do túnel de Alvalade 283 dias depois da rixa tabernal entre os presidentes do Sporting e do Arouca. E até já se pensava que os prazos para a condenação destas inclemências estariam a evoluir para uma aproximação aos ritmos dos patamares disciplinares europeus.

Foi, porém, enganosa a esperança. Enganosa e induzida pelo facto de o castigo a Slimani pela cotovelada em Samaris ter demorado 203 dias a ser conhecido e pelo facto seguinte, tão promissor: o castigo ao mesmo Samaris pelo ‘uppercut’ a Diego Ivo demorou ‘apenas’ 44 dias a ser pronunciado. Deu-se, assim, a entender aos optimistas que estava em curso o progresso. É que de 203 para 44 dias, enfim, é outra aceleração. Agora, com estes 283 dias, voltou tudo a andar para trás. Ou para a frente, como preferirem. Estas conclusões dependem sempre da perspectiva.



Fonte: Leonor Pinhão @ record


sábado, agosto 19, 2017

O saudoso disco rígido

Talvez por se ter festejado um tanto ou quanto a mais do que teria sido aceitável, à luz do bom senso, o facto de o Sporting ter partido para o sorteio da pré-eliminatória da Liga dos Campeões na condição de cabeça de série – o que, por um conjunto milagroso de circunstâncias, afastou conjuntos como o Liverpool ou o CSKA do caminho dos leões – acabou por ser recebido como dececionante o empate sem golos com que veio a terminar o jogo de terça-feira, em Alvalade, com o Steaua Bucareste referente à 1ª mão da tal pré-eliminatória que dará, ou não dará, acesso à ambicionada fase de grupos da prova maior da UEFA. Ambicionada, porém não "obrigatória" como tão bem explicou Jorge Jesus à imprensa. "Obrigatória entre as aspas", disse o treinador, que, mesmo tendo deixado o "disco rígido" do seu computador no Seixal, consegue, ainda assim, ser sempre o mais lúcido dos elementos do staff do futebol sportinguista. 

Nesta premente questão europeia – premente porque a questão é dinheiro –, o discurso de Jesus é notoriamente oposto ao discurso do presidente. Bruno de Carvalho diz que é tempo de "o leão mostrar que é o rei da selva" e o treinador diz que só é "entre aspas" que o Sporting tem de se qualificar obrigatoriamente para a selvajaria da Liga dos Campeões, o presidente diz que "o nome" do Sporting não o desobriga de lutar por afastar os romenos e Jesus responde afirmando que os dois emblemas "são do mesmo nível"… Todas estas salutares divergências de opinião serão, normalmente, reduzidas a nada se o Sporting, como se espera, afastar o Steaua e entrar direitinho na Liga milionária. 

E, dando razão a Jesus e ao seu otimismo racional, não há motivo para considerar que o 0-0 da 1ª mão seja, de facto, um mau resultado. Não é, obviamente, um "score" que tenha resolvido a discussão a favor do Sporting – como muita gente inocente tinha como garantido – mas é um resultado mais do que aceitável e até promissor. O Sporting não marcou, é verdade, mas não sofreu nenhum golo, o que lhe dá enorme vantagem se marcar em Bucareste, o que a acontecer não será de todo uma proeza do outro mundo. A bipolaridade dos adeptos – de todos os adeptos de todos os emblemas – é bem mais difícil de contornar do que este nulo de terça-feira. Do triunfalismo perante os acasos que terão ditado um sorteio doce na Europa ao pessimismo destrutivo que passou a imperar consumada que foi a não-goleada prevista, vai um passo, enfim, um passinho de Podence que é, entre todos, o que terá o passo mais curto. Ora isto não é ciência exata. É um jogo de bola. E Jesus nem precisa do saudoso disco rígido do velho computador do velho emprego para saber o que vem aí se a coisa der para o torto. 



O tal Luís Miguel Afonso Fernandes  
Eis como o Benfica se tornou num caso de Pizzi-dependência 
Foi eleito o melhor jogador da última Liga e ninguém se atreveu a protestar essa eleição porque, de facto, Pizzi foi o melhor jogador da última Liga. Não tem, no entanto, lugar no "onze" de Fernando Santos porque abundarão na seleção nacional centrocampistas capazes de meter a bola à distância e de inventar soluções maravilhosas quando o jogo da equipa emperra. É também notícia pelo seu futebol avesso a picardias e, de tal forma avesso, que não há maneira de ver um cartão amarelo para desgosto e escândalo do comité de decência do nosso futebol onde se abrigam os mais decentes entre os moralizadores do reino. Tem um tique muito próprio que é o de franzir os olhos antes de meter a bola onde quer e uma esquisitice destas devia, no mínimo, ser investigada. No início da semana, em Trás-os-Montes, inventou o lance de que resultaria o golo do triunfo da sua equipa e festejou-o como se não houvesse amanhã. Tudo isto somado e eis como o Benfica se tornou Pizzidependente.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Centro de treino do vídeo-árbitro

Realizou-se a 1ª jornada do campeonato de 2017/2018. Começou, assim, a era moderna do futebol português com a introdução de tecnologia no intuito, louvável, de reduzir ao mínimo os erros de avaliação dos juízes de campo. O vídeo-árbitro será a solução para o futuro mas, face aos eventos registados na primeira jornada da nossa Liga, pode considerar-se, com muita pena, que o vídeo-árbitro não é de todo a solução para o presente da indústria. 

Apesar de haver "vídeo", uma maquinaria impessoal que debita imagens reais, continua a haver "árbitro" e esse fator humano – demasiadamente humano – parece que só lá está para atrapalhar. Sucedem-se, por exemplo, situações, inauditas, em que os jogadores têm de esperar até poderem festejar os golos que apontaram depois do visionamento e revisionamento do lance e da concomitante aprovação das autoridades sentadas. 

Casos destes são péssimos para o natural fluir do espetáculo e só são ótimos para os espectadores e para os adeptos quando se dá o caso de a decisão final ser do seu agrado. E como o agrado de uns é o desagrado de outros, prevê-se igual número de dissabores da multidão entre esperas pouco naturais em função do historial do jogo. 

O cidadão comum, que acha perfeitamente natural esperar dois ou três minutos pela chegada do metropolitano, já não achará aceitável esperar essa eternidade para poder festejar um golo dos seus ou para lançar as mãos à cabeça perante o desespero de um golo que teve de ser sancionado com "delay" pela equipa de vídeo-árbitros. 

No entanto, mesmo com estes soluços práticos dos primeiros tempos, a chegada do vídeo-árbitro ao campeonato português encerra grandes, enormes vantagens para uns quantos agentes da indústria. Os primeiros beneficiados são os árbitros de campo propriamente ditos. 

Se o vídeo-árbitro não é ainda a melhor coisa que aconteceu ao futebol, já é, certamente, a melhor coisa que aconteceu aos árbitros, que, de apito na boca, dirigem jogos na vida real. Pelos montantes de ódio que recaíram sobre os vídeo-árbitros na sequência de decisões tomadas nos jogos FC Porto-Estoril e Benfica-Sp. Braga não é difícil concluir que a tarefa e a vida dos árbitros-a-sério fica bem mais facilitada com a introdução desta era de modernidade. 

Que ninguém se admire se lá mais para o Natal, quando a tabela ferver, uma qualquer claque – legalizada, obviamente – invadir furiosamente o centro de treinos dos vídeo-árbitros pedindo satisfações aos árbitros-sentados e deixando em paz o centro de treinos dos árbitros-em-pé. Mas que futuro extraordinário se adivinha para os nossos futebóis. 



A receita: custo zero + custo zero + 22 milhões de euros 
Faz hoje uma semana que o Benfica arrecadou o primeiro título oficial da temporada vencendo o Vitória de Guimarães por 3-1 na discussão da Supertaça com golos de Jonas, Seferovic e Jiménez. 

A única novidade deste episódio, por comparação com os protagonistas dos êxitos nas últimas épocas, é o tal tento de Seferovic, um suíço recém-chegado a "custo zero" depois de esgotado o contrato que o prendia ao Eintracht de Frankfurt. Também Jonas chegou ao Benfica a "custo zero" em 2014 com amplos proveitos para todas as partes. 

Com Seferovic à disposição parece ter-se reduzido o campo de Mitroglou, que, nas artes de se chegar às balizas, é dono de um reportório mais curto do que o do suíço. São estas as primeiras impressões deixadas em campo por Seferovic, que voltou a marcar ao Braga. 

Mas quem resolveu mesmo a questão da Supertaça foi o mexicano Jiménez, o tradicional solucionador, que custou 22 milhões de euros e que, normalmente, se senta no banco. E qual é o problema?



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

domingo, agosto 13, 2017

É tudo uma questão de tamanho

Três metros! Medem tudo os fautores da inovação. Vão acabar a medir ecrãs de televisão de régua em punho porque o golpe de vista já não chega. Nesta senda, "O Jogo" chamou para título de uma sua recente edição on-line o caso do "tamanho das bandeiras do Benfica" nos estádios de futebol. Depreende-se, pela melancolia da reportagem, que têm tamanho a mais. No entanto, maior força moralizadora teria esta luta se o alerta bandeiral do diário portuense apresentasse as medidas concretas dos panos. Até porque naquele célebre rendez-vous elegante no Hotel Altis entre os chefes-comunicadores do FC Porto e do Sporting ficou logo assente que, no que a bandeiras do Benfica dissesse respeito, pertencia ao pessoal do Porto medir os estandartes propriamente ditos enquanto ao pessoal de Alvalade caberia medir os respectivos paus.

Saúde-se, assim, quem leva a peito as incumbências. Neste caso preciso, saúde-se o diligente Saraiva que, ao contrário dos amigos negligentes que medem tamanhos a olho nu, deu-se ao trabalho – e, aliás, viu-se bem atrapalhado… – de desenrolar 300 centímetros de fita métrica até se poder apresentar em público denunciando a verdade sobre o tamanho dos paus das bandeiras do Benfica. Têm "hastes de três metros" disse conscientemente porque as mediu e, também, elegantemente porque as hastes sempre lhe soam melhor do que os paus como, aliás, soam melhor a toda a gente de bom senso.
Os dois primeiros jogos oficiais confirmaram as suspeitas: para Seferovic não há ângulos difíceis. Todos os ângulos são bons para o suíço atirar à baliza. Eis um facto que não se enquadra em nenhum ilícito penal.

Já para Ricardo Espírito Santo, o realizador da transmissão televisiva do jogo da Supertaça, houve um ângulo difícil. O Ricardo, o extraordinário profissional, o cavalheiro que docemente nos poupou ao abuso necrófilo na hora da morte de Féher, viu-se em fogueiras porque, inadvertidamente, deixou ir para o ar 3 segundos mais cedo do que estava previsto o plano de uma rapariga extraordinariamente bem equipada. E o que estaria destinado a ser o milionésimo plano geral de uma adepta vistosa num estádio de futebol apareceu em casa de toda a gente como um zoom ao peito da rapariga. Pediu desculpa o Ricardo, claro. Mas não chegou para pôr cobro à indignação, o que é de estranhar porque, por exemplo, os três jornais desportivos nacionais, que tanto se orgulham de ter mulheres nos seus quadros como prova absoluta da "igualdade" entre sexos, publicam a toda a hora nas suas edições on-line fotografias de raparigas quase 100% desequipadas e a que correspondem legendas como "É de ver e de chorar por mais" ou "Chame-lhe o que quiser mas depois não se queixe" ou "Esta tailandesa leva qualquer um para a cadeia". E, segundo parece, ninguém se ofende apesar de já estarmos na 2.ª década do século XXI.

Têm "hastes de três metros" disse conscientemente porque as mediu.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

segunda-feira, agosto 07, 2017

Rui Vitória e a difícil arte de substituir insubstituíveis

O Benfica sofreu 14 golos em 6 jogos na pré-temporada, o que é um exagero para uma equipa que se habituou e que habituou os seus adeptos a uma solidez defensiva só ao alcance de campeões. O problema, bastante visível, não encerra nada de sobrenatural. 

O bruxo é, presume-se, o mesmo mas o Benfica viu sair de uma assentada o guarda-redes Ederson, o defesa-lateral Nélson Semedo e o defesa-central Lindelof e os destinos que tomaram estes jogadores dizem tudo sobre a sua incomparável valia. E, assim sendo, comparar o atual grupo defensivo do Benfica ao "ensemble" que brilhou em 2016/2017 será sempre um exercício confrangedor. 

Só por milagre conseguirá o Benfica reconstruir um setor recuado que se aproxime da qualidade exposta por aquele trio de ouro e este "drama" vai marcar, inelutavelmente, a temporada de 2017/2018 na Luz. 

Do meio-campo para a frente continua o Benfica aparentemente bem servido e três dos chamados "reforços" apresentaram credenciais nestes 6 jogos de preparação antes de a coisa ser a sério. O suíço Seferovic, o inglês Willock e o eslovaco Chrien, sem deslumbrar, mostraram habilidades em número suficiente para aprovação nestes exames de verão. 

Pena que nenhum deles seja um médio-defensivo porque o Benfica, até ver, continua dependente de Fejsa – e só de Fejsa – nessa zona charneira de tudo o que de bom e de mau pode acontecer a uma equipa num jogo de futebol. Boa sorte e toda a saúde do Mundo para Jonas, Pizzi e Luisão – os 3 essenciais – e quem sabe se o tal ‘penta’ não acabará mesmo por acontecer? 



O preço dos golos, Jiménez e os outros  
Se a História se repetir e o Benfica chegar às derradeiras jornadas da próxima Liga apertado na classificação por um dos seus rivais (ou pelos dois ou até por três, dando-se o caso de aparecer um intruso na luta pelo título) e se vir na obrigação de conquistar os 3 pontos na sempre difícil deslocação a Vila do Conde, quem é que vai marcar desta vez o golo salvador se Raúl Jiménez for vendido até ao fim deste mês de agosto? Seferovic, pois claro, dirão os adeptos mais otimistas ainda encantados com os golos suíços na pré-temporada. 

Mitroglou, pois claro, dirão os mais tradicionalistas que não esquecem o golo grego que valeu os 3 pontos em Braga na época passada. No entanto, dificilmente conseguirá o Benfica manter o mexicano, o suíço e o grego nos quadros. Raúl Jiménez é o mais completo dos três e é o que detém um reportório mais amplo. Por isso mesmo é o que tem maior valor de mercado e o que fará mais falta. 


Rafa 
Ou sim ou sopas 
Não foi barato o preço que o Benfica pagou ao Sp. Braga por Rafa e eram bem altas as expectativas criadas em torno do jogador. Em 2016/17, o ano de estreia na Luz, Rafa não passou do assim-assim. Em 2017/2018, passará? 



Cervi  
Em todo o campo 
O argentino foi figura importante na conquista do ‘tetra’ acrescentando aos seus dotes ofensivos uma surpreendente capacidade de luta e de sacrifício. E foi assim que conquistou o treinador e os adeptos. 



Grimaldo  
Questão lateral 
Vender Grimaldo é uma possibilidade para o Benfica, o indisputado rei dos encaixes chorudos. A questão é que com Grimaldo o Benfica fica mais forte e sem Grimaldo nem de perto nem de longe se lhe vê sucessor no horizonte. Haverá sempre Eliseu?



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sábado, julho 29, 2017

Com três centrais, não!

Falta uma semana para tudo voltar a ser a sério. Já não era sem tempo. O defeso passou-se como se passam todos os defesos. Entre a monotonia e a saudade das emoções, e mais uns quantos sentimentos mornos salpicados de promessas bélicas a anunciar o que está para vir de agosto até maio de 2018. Jogadores e treinadores estiveram de férias mas os departamentos de comunicação dos três candidatos ao título não pararam nem para dar um mergulho rápido na água do mar que tudo refresca, até as ideias. Prosseguiu, assim, em tons ameaçadores, o diálogo institucional entre os grandes de Portugal. Estas chinfrineiras pagam-se lamentavelmente. 

O diretor de comunicação do FC Porto, por exemplo, anunciou na semana passada que "o melhor está para vir" e logo no dia seguinte o presidente do clube sofreu uma queda aparatosa que o remeteu para o leito de um hospital. O presidente do Sporting também foi notícia porque se casou, o que, convenhamos, não tem nada de francamente especial, e o presidente do Benfica só conseguiu ser notícia porque entrou em campo à frente da equipa no primeiro dia do estágio em Inglaterra, um acontecimento menor que lhe outorga o título do menos mediático dos três sensacionais presidentes em concurso. 

A época oficial de 2017/18 arranca no próximo fim de semana com a discussão da Supertaça, que opõe o campeão nacional ao finalista vencido da Taça de Portugal. Terá, portanto, o Benfica de vencer o V. Guimarães se quiser continuar a sua impressionante soma de títulos e se pretender continuar a ser veementemente acusado de domínio hegemónico em Portugal. É com isso que os benfiquistas contam e é contra isso que a equipa de Pedro Martins se vai debater de hoje a uma semana em Aveiro. 

Para preparar o confronto com os campeões de Portugal escolheu o V.Guimarães ter neste defeso por adversários o FC Porto e o Sporting, duas equipas do top interno, tendo-se saído mal no jogo com os primeiros e muitíssimo bem no jogo com os segundos. A equipa técnica do Benfica observou, certamente, com muita atenção o evoluir da formação vitoriana – sempre um rival que mete respeito – desde o primeiro dia da chamada pré-época e terá chegado, pelo menos, a uma conclusão pertinente: é de todo desaconselhável jogar contra o V.Guimarães com uma linha de 5 defesas contando com 3 centrais. Foi o que fez o Sporting e viu-se o que aconteceu. 

Se não fosse o árbitro ter mostrado um cartão vermelho a Coates impondo com bom senso, mas à força, o regresso a uma linha defensiva mais clássica, ninguém sabe a que volume teria chegado o ‘score’ final. Foi este o fulminante recado deixado a Rui Vitória depois de Rio Maior: com 3 centrais, não! 



Geraldes e o problema de ler em pleno horário de trabalho    
O gosto pela leitura é uma bênção e ninguém considerará que a profissão de futebolista é incompatível com o prazer dos livros. Bem esteve o marketing do Rio Ave ao anunciar Francisco Geraldes como um dos seus para 2017/2018 através da imagem de um exemplar de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ de Saramago semi-envolvido numa camisola vila-condense. Foi este o livro que Geraldes lia no banco do Sporting enquanto não começava um desses joguinhos da pré-temporada. 

O caso deu algum brado e fica a dúvida se o jogador terá sido emprestado pelo Sporting ao Rio Ave por não ter qualidade suficiente ou por estar a ler de chuteiras calçadas, ou por o título da obra ter sido entendido como provocatório. Ler é uma vantagem (e sempre será) mas a abstração que a leitura provoca não pode ser consentida a nenhum profissional de nenhuma profissão no momento em que as suas funções lhe exigem a maior concentração operacional. 

Ainda assim, como não simpatizar com o Xico Geraldes e com o Rio Ave?




Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

domingo, julho 23, 2017

Octávio e os passarinhos

Nestas conversas do futebol, fala-se muito de "credibilidade" como a qualidade sem a qual ninguém pode ser levado a sério.
Até nas esferas mais altas da nossa Justiça desportiva é essencial essa qualidade de se poder ser levado a sério de modo a não ferir decisões importantes para a moral pública.
Veja-se este caso recente da decisão de um órgão disciplinar da FPF sobre o processo do Apito Dourado em que foi liminarmente desprezada a contribuição de uma testemunha por não lhe ser reconhecida credibilidade.
É um facto que vivemos numa sociedade altamente civilizada onde, por exemplo, quem trabalha ou trabalhou numa casa noctívaga não tem credibilidade, enquanto aos clientes da mesma casa noctívaga é reconhecida toda a credibilidade desde que por lá paguem as contas e exijam os seus números de identificação fiscal nas facturas. É assim que o país progride.
Todo este relambório vem a propósito de Octávio Machado, o ex-director do futebol do Sporting, e da entrevista que concedeu à CMTV tendo como tema central a sua saída voluntária da estrutura do clube de Alvalade que, agora sem ele e segundo as suas próprias palavras, está repleta de "passarinhos", que é a mesma coisa do que dizer que a incompetência campeia.
A mudança de campo de Octávio provocou, naturalmente, acesas discussões entre a opinião pública dividida no que respeita à credibilidade a emprestar ao funcionário diligente e leal à presidência que passou, com a mesma verve de sempre, a dissidente leal à dissidência.
Feridos pela doença intratável de clubismo, milhares de fazedores de opinião – os profissionais dos estúdios de TV e das redes sociais e os amadores que pululam em todos os cafés e cervejarias do país – fizeram passar as declarações contundentes de Octávio Machado pelo crivo da querida credibilidade e chegaram a dois tipos de conclusão: a primeira, aos olhos dos sportinguistas afectos ao regime, é que o ex-dirigente em causa não tem credibilidade nenhuma, e a segunda, aos olhos da oposição interna e dos rivais externos é que o mesmo ex-dirigente tem toda a credibilidade do mundo.
Curiosamente, antes da demissão de Octávio ser uma hipótese a considerar nos terreiros, as opiniões destes grupos em confronto eram em tudo contrárias.
E os que acreditavam no "palmelão" que reunia em si o suprassumo das qualidades de que um homem necessita para ser levado a sério são agora os que menosprezam e fazem por ignorar olimpicamente as opiniões do "palmelinho" a quem acusam do ressabiamento dos não-credíveis. E vice-versa. "Olhó passarinho!", gritavam os antigos fotógrafos de feira.
"Olhó passarinho!", diz agora o novo Octávio que, em boa verdade, é o mesmo Octávio de sempre."


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manhã