sexta-feira, dezembro 01, 2017

Discriminar como Jesus discriminou

Duas semanas depois de se saber que um padre madeirense tinha sido pai de uma menina, o cardeal-patriarca defendeu que os homossexuais não deviam poder ingressar no seminário. Desejo a todo o custo evitar ser acusado do terrível pecado de atheistsplaining, mas este parece-me um raciocínio difícil de seguir: o facto de paroquianas aparecerem grávidas indica que talvez a homossexualidade dos clérigos não seja o problema mais premente da igreja. Não se percebe, aliás, como poderia ser um problema. Antes pelo contrário: os padres juram manter-se celibatários, e impor o celibato a um homossexual é uma solução que a moral católica costuma ver com muito agrado.

Para justificar a proibição, o cardeal-patriarca disse: “Em Cristo não há nada de homossexual, como os evangelhos relatam”. É verdade.  Mas também não há nada de heterossexual.  Cristo não manifesta interesse sexual por ninguém. O que, deve dizer-se, é pena. A Bíblia teria ainda mais leitores se o Messias, em conversa com os apóstolos, fizesse considerações do género: “Em verdade vos digo que a filha daquele fariseu é mesmo boa.” O que pode dizer-se com propriedade é que em Cristo não há nada de discriminatório. Parece ser essa, aliás, a característica que mais seduz os crentes. Por outro lado, é muito raro ouvirmos um teólogo louvar-lhe a heterossexualidade.

Na mesma ocasião em que rejeitou a entrada de homossexuais no seminário, o cardeal-patriarca também falou no padre madeirense. Disse que o padre poderia continuar na igreja, desde que “na fidelidade ao celibato, sem vida dupla”. Porque, acrescentou, um padre deve escolher “não constituir família”, pois só assim poderá ser “familiar de todos”. Estas declarações são ainda mais surpreendentes. Ninguém defende mais a família e o superior interesse da criança do que a igreja. Essa defesa costuma ser feita nestes termos: uma criança precisa de uma família, e uma família é constituída por um pai e uma mãe. A criança, sublinham sempre, precisa imprescindivelmente dessas duas figuras. É por isso que outros modelos de família não são admissíveis. Mas neste caso, ao que parece, acima do inferior interesse da criança está o superior interesse da diocese. O pai da criança deve renunciar à família, porque tem outras obrigações mais importantes. Aquela criança não pode ter uma família porque o pai tem de ser “familiar de todos”. Resumindo: naquele dia, o cardeal-patriarca disse que um homossexual não deve procurar uma vida de celibato e um heterossexual não deve constituir família. Julgo que é disto que fala o livro do Apocalipse. Vou procurar abrigo.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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