sábado, maio 27, 2017

Futebol à vista desarmada

José Mourinho continua a fazer a sua própria História e ainda a História dos clubes por onde passa. Na quarta- -feira conquistou a Liga Europa para o Manchester United. 

Finalmente, parece dissipar-se sobre Old Trafford a velha sombra de Sir Alex Ferguson que não deixava nada nem ninguém ganhar o que quer que fosse em preito da lenda do insubstituível treinador e manager escocês. 

Agora ex-insubstituível porque Mourinho chegou e no seu primeiro ano conquistou a Supertaça de Inglaterra, a Taça da Liga e a Liga Europa, o único troféu continental que faltava no palmarés do Manchester United. 

Diga-se também, depois da saudação patriótica a José Mourinho, que a final da Liga Europa não passou de um joguinho sem grandes motivos de empolgamento. 

Os ingleses foram muito melhores do que o grupo quase infantil do Ajax. O árbitro era um simpático esloveno que acertou em quase todas as decisões por si tomadas, pelo que, no fim do jogo, não houve lugar a lamentos do público nem a impiedades da crítica. 

Foi um árbitro à antiga o que esteve na arena de Estocolmo para dirigir a discussão do segundo troféu em importância no quadro competitivo europeu. 

Um árbitro-humano sem recurso ao vídeo-árbitro que não deixa de ser humano mas que se socorre da tecnologia para eliminar erros grosseiros de avaliação em prol da verdade desportiva. 

A questão é que mesmo havendo – e não houve – uma mão-cheia de erros do tal árbitro esloveno, a verdade desportiva desta final da Liga Europa rezaria sempre que sendo o Manchester United muitíssimo superior ao Ajax a vitória lhe assentava lindamente. 

Voltando à santa terrinha, amanhã, no nosso Jamor, joga-se a final da Taça de Portugal, a reedição da final de 2013 entre Benfica e V. Guimarães. Lembram-se? Cardozo a "crescer" para Jorge Jesus no fim do jogo e Rui Vitória a crescer aos olhos de Luís Filipe Vieira como mais do que hipotético substituto de Jesus assim houvesse oportunidade para tal. E houve. 

No entanto, a maior novidade da final de amanhã não é a mudança de treinador de 2013 para 2017 mas a estreia oficial do vídeo-árbitro no futebol português. 

Benvindo seja o vídeo-árbitro mas, por favor, não esperem ver Hugo Miguel entrar em campo com uma câmara de vídeo aparafusada à cabeça e uns auscultadores de última geração pendurados nas orelhas. 

À vista desarmada não haverá modernices deste jaez. À vista desarmada só haverá futebol tal como inventado no século XIX. Que seja uma tarde magnífica para o público em geral e que vença o emblema que mais fizer por isso. E viva o árbitro e o vídeo do árbitro e o século XXI! 



OUTRAS HISTÓRIAS 
Os singulares casos do Bessa  
A bipolaridade do nosso futebol tem coisas destas 
Ficaram aborrecidos, à entrada do recinto, os benfiquistas que no sábado se deslocaram até ao Estádio do Bessa para assistir ao jogo de despedida da sua equipa no campeonato de 2016/2017. 

Por questões de sabe-se lá o quê, entenderam os responsáveis pela organização do acontecimento proibir a entrada com "adereços" benfiquistas ao numeroso público visitante. Ora isto não se faz. 

Não é bonito aproveitar a maré vermelha para vender bilhetes a preços da Liga dos Campeões e, depois, não permitir que o colorido intenso da festa chegue às bancadas. O que vale é que a má disposição dos benfiquistas do Norte não durou muito. 

A desagradável surpresa às portas do Bessa viria a ser abafada pela agradável surpresa que ocorreu no momento em que a equipa do Benfica entrou em campo. 

Recuperando uma velha tradição, os jogadores do Boavista postaram-se à saída do túnel e abriram alas para receber em sua casa os jogadores campeões. A bipolaridade do nosso futebol tem coisas destas.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

O prolongamento do prós e contras no dia seguinte do frente a frente

– E, mais uma vez, Portugal cresce por causa do meu clube.

– O seu clube foi claramente beneficiado.

– Não foi, não. Foi um crescimento limpinho, limpinho.

– O seu clube foi escandalosamente beneficiado por uma conjuntura favorável que, aliás, se deve ao meu clube.

– Então não vinha aí o diabo? Eu sei bem o que se disse e o que se escreveu quando nós começámos a repor rendimentos. Que vinha aí o diabo. Afinal não veio. O sotôr desiludiu milhares de satânicos.

– Não veio o diabo porque vocês cortaram o investimento público. Olhe para as estatísticas em câmara lenta, que se vê melhor. Olhe ali o investimento público a ser claramente ceifado.

– É falso, o governo nem lhe toca.

– Toca, toca. Leia os técnicos do Conselho de Finanças Públicas. São unânimes.

– São unânimes porque estão todos ligados ao seu clube. Também diziam que o défice não ia cair.

– O défice caiu porque foi empurrado.

– Não foi, não.

– Foi, foi. Foi claramente empurrado pelos empréstimos do BCE.

– No máximo há um encosto, mas não é um empurrão. O que conta é a intensidade, e não houve intensidade suficiente da mão do BCE para fazer o défice cair.

– Houve, houve. É um empurrão claríssimo. Sem o colinho do BCE o défice não caía. É um escândalo, este colinho. O crescimento deve-se sobretudo às reformas operadas pelo meu clube.

– Quais? Diga uma.

– Várias.

– Diga uma!

– São inúmeras.

– Diga uma!

– Não interessa estar agora a dizer. As pessoas lá em casa sabem.

– Você está permanentemente a adulterar a verdade económica. Agora temos uma verdadeira descida do desemprego. Consigo, era causada pela emigração. Você não apostava nos jovens.

– Nós sempre apostámos nos jovens. Mas também precisamos de estrangeiros. O turismo é fundamental. Tem de haver um equilíbrio.

– O nosso clube conseguiu esse equilíbrio. O seu clube criou um ambiente de grande crispação, ao passo que nós sempre contribuímos para a pacificação. Repare que agora não há greves nem contestação.

– Mas isso é porque o seu clube tem duas claques ilegais que o apoiam. O meu clube estava a pôr Portugal no caminho certo.

– Então porque é que perderam as últimas eleições?

– Não perdemos, vocês ganharam essas eleições na secretaria.

– Cá está você a alimentar o clima de suspeição que afasta as pessoas das urnas.

– Não lhe agrada. Não quer ouvir.

– Não se irrite. Acalme-se.

– Não quer ouvir. Isto é lamentável.

– Está muito nervoso. Tenha calma.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão


sábado, maio 20, 2017

O casal vistoso: pormenores da reconciliação

A‘sportinguização’ do discurso oficioso e oficial do FC Porto, consumada que foi a 4ª temporada consecutiva a zero no campo desportivo, será, porventura, a nota mais dissonante de tudo o que foi dito e proclamado no campo político do futebol português. Urge, porém, distinguir entre o que é um discurso oficioso e um discurso oficial. Tomemos por exemplo o episódio que haveria de conduzir ao reatamento de relações entre os segundos e os terceiros classificados do campeonato que chega este fim de semana ao fim. 

Surpreendidos com a presença das câmaras de uma estação de televisão – a CMTV – à porta do Hotel Altis, em Lisboa, os responsáveis da comunicação do Sporting e do FC Porto entenderam, com todo o direito, não prestar explicações sobre a agenda da reunião que teve o seu curso no arranque da semana anterior à jornada que colocaria ponto final na discussão do título. 

Os comunicadores do Dragão abandonaram o hotel de automóvel saindo pela porta das garagens rumo à A1 – presume-se – e o comunicador de Alvalade, saindo do hotel pelo seu pé em passo estugado, não perdeu tempo a responder às questões que a reportagem da CMTV lhe pretendia colocar. 

Obrigatoriamente, perante o assédio da imprensa, havia de prosseguir o diálogo entre as partes até que uma justificação cabal para que semelhante encontro satisfizesse a curiosidade dos jornalistas e a não menos legítima curiosidade dos adeptos dos dois emblemas. 

Respondendo a estas questões práticas, o primeiro discurso a sair para a praça pública foi, justamente, o oficioso, que é aquele tipo de discurso sem rosto que se faz chegar às redações dos jornais através das ‘fontes’. 

E, assim sendo, as ‘fontes’ do Sporting e do FC Porto apressaram-se a explicar ao País que o inusitado encontro se tinha ficado a dever à necessidade de discutir "questões de segurança relacionadas com o importante jogo de andebol entre dragões e leões, sábado, no Pavilhão Desportivo do Casal Vistoso que pode ser decisivo para a atribuição do título nacional da modalidade". 

Mas ninguém acreditou na justificação do andebol do Casal Vistoso. Houve então necessidade de apagar a má impressão avançando-se para um discurso oficial conjunto, sem recurso a ‘fontes’, com os dois clubes assumindo frontalmente o bondoso reatar de relações de modo a matar as especulações maldosas que o encontro tinha, inevitavelmente, suscitado. 

FC Porto e Sporting ou Sporting e FC Porto, unidos como estão, no próximo ano um deles será inevitavelmente campeão. Fica apenas por saber quem conduzirá a motoreta nos festejos do título de 2017/2018 e quem se sentará, não menos feliz, no lugar do pendura. Pouco importam, no entanto, esses pormenores mesquinhos. 



Outras histórias... 
Na hora da consagração do Mónaco    
Leonardo Jardim e os nossos "pedreiros de ouro" em França 
Leonardo Jardim é impecável. Não lhe basta ser campeão de França e continua a ser aquele tipo impecável de português de sucesso fora de portas que, na hora da glória, não esquece os seus compatriotas estigmatizados como trabalhadores rudes de serviços rudes. 

O contingente de milhões de emigrantes portugueses em França ficou certamente grato ao treinador madeirense que, no ano passado, não se esqueceu deles quando se viu arredado dos prémios destinados aos ‘melhores treinadores’ do ‘championnat’ e, deliciosamente irónico, explicou porquê: "Aqui só posso ganhar o prémio de melhor pedreiro…" 

Esta temporada, Jardim conduziu o Mónaco ao título francês e às meias-finais da Liga dos Campeões e lá tiveram os franceses de lhe dar o prémio de melhor treinador do ano. Como Jardim não se esquece nunca dos seus compatriotas, voltou a atirar: "Estou a progredir, ganhei a espátula de ouro…" Bravo, Jardim! E bravo, Moutinho, bravo, Silva! Um belíssimo trio de pedreiros de luxo.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Cuidado com os rapazes

Há um aspecto das eleições francesas que tem sido incompreensivelmente desprezado pelos analistas: Macron tem mais ou menos a minha idade. Depois de Justin Trudeau, é o segundo rapaz da minha geração a ascender ao poder. Este facto sugere-me duas reflexões diferentes. Primeira: eu já sou uma pessoa que se refere a outras como “rapazes da minha geração”. A minha avó costumava usar a mesma formulação, no caso dela para designar rapazes de idade igual ou superior a 80 anos. Segunda: isto significa que a minha geração vai começar a mandar no mundo. Temo o pior.

Não sei se estamos preparados. Está tudo contra nós. Somos a última geração a saber o que é viver sem internet, smartphones, redes sociais e apps. Aqueles que vieram depois de nós já não sabem o que isso é e têm dificuldade em imaginá-lo. Para eles, nós nascemos no século XIX. Talvez nunca uma geração tenha estado tão distante da seguinte, quanto à experiência de ser humano neste planeta. “No teu tempo já havia carros?”, perguntam
-me, por vezes, pessoas de gerações mais novas. Depois de mandar essas pessoas para o quarto de castigo, ponho-me a pensar no que aquela pergunta revela: a nova geração olha para a nossa como nós olhávamos para o Marquês de Pombal – e os jovens, mesmo os que não são jesuítas, não consideram certamente agradável um governo do Marquês de Pombal. Eles são pessoas do futuro que, por qualquer razão inexplicável, estão a viver no presente connosco. Agora que mandamos nós, temos de lidar com as gerações anteriores, que acham que nós não sabemos nada, e com as gerações seguintes, que também acham que nós não sabemos nada. Uma coisa é a geração anterior lamentar a nossa falta de experiência, outra coisa é acontecer o mesmo com a geração seguinte. Infelizmente, é possível que os jovens tenham razão: nós temos menos capacidade do que eles no que respeita a lidar com o mundo tal como ele é hoje. Tinha de me calhar a mim: quando finalmente atinjo a maturidade, o mundo muda radicalmente e faz-me criança outra vez. É preciso ter azar. 
E há mais. Tenho a suspeita muito forte de que, em breve, os cientistas descobrirão uma maneira de viver para sempre. Tudo indica que não faltará muito. E eu até desconfio que sei quando é que isso vai acontecer. Em princípio será exactamente um dia depois de eu ter morrido.



Fonte; Ricardo Araujo Pereira @ Visão



domingo, maio 14, 2017

A desaparição ou não

A História, como se sabe, é invariavelmente escrita pelos vencedores. Se o Porto vier a ser o campeão de 2016/17, os futuros manuais da "História da Futebolice" entoarão loas à genial estratégia do presidente do FCP, que se soube apagar no calor das refregas, delegando na pequena figura de um antigo jornalista, a quem confiou a direcção de comunicação do clube, todas as despesas teóricas e práticas da "guerra" contra o arqui-inimigo Benfica e a quem cedeu palco, holofotes, hóteis de cinco estrelas e honrarias da fama, fez dele fazendo o rosto e o cérebro da instituição a que preside há três décadas. Se o Porto conquistar o título, tudo isto - a desaparição do presidente em favor das ascensão plenipotenciária de um mais jovem comunicador- será considerado o resultado previsível da liderança de um ser superior que se soube resguardar dos conflitos que extenuam qualquer mortal, de modo a poder apresentar-se, fresco que nem uma alface, quando se dirigir ao povo da Afurada cantando que "apita o comboio" como nunca antes apitou.

No entanto, se o Porto não for o campeão de 2016/17, não lhe pertencendo o direito de escrever a seu modo a História desta temporada -e, por arrasto, a História das últimas quatro temporadas -, é de presumir que a "desaparição" política de Pinto da Costa venha a ser castigada mesmo. Não pelos indefectíveis historiadores benfiquistas mas pelos apaniguados da nação portista que, imediatamente, mandarão às malvas os argumentos externos com que os foram entretendo enquanto durou a compita - os árbitros, as cartilhas, o mau feitio do Jonas, o Facebook da senhora da Liga...- para se passarem a entreter com exigências do apuramento das responsabilidades internas.

Entre hoje e a próxima semana tudo ficará esclarecido. Se o Benfica não for campeão, falhará o tetra pela quinta vez na sua História e os seus adeptos ficarão muitíssimos desgostosos. Se o Porto não for campeão terá o responsável máximo, o chefe-de-caixa, de ouvir das boas da sua gente. Poucos portistas perdoarão, no culminar de quatro anos de seca, que ainda se tenha o seu clube disponibilizado para "oferecer" aqueles quatro títulos alternativos ao Sporting. Mas até para isso há uma explicação:
- Eu dou-lhe os quatro títulos desde que não tenha de ir ao casamento!- impôs o presidente do FCP, por via telefónica, no momento mais tenso das negociações no Altis. A ver vamos.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sábado, maio 13, 2017

De chorar pelos dois

Como poderá não parecer absurdamente desproporcionada a reação do presidente do Sporting ao desaire matinal frente ao Belenenses no último domingo? Trata-se de um desrespeito pelo Belenenses, um histórico que apenas se atreveu a ir roubar pontos a Alvalade tal como muitos outros emblemas se atreveram ao longo desta temporada. 

O que o Belenenses cometeu há uma semana não foi, propriamente, uma proeza nem, muito menos, uma novidade. Nesta Liga de 2016/2017 também se viu o Sp. Braga vencer em Alvalade e ainda se viu o Tondela, o V. Guimarães e o próprio Carnide saírem do reduto leonino com empates averbados. 

No domingo, o Sporting atingiu, prosaicamente, o número de 12 pontos perdidos em casa, sendo que os primeiros 9 não foram suficientes para provocar a expressão pública dos sentimentos de "depressão" no presidente. 

Nem a eliminação na fase de grupos da Liga dos Campeões nem a exclusão da Liga Europa face ao intratável Légia de Varsóvia nem o afastamento da Taça de Portugal na discussão com o Chaves nem a saída da Taça da Liga a expensas do V. Setúbal nem o desaire no Dragão, na Liga, logo assumido nas calmas como a despedida da luta pelo título – em fevereiro! – tiveram o condão de provocar o anúncio de uma condição mental do presidente que fosse, ainda que vagamente, "deprimente". Teve de ser o Belenenses! 

Que mal fez o Belenenses para merecer tamanha desconsideração? Na realidade, não fez mal algum. Calhou ser o Belenenses o instrumento da emancipação do presidente na relação com o treinador que contratou há dois anos e a quem confiou o encargo de lhe garantir uma dúzia de voltas olímpicas por ano. 

Porém, nesta época, Jorge Jesus só proporcionou duas pindéricas voltas olímpicas ao seu presidente: a primeira – e penúltima – no culminar de uma goleada sobre o Praiense e a segunda – e última – aconteceu no palco do Restelo por ocasião de uma vitória tangencial na casa do Belenenses. 

O problema é, portanto, o treinador. Como explicou o presidente, pouco lhe interessa "o caudal ofensivo da equipa", o atributo mais incensado dos conjuntos trabalhados por Jorge Jesus, se a equipa lhe estraga as festividades amadoras do Dia da Mãe. 

Resta saber se a Jorge Jesus, um profissional, continua a interessar ver-se num projeto em que um jogo oficial é fornecido ao público como uma formalidade de programa a cumprir entre a inauguração dos 456 metros do "maior cachecol verde e branco do mundo" e uma "feijoada" de confraternização. 

É de chorar, não é mister? De chorar pelos dois. 



Outras histórias 
Singularidades da comunicação 
O Benfica lida melhor com os insultos do que lida com elogios 
Os adversários, estranhamente, ainda não perceberam que o Benfica lida muito melhor com discursos de menorização e com insultos do que lida com elogios. 

Foi assim no ano passado quando o amesquinhamento da figura de Rui Vitória atingiu um patamar próximo do indecoroso e a equipa acordou unindo-se em torno do seu treinador no rumo do título. 

Como exemplo do contrário, vimos esta época o Benfica cair subitamente de produção a meio de janeiro depois de duas vitórias consecutivas em Guimarães que motivaram um coro de louvores tão rendidos que, num instantinho, se viu o campeão a perder pontos disparatadamente para o Boavista e para o Vitória de Setúbal. 

Por tudo isto – e numa semana que convidaria a exageros de otimismo no líder – terão sido bem-vindas à Luz as desconsiderações non-stop produzidas pela comunicação portista no que respeita ao desmerecimento da liderança e ao caráter assassino do doutor Jonas e dos seus demais colegas de colónia penal. Em cheio.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Ai que horror: uma piada

Quando é alvo de uma piada na televisão, Donald Trump vai choramingar para o Twitter. Esse encantador traço de personalidade tem duas consequências óbvias: primeiro, faz com que ele passe mesmo muito tempo no Twitter; segundo, leva-o a não comparecer ao jantar dos correspondentes da Casa Branca – uma cerimónia anual em que os presidentes dos Estados Unidos reúnem os jornalistas numa sala e tradicionalmente fingem que gostam deles. Pela primeira vez em muito tempo, o Presidente faltou ao jantar. O último presidente a fazê-lo fora Ronald Reagan, em 1981, que na altura apresentou uma desculpa bastante boa: tinha acabado de levar um tiro. Mesmo assim, acabou por discursar na mesma, por telefone. Eu não tinha nenhuma simpatia política por Reagan, mas há qualquer coisa no sentido de humor que nos aproxima até de adversários, e há também qualquer coisa na falta de sentido de humor que nos repele até em amigos. Donald Trump faz linha no bingo da repugnância, na medida em que é politicamente abjecto e tem um sentido de humor que faz Cavaco Silva parecer Groucho Marx.

Enquanto decorria o jantar, Trump estava noutro ponto do país a discursar em mais um daqueles comícios que ninguém percebe se ainda pertencem à campanha eleitoral anterior ou se já fazem parte da próxima. Não podendo gabar-se de ter cumprido qualquer das suas promessas (e, tendo em conta as promessas em causa, o mais apropriado seria gabar--se de não as ter cumprido), Trump gabou-
-se de ter cunhado uma expressão agora popular: “fake news”. Talvez essa tenha sido a única ocasião em que Trump cedeu à modéstia: ele não inventou apenas a expressão “notícia falsa”, ele parece uma notícia falsa. Já passaram 100 dias e eu ainda não acredito. Continuo convencido de que é a partida mais estúpida de sempre. Um hoax. Acredito que os americanos tenham ido à Lua. Ainda tenho dúvidas que tenham eleito Donald Trump.

Hasan Minhaj, o humorista convidado para discursar no jantar, lembrou que o alicerce de uma sociedade aberta é a liberdade de expressão, e lamentou que o presidente não estivesse presente para celebrá-la. Bem sei que colocar o mundo às avessas tem um potencial humorístico muito grande. Mas é uma operação para se levar a cabo com parcimónia. Viver num planeta em que o presidente da maior potência mundial é um palhaço e os palhaços exibem sentido de Estado é estar permanentemente de cabeça para baixo. Começo a sentir o sangue a latejar nas têmporas. Ponham tudo como estava, por favor.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão


segunda-feira, maio 08, 2017

Frases - VII


"Be patient with yourself. Self-growth is tender, it’s holy ground. There’s no greater investment."
  -  Stephen Covey



sábado, maio 06, 2017

Comentadores legalizados

O presidente do Sporting, que está suspenso pela via disciplinar de todas as atividades públicas decorrentes do cargo, propôs a meio desta semana aos presidentes da FPF e Liga e também ao Governo da Nação e aos patrões da imprensa uma "cimeira" com o objetivo de "elevar ao extremo os mecanismos de sanção disciplinar de todos aqueles que, com responsabilidades, não cumpram os regulamentos em vigor". 

Os mencionados "regulamentos em vigor" vigoram de tal modo no futebol cá da terra que o presidente da Liga correu a oferecer a "total disponibilidade" da casa a que preside para acolher no seu seio justiceiro a propalada cimeira. 

De todas as entidades desafiadas pelo presidente do Sporting a comparecer com urgência nesse evento de cariz legislador respondeu, a correr, a Liga de Pedro Proença enquanto a Federação de Fernando Gomes optou por fazer anunciar que o campeonato terá, já a partir da próxima época, vídeo-árbitro em todos os jogos. 

Fica apenas por saber se os insultos do futuro reverterão em desfavor do árbitro ou do vídeo e da tecnologia, que, sendo de ponta, nem sempre será considerada fiável como todos teremos oportunidade de confirmar. 

É bom, é mais do que bom, é ótimo que o futebol se organize, se defenda e se imponha como uma atividade que se sabe dar ao respeito através de fundamentos inquestionáveis e que se constitua como uma área de entretenimento em que todos sejam tratados por igual. 

Sendo a falência total das suas leis e regulamentos a causa maior da bagunça – para não lhe chamar outra coisa – atual do nosso futebol, convirá sempre vincar perante o esforço e a bondade dos seus ansiosos neolegisladores que o futebol, por muito que se goste, não passa de uma área de entretenimento público e que não é, nem para tal nasceu, um Estado dentro do Estado. 

Causa, assim, consternação cívica o facto de a Liga ter aprovado no verão passado uma inaplicável disposição penal para os comentadores/jornalistas que se excedam nas suas elucubrações e que, esta semana, tenha vindo o presidente do Sporting, em modo Trump do Lumiar, sugerir que sejam os clubes penalizados pelas mesmas elucubrações dos mesmos ‘agentes’. Sabendo-se que os presidentes da Liga e do Sporting foram colegas na mesma Universidade, apetece perguntar: mas qual Universidade? 

Que Universidade terá sido a que lhes ensinou que o futebol é um Estado à parte onde os ‘agentes’ tomam o lugar dos cidadãos e a liberdade de expressão se sujeita às conveniências do momento? Um dia destes ainda vão ‘legalizar’ os comentadores. Que circo. 



Outras histórias... 
Anda nisto o Benfica há semanas  
Não lhe toquem, não lhe toquem que ele parte-se! 
A três jornadas do fim, o Benfica continua na liderança com um pequeno avanço que lhe permite empatar um dos três jogos que lhe faltam. Em condições normais esta vantagem seria suficiente para se ver gerida com tranquilidade até ao derradeiro apito. 

O que a torna inconsistente é, precisamente, a inconsistência do futebol posto em campo pelos tricampeões que, a uma cadência excessivamente regular, deixa os cabelos em pé à sua legião de adeptos. 

Os 15 minutos pavorosos frente ao Estoril não foram nem mais nem menos pavorosos do que a primeira meia hora frente ao Boavista na primeira volta, nem os 45 minutos frente ao Moreirense na Taça da Liga nem a não- -exibição-completa em Setúbal e na Feira. Anda nisto o Benfica há semanas. 

Valeu-lhe Jonas na semana passada. Mas a angústia persiste. E até quando o brasileiro correu a celebrar com os adeptos o seu golo salvador frente ao Estoril ouvia-se gritar nas bancadas da Luz: "Não lhe toquem! Não lhe toquem que ele parte-se!"



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha


A vagina de Marine Le Pen

Pessoas que não perceberam nada das eleições americanas (como a subtil analista política Madonna) disseram, na altura, que Hillary Clinton tinha perdido por ser mulher. Essa opinião vinha sobretudo de gente que tinha votado em Clinton por ela ser mulher – uma péssima razão para se votar em alguém. A frase “votar com a vagina” ganhou alguma proeminência, naqueles dias – e, sabendo como é importante desenhar a cruzinha correctamente no boletim de voto, sem extravasar os limites do quadradinho, esperemos que aquele estribilho não tenha sido responsável por uma boa quantidade de votos nulos.

De acordo com Jonathan Allen e Amie Parnes, que acompanharam a campanha democrata e escreveram um livro sobre ela, a própria Hillary Clinton – que, apesar de ter sido uma péssima candidata, talvez saiba um pouco mais de política do que a maior parte das estrelas da pop – atribuiu a sua derrota a três factores: o FBI, o KGB e o KKK. Já os autores do livro, por seu lado, também acreditam que Hillary perdeu por três motivos: fraca capacidade de se relacionar com o eleitor comum, excesso de confiança e incompetência. O facto de a candidata possuir um aparelho reprodutor feminino, curiosamente, não é referido por ninguém. Do mesmo modo, a vagina de Marine Le Pen tem sido – julgo que para alívio de todos – pouco mencionada ao longo do processo eleitoral francês.

Assim como nos Estados Unidos apareceram imigrantes mexicanos a prometer votar em Trump para que ele acabasse com o excesso de imigração, também em França vimos imigrantes portugueses a declarar apoio a Marine Le Pen com o mesmo objectivo. Assim como nos Estados Unidos certas zonas tradicionalmente à esquerda votaram Trump, também em França muitos operários e desempregados estão a votar em Le Pen. Parecem ser fenómenos bastante semelhantes (tão semelhantes que Le Pen recebeu, inclusivamente, o apoio de Trump), e por isso somos forçados a reconhecer que se trata de um problema, digamos, supravaginal: estes eleitores, por desespero, protesto ou convicção, estão dispostos a votar num candidato extremista,

independentemente do facto de ele ou o seu adversário possuírem uma vagina. As pessoas civilizadas (enfim, umas mais do que outras), que há uns meses pediram, aflitas, a uma mulher que as livrasse de um homem grotesco, esperam agora, com a mesma aflição, que um homem as salve de uma mulher grotesca. Para um feminista como eu, que acredita que as mulheres e os homens são, na essência, iguais (somos poucos mas bons), está tudo certo: umas vezes o homem é o diabo e a mulher a salvadora, outras vezes é o contrário. Obrigado, mundo.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão