sexta-feira, janeiro 19, 2018

Se adjectivar, não beba

A deficiente utilização de certos adjectivos continua, com a cumplicidade do ministro da tutela, seja ele qual for. Já aqui falámos do que tem vindo a acontecer ao adjectivo brutal, vítima de uma brutal alteração de significado. Quase tudo o que é brutal, hoje, é o rigoroso oposto do que era brutal no passado. Mas talvez nenhuma outra palavra tenha tido pior sorte do que o adjectivo genial. Era um termo recatado, precioso, de utilização rara. Aplicava-se quase exclusivamente a coisas que tivessem sido feitas por Leonardo Da Vinci, e era assim que estava certo. De repente, sem que o mundo tivesse acompanhado esse melhoramento, tudo passou a ser genial. Certo vinho é genial. Uma peça de roupa pode ser genial. Alguns silêncios são geniais.

Nunca se desceu tão baixo, no entanto, como esta semana. Nos Estados Unidos acabou de sair um livro que, embora não tenha exercícios para meninos e meninas, Donald Trump deseja ainda assim retirar das prateleiras. Parece que o livro pinta um retrato bastante desagradável do presidente americano, o que em princípio significa que é uma obra rigorosa. Ofendido, Trump foi lamuriar-se para o Twitter – como, aliás, é próprio de quem tem facilidade em ofender-se. Disse que, ao contrário do que se afirma no livro, ele não é um imbecil. Na verdade, escreveu ele, “Eu sou, tipo, mesmo esperto.” E acrescentou que há bons argumentos para que se considere um génio. Vale a pena reflectir nestas palavras. Primeiro, poderíamos perguntar se uma pessoa inteligente diz de si própria que é inteligente. Segundo, se o diz, tipo, nestes termos. Mas é importante não deixar que a nossa antipatia por Trump nos tolde o raciocínio. Talvez ele possa, de facto, ser um génio.

Muita gente está convencida de que Donald Trump não pode ser um génio porque é um javardo. É falso. Não há qualquer incompatibilidade entre o génio e a javardice. Às vezes, são concomitantes. Alexander Fleming era um génio precisamente por ser um javardo. Uma vez, como é sabido, foi passar as férias de verão com a família e, quando voltou ao seu imundo laboratório, reparou nuns bolores que se tinham formado a um canto. Observando as suas propriedades, descobriu a penicilina. Quando mostrou o achado ao seu assistente Merlin Price, este exclamou: “Foi assim que descobriste a lisozima!” Price estava a manifestar uma justificadíssima perplexidade: a carreira de Fleming consiste, basicamente, na análise dos resultados da sua própria imundície. Comportava-se badalhocamente e depois examinava as consequências dessa conduta. Ora, Donald Trump, sendo um porcalhão literal e metafórico (no sentido em que é um porco no que diz respeito tanto à higiene como à moral), se fosse um génio, já teria inventado 30 vacinas. Material não lhe falta.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

domingo, janeiro 14, 2018

Treinadores, escritores e imbecis morais

Ouvi alguma gente do Benfica mostrar-se relativamente satisfeita com aquele tipo sensato de respostas fornecidas por Rui Vitória perante a curiosidade pueril da generalidade da imprensa a propósito da recente investida de Sérgio Conceição, um dos maiores desordeiros do futebol nacional, contra o carácter do treinador da equipa tetracampeã nacional.

A ideia que ficou entre os apaniguados do Benfica – e, não necessariamente, apaniguados de Rui Vitória porque depois de perder o comboio de três competições no espaço de um mês não há treinador a quem sobrem muitos amigos – é que Vitória foi, uma vez mais, igual a si próprio. Um sujeito basicamente cordato, avesso a provocações e que, por isso mesmo, se vai recusando a dar troco a rufias. Foi este o pequeno conforto – as boas maneiras – disponibilizado pelo treinador do Benfica aos benfiquistas no momento em que o mais popular entre todos os clubes portugueses vem sofrendo o maior ataque que alguma vez sofreu de modo tão concertado ao longo de cento e alguns anos da sua História.

Não tendo, de facto, nada a opor ou a corrigir à maneira como Rui Vitória vai lidando o gado bravo nas arenas da comunicação, permito-me, no entanto, sucumbir a um momento de nostalgia evocando a personalidade do treinador inglês Jimmy Hagan, que passou pelo Benfica na década de 70, nunca se dando ao trabalho de debitar mais do que duas palavras sempre que o vinham aborrecer com perguntas maçadoras: "No comments!" E mesmo quando as questões eram menos maçadoras, e até de algum modo interessantes, Hagan raramente se alargava em considerações que extravasassem o seu laconismo de marca e lá seguia distribuindo democraticamente os seus "no comments!" até que a multidão sedenta de manchetes desistisse de o importunar. Mas, para uma coisa destas, só um inglês do século passado.

O Benfica venceu no campo do Tondela e no campo do Moreirense porque os seus adversários fizeram o frete aos campeões nacionais. Entretanto, o Benfica joga esta noite em Braga para a discussão do 3.º lugar da tabela e se, eventualmente, conseguir vencer o seu adversário também se insinuará que o Sporting de Braga de Abel Ferreira lá fez o frete ao Benfica. É esta a sugestão maldosa que o presidente e a maltosa que gere a página do director de comunicação do Sporting e ainda a linha editorial do canal oficial de televisão do clube apostaram em fazer correr ao longo da semana. Um escritor escocês, John Buchan, definiu em 1924 num dos seus curiosos romances de aventuras exóticas um certo tipo de personagens lamentáveis a quem chamou de "imbecis morais", uma espécie de "fanáticos" que subsistem do "ódio selvagem contra qualquer coisa". De facto, para uma ficção destas, só um escocês do século passado."



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Narcos 2018

Foi um dos casos mais graves da minha carreira e afectou a nossa unidade para sempre. Estávamos em Janeiro de 2018, escassos dias após a publicação em Diário da República do despacho nº 11391/2017, que limitava a venda de produtos prejudiciais à saúde em bares e cafetarias de instituições do Ministério da Saúde. Salgados, pastelaria, charcutaria e refrigerantes tinham sido banidos desses espaços, para estimular hábitos de alimentação saudáveis. Eu, Javier Peña, e o meu colega Steve Murphy, fomos enviados pela DEA americana para ajudar Portugal na luta contra os fritos e as gorduras saturadas. A nossa primeira missão, que seria também a última, foi vigiar a cantina do Hospital de Santa Maria. À primeira vista, estava tudo bem: a cantina vendia apenas frutas, legumes e vários produtos desenxabidos. Mas os frequentadores do hospital pareciam manter uma certa felicidade bastante suspeita, e o Ministério mandou investigar. No princípio, não demos por ele. João Diogo Dias vinha visitar uma tia, operada a uma hérnia. De repente, na ala em que a tia estava internada, os outros doentes começaram a ficar mais alegres. Riam alto, conversavam, não tinham qualquer intenção de impingir uns aos outros receitas de batidos verdes. Era óbvio que não estavam a seguir uma alimentação saudável. O Murphy ofereceu-se para se infiltrar à paisana e descobriu tudo. Dias depois, João Dias estava sentado à minha frente na sala de interrogatórios, depois de ter sido apanhado na posse de um tupperware com 10 croquetes, cinco rissóis e três empadas.

– Sr. Dias – disse eu –, sabe qual é a pena para quem trafica salgadinhos?

João Dias não respondeu.

– Isto mata, sr. Dias. Os seus são especialmente perigosos, porque são caseiros.

– Não é tráfico, eu trouxe-os para a minha tia. Os outros doentes pediram-me e eu ofereci.

– Sabemos como isto funciona, sr. Dias. Os primeiros são oferecidos, até os clientes ficarem agarrados ao rissol. O meu colega, que se infiltrou à paisana, e a quem ofereceu dois croquetes, está neste momento a fazer análises. O colesterol dele subiu dois pontos. Dois pontos, sr. Dias. E está perdido. Não creio que possa voltar a trabalhar. Quando o levaram para a clínica, gritava “Deixem-me só provar as chamuças!”, e também “Aquilo deve ir bem é com uma imperial fresquinha!” Ele nem sequer é português, sr. Dias.

– Eu só queria animar a minha tia. Ela gosta de croquetes.

– O problema é que isto não é um produto inofensivo que possa ser usado para fins médicos, como a marijuana.

– Se eu tivesse marijuana no tupperware deixavam-me ir?

– Claro. Estamos inclusivamente a estudar uma proposta de legalização. Isto dos croquetes é que é muito nocivo. Mas nós não estamos interessados em si, sr. Dias. Sabemos que é apenas o correio. Se nos disser quem produz estes croquetes, não o acusaremos. O nosso laboratório diz que os seus croquetes são dos mais puros que eles já viram: carne a sério, refogado puxadinho, pedaços de chouriço. Quem os fez sabia o que estava a fazer.

– Mas desde quando é que os croquetes são proibidos?

– Desde Dezembro. Tem de estar mais atento aos despachos do Ministério da Saúde. Vamos, sr. Dias. Só precisamos de um nome.

Fez-se um silêncio. Finalmente, o homem quebrou:

– Clotilde Dias.

– Quem é?

– A minha avozinha.

– Devíamos ter adivinhado. São sempre elas. Essa geração está perdida.




Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

domingo, janeiro 07, 2018

Por que foi Batagglia discriminado?

Prepare-se desde já a douta opinião pública para a próxima fornada de correspondência electrónica a ser divulgada na praça. Sim, é urgente avisar as boas consciências de que o melhor, o suprassumo, agora é que está mesmo, mesmo a chegar. E que grande estardalhaço cívico vai produzir a difusão de todo manancial de conteúdos trocados entre a malandragem do costume e os seus capangas diletos na preparação do dérbi de quarta-feira passada no Estádio da Luz. Material mais fresco, está visto, não poderia haver. Preparem-se.
Teremos todos, muito em breve, provas irrefutáveis de que o Benfica não só encomendou ao árbitro Hugo Miguel uma arbitragem escandalosamente anti-caseira – com o intuito perverso de ‘disfarçar’ o seu imenso poderio no sector do apito – como também aliciou quatro jogadores do Sporting – Fábio Coentrão, Piccini, William Carvalho e Batagglia – para, por esta ordem, jogarem a bola com a mão na sua área de modo a que Hugo Miguel e o vídeo-árbitro fossem dispondo de capitosas oportunidades para exibir todo o seu falso anti-benfiquismo primário. Ou seja, tudo não passou de uma encenação maquiavélica como o futuro se encarregará de demonstrar.

Dizem os jornais que, no fim do jogo, Battaglia foi visto a chorar na cabina. Sentiu-se discriminado. E tinha razão o simpático jogador argentino. Com que direito apitou Hugo Miguel para a marca de grande penalidade aos 89 minutos do jogo no momento em que Battaglia, confiantemente, desviou com a sua mão a bola rematada por Rafa? Não era nada disso que estava combinado como o provará a catrefada de emails que, de fonte segura, já vem a caminho.

O que tem a mão de Battaglia a mais ou a menos do que a mão de Fábio Coentrão, a mão de William Carvalho ou a mão de Piccini? Que culpa teve Battaglia de que Hugo Miguel tivesse falhado a missão para que foi seduzido pelo Benfica: prejudicar o próprio Benfica nas decisões capitais como prova de que o Benfica, afinal, não manda nisto tudo? O que se passou na Luz foi o maior atentado à igualdade de critérios em mais de um século de futebol em Portugal. Não havia o Battaglia de chorar…

Assim vai, tristemente, o futebol português. Já nem na igualdade de critérios se pode confiar. E foi, precisamente, o que fez Battaglia ao minuto 89. Confiou na igualdade de critérios do árbitro, na igualdade de critérios do vídeo-árbitro, confiou na impunidade perversamente pré-concertada pelo Benfica para se poder ‘fazer de vítima’ – lerão tudo nos próximos emails – e confiou até no desacerto de Jonas no que dizia respeito a meter golos aos rivais.

Mas, por mais incrível que pareça, Jonas desta vez acertou com a bola nas redes da baliza de Rui Patrício o que leva a suspeitar se o próprio Jonas não terá sido também aliciado por terceiros para que o resultado fosse um empate. Tudo se saberá a seu tempo. Haja paciência.



Leonor Pinhão @ record

Quem tem estrelinha?

Uma grande dúvida ocupava com igual intensidade as cogitações dos adeptos do Benfica e do Sporting à saída do Estádio da Luz na noite da última quarta-feira. Perante o que se viu naqueles noventa minutos realmente intensos e perante o resultado com que terminou o dérbi da cidade de Lisboa, qual dos dois emblemas se pode vangloriar da fortuna e chamar para si os benefícios daquela coisa indefinível a que se convencionou chamar de "estrelinha de campeão"? Jorge Jesus explicou no fim do jogo aos jornalistas e à população em geral que o empate registado "não era um bom resultado para o Sporting" mas que "era um resultado pior para o Benfica" e, com toda a franqueza, não deixa de ter razão o treinador do Sporting. Perder pontos em casa é sempre uma contrariedade para quem joga para o título e perder em pontos em casa no confronto com um concorrente directo ao título é ainda pior.

Do lado do Benfica, veio muita gente dizer que o ‘penta’ está ao alcance dos tetracampeões se a equipa mantiver a motivação, a entrega e, principalmente, o nível exibicional do dérbi. Ora uma proeza destas nunca será fácil – não porque falte vontade aos jogadores de Rui Vitória – mas porque de campeões fiados num sistema que os torne capazes de substituir com êxito prático médios defensivos por extremos ou defesas centrais por médios ofensivas nos momentos do tudo ou nada não reza a História. A ousadia – ou desespero? – de Rui Vitória nos vinte minutos finais do dérbi terá sido compensada com, do mal o menos, a conquista do empate ao cair do pano e, por isto mesmo, houve benfiquistas que saíram do estádio satisfeitos por considerarem que a "estrelinha de campeão" morava, pelo quinto ano consecutivo, na Luz. É que o Benfica jogando muito desguarnecido lá atrás não só conseguiu não sofrer mais golos como conseguiu carregar com tal fúria sobre o adversário que, à quarta mão na área leonina, o árbitro não teve outro remédio que não fosse assinalar o penálti que Jonas converteria no golo do mais do que justificado empate.

Perante os factos de quarta-feira é, no entanto, mais fácil de aceitar a convicção sportinguista de que a "estrelinha de campeão" mora em Alvalade esta temporada. É certo que Rui Patrício não foi obrigado a trabalho apurado. Mas como retirar ao Sporting a bênção da tal "estrelinha" quando saiu relativamente incólume da Luz depois daquele quase autogolo de Coates, daquele quase autogolo de Piccini e daquela "bicicleta" final de Raúl Jiménez no culminar de muitas outras situações de aflição? Quem tem estrelinha? Aqui está uma questão que não vai ter resposta até maio.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manhã

Feliz 2018 (se existir)

Antever o ano que se aproxima costuma ser um exercício completamente inútil – daí que ocupe tantas páginas de jornal. São antevisões que, periodicamente, antevêem o futuro, nunca antevendo o que realmente deveria ser antevisto. Ninguém anteviu a queda do BES, a prisão de José Sócrates ou as vitórias de Portugal no Europeu e na Eurovisão. Bruxos de todos os feitios dedicam-se a fazer previsões que nunca se concretizam e a falhar a previsão do que realmente acontece.

A realidade costuma ser imprevisível – ao contrário, curiosamente, das previsões. É possível prever, por exemplo, que alguém vai prever o fim do mundo. Uma rápida pesquisa no Google confirma-o: já estão agendados dois fins do mundo para 2018. Um grupo de gente relativamente perturbada alega que o mundo terminará a 20 de Maio e outro grupo com as mesmas características psíquicas garante que o fim do mundo ocorrerá a 24 de Junho. Ambos os grupos sustentam a previsão em versos bíblicos que não permitem, de modo nenhum, retirar essas conclusões. Ainda assim, a Bíblia é um dos instrumentos favoritos daqueles que se entretêm a fazer previsões, juntamente com, por exemplo, polvos – o que não surpreende uma vez que a Bíblia e os polvos têm exactamente a mesma taxa de sucesso no que toca a prever o futuro.

Há, no entanto, previsões que dispensam a leitura da Bíblia, a contemplação de polvos ou o exame das vísceras de galinhas. Por exemplo, é difícil errar na previsão de que, em Portugal, há coisas que não vão correr bem em 2018. Haverá sem dúvida nenhuma um escândalo. Responsáveis políticos vão estar envolvidos. Responsáveis políticos do partido a que pertencem os envolvidos vão lembrar que responsáveis políticos de outros partidos já estiveram metidos em escândalos iguais ou piores. As redes sociais vão incendiar-se. Nisto, acontecerá uma catástrofe. Haverá solidariedade para com as vítimas da catástrofe. Em princípio, haverá um escândalo relacionado com a origem ou a prevenção da catástrofe. Responsáveis políticos do partido a que são assacadas as responsabilidades da catástrofe vão lembrar que responsáveis políticos de outros partidos já foram responsáveis por catástrofes iguais ou piores.

As redes sociais vão incendiar-se. Entretanto, Portugal terá uma pequena vitória internacional. As catástrofes e os escândalos serão esquecidos, porque nós, apesar de tudo, realmente somos um povo que sim senhor. E depois chegará a altura de fazer as previsões para 2019



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

quarta-feira, janeiro 03, 2018

A era do pernil de porco já chegou

Cobardes e miseráveis. Nas vésperas de mais um dérbi da Capital foi deste modo que o presidente do Sporting baptizou os presidentes dos demais clubes com excepção feita, naturalmente, ao presidente do FC Porto por uma questão de respeito. Tudo isto por ocasião da última assembleia geral da Liga de Clubes que aconteceu ontem. O presidente do Sporting, presume-se, ter-se-á sentido sabotado pelo "ensemble" associativo a quem chamou de miserável em geral e pelos homens presentes a quem chamou de cobardes em particular, salvaguardando, nunca é demais repetir, a figura referencial do presidente do FC Porto.

Tal como o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros veio a público afirmar que "o governo português não tem o poder para sabotar o pernil de porco" – referindo-se ao diferendo alimentar com o presidente Maduro da Venezuela –, deveria ter vindo imediatamente a público o presidente da Liga de Clubes dizer exactamente a mesma coisa, por outras ou até pelas mesmas palavras, se entendesse cruial fazê-lo pela urgência de serenar os ânimos exaltados neste momento tão conturbado do futebol português. Para mais vem aí mais um derby.

Se, por analogia do momento, a assembleia geral da Liga de Clubes teve ontem o poder para sabotar o pernil de porco diligentemente confeccionado pelo presidente do Sporting com os prestimosos temperos emprestados pelo presidente do FC Porto, fez bem o presidente do Sporting em protestar veementemente contra a ausência de cultura democrática que detectou entre os seus pares do dirigismo nacional sabendo-se – é da cultura geral – que não há nenhum par que lhe chegue aos calcanhares em matéria de cultura democrática.

Mas deixemos os calcanhares em paz. Não é por causa dos calcanhares que a vida associativa do futebol português chegou a este estado. Foi mais por causa do pernil de porco, em sentido figurado, que ontem os patrões da bola não só se viram batizados de cobardes como também se viram intempestivamente deixados ao abandono quando o presidente do Sporting bateu com a porta levando a sua pequena comitiva atrás. Por não estar "ali a fazer nada" – segundo as suas próprias palavras –, bateria também com a porta o presidente do FC Porto, uns minutinhos mais tarde, solidário com o presidente do Sporting na indignação contra o poder evidenciado pela assembleia geral da Liga no que tocou a sabotar o pernil de porco, em sentido figurado, obviamente.

E é nisto que estamos em vésperas de mais um derby da Capital. Antes da modernidade trazida ao futebol pelo presidente do Sporting, os dias que antecediam os dérbis eram passados num já secular, e talvez por isso mesmo pachorrento, arremesso de vitupérios exclusivo entre os dois lados da Segunda Circular. Era apenas uma coisa entre eles. Agora, com a chegada da modernidade e vai tudo a eito no que toca ao insultar. Oh, que cambada de lampiões!

Destaque: É nisto que estamos antes de mais um derby da Capital.



Fonte : Leonor Pinhão @ record

sábado, dezembro 30, 2017

Ano novo, vida velha

Amanhã é o último dia do ano. Este facto parece ser o único indiscutível no que diz respeito aos sucessos e aos insucessos do futebol português neste tão peculiar ano de 2017. E foram, na realidade, tão peculiares e controversas as ocorrências dentro e fora das quatro linhas dos relvados em 2017 que só muito dificilmente o ano novo se poderá apresentar fresco, esperançoso e de cara lavada aos amantes do jogo. 

Ano novo, vida velha, é o que promete 2018 e não há, aparentemente, como contrariar a tendência autodestrutiva daquilo a que alguns chamam a indústria do futebol. 

Os últimos dias do ano não quiseram fugir à regra que se impôs na agenda de 2017 e trouxeram novas ameaças de escândalos e de proporções alarmantes. A suspeita de resultados combinados em jogos da Liga que estará a ser investigada pelo Ministério Público antecipa a configuração do mais terrível crime a que o futebol está sujeito. 

Podemos duvidar de quase tudo o que mexe no futebol – de árbitros, de dirigentes, de jornalistas e até da própria bola… - e continuar a gostar do jogo e a acreditar no jogo. Mas como poderemos continuar a amar o mesmo jogo se, pelas vias oficiosas e oficiais, nos sugerem que há jogadores – os artistas! – facilmente corrompidos para "facilitar" resultados que rendam maiores dividendos no mundo tenebroso das apostas? E não é isto muito mais grave do que saber-se, como se soube, que o Zivkovic ganha mais do que o Pizzi? 

A exposição pública dos valores dos ordenados dos jogadores do Benfica lança, indiscutivelmente, o capitoso tema da relação qualidade/preço no plantel da equipa campeã nacional mas de ilícito propriamente dito só terá o modo como essa informação classificada foi roubada e disponibilizada ao mundo na internet. 

Não há, portanto, grandes motivos para acreditar que 2018 será muito diferente do ano que vai agora terminar no que respeita a surpreendentes intervenções policiais – como foi a visita da PJ ao Estádio da Luz na sequência do caso dos emails – e a surpreendentes apelos à legalidade tal como os ocorridos sempre que o presidente do FC Porto vem a público defender a "verdade desportiva" que tanto ama há mais de três décadas. 

Veremos o que o ano novo nos traz. Tratando-se de futebol diga-se, já agora, que o grande triunfador de 2017 foi o Sporting. Ganhou 4 campeonatos das primeiras décadas do século passado. O outro vencedor foi o Moreirense porque ganhou a Taça da Liga sem que tivessem surgido suspeitas sobre a competição. Nas outras competições todas, o Benfica foi o vencedor. Mas não valeu. E nada valerá porque até ao último email está tramado o campeão nacional. 



Aventuras de um milionário em Espanha  
Quem não tem dinheiro não pode ser descarado à vontade  
As autoridades fiscais espanholas prosseguem a sua saga contra Cristiano Ronaldo e a nós, portugueses, só nos resta escolher um destes dois campos: ou se concorda com a posição da Unidade Central de Coordenação do Tesouro dos nossos vizinhos que entende que o nosso compatriota devia estar preso porque tem andado a fugir ao fisco ou, com outro tipo de preocupações não-sociais, se concorda alegremente que tudo isto é uma perseguição dos malditos castelhanos a um portuguesinho que, por sinal, é multimilionário. 

E, de facto, é. Como toda a gente acaba por descobrir um dia não é o dinheiro garantia de felicidade. Mas é garantia de grande despreocupação com estas minudências fiscais. "Estou preso a estes bebés lindos", respondeu o jogador português às autoridades espanholas exibindo uma fotografia com os seus três filhos mais novos. 

Quem não tem dinheiro a rodos não se pode dar ao luxo de ter este descaramento magnífico, é a conclusão. E agora, ‘nuestros hermanos’?



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Balanços dos balanços do Ano

Fazendo um balanço do que têm sido os balanços do ano, neste final de 2017, creio que há razões para satisfação. Tem havido bons balanços, cumprindo as duas grandes tradições do formato: os balanços que resumem o ano mês a mês e os balanços que resumem o ano por ordem alfabética de tema. Registo, no entanto, uma falha grave: nenhum dos balanços publicados até agora se dedicou às chamadas fake news – que hoje têm uma importância igual ou até maior que as notícias verdadeiras. Faz sentido, por isso, juntar ao balanço do que se passou o balanço do que não se passou.

No que diz respeito a mortes que não ocorreram, este foi um ano preenchido. Adam Sandler morreu falsamente logo em Janeiro. A falsa morte de George H. Bush foi anunciada em Fevereiro (portanto, nove meses antes de ser acusado de assédio sexual), e depois houve várias falsas mortes a lamentar (ou a não lamentar. Ou a lamentar que se lamente o que não se deveria estar a lamentar. Enfim, é complicado): Rowan Atkinson não morreu em Março; Denzel Washington e Eddie Murphy não morreram em Abril; Clint Eastwood, Bill O’Reilly e Miley Cyrus não morreram em Maio (Maio foi um bom mês para não morrer); Imelda Marcos e Monica Lewinsky não morreram em Junho (Imelda teve uma falsa paragem cardíaca e Monica foi vítima de falso homicídio) e Kid Rock não morreu em Julho. Depois passaram dois meses sem falsas mortes, até que Morgan Freeman morre falsamente em Outubro. Já em Dezembro, a escassos dias de completar 101 anos, não morreu Kirk Douglas. Entretanto, a morte de Bob Denver, actor de Gilligan’s Island, foi anunciada em Janeiro, mas dessa vez tratava-se de outro tipo de falsa morte, uma vez que Denver já tinha morrido em Setembro de 2005. Tratou-se, neste caso, de uma falsa notícia de uma verdadeira morte, para desenjoar das falsas notícias de falsas mortes.

Um dos temas sempre em destaque nos falsos noticiários é a homossexualidade. Em Fevereiro, foi erradamente noticiado que o evangelista Pat Robertson tinha dito que “olhar fixamente para Melania Trump curava gays”, e em Agosto teve várias partilhas a notícia de que o Dr. Dimitri Yusrokov Slamini, de Novosibirsk, tinha descoberto uma vacina que curava a homossexualidade. Toda a notícia era falsa, com excepção da referência à cidade de Novosibirsk, que existe mesmo – o que, aliás, se lamenta.
Não custava nada ter inventado uma cidade russa.
É lamentável, a falta de brio profissional na classe dos falsos jornalistas.

No âmbito dos testículos, Junho e Julho foram meses especialmente ricos em falsas notícias. Primeiro, chegou-nos o falso relato de uma gaivota que arrancou o testículo a um banhista numa praia de nudistas, e logo a seguir a notícia falsa de um vencedor da lotaria de Atlanta que morreu na sequência de ter banhado a ouro o escroto. Mais uma vez, a cidade de Atlanta existe na realidade. Mau trabalho.

Este balanço do ano, inevitavelmente incompleto, deixa de fora várias notícias falsas de 2017. Gostaria de salientar, no entanto, que nenhuma foi inventada por mim – ou seja, são verdadeiras notícias falsas. Seria pouco ético que eu fizesse referência a falsas notícias falsas num ano tão recheado de notícias falsas verdadeiras. Entretanto, dói-me a cabeça.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão