sábado, julho 14, 2018

Fernando Madonna

A minha posição relativamente aos lugares de estacionamento da Madonna é a seguinte: eu levo a mal ter de tomar posição relativamente aos lugares de estacionamento da Madonna. Tenho assistido, com grande sonolência, ao debate. Há chamadas de primeira página nos jornais, intervenções dos partidos, colunas de opinião, revelação de documentos – sobre lugares de estacionamento. Viaturas, e tal. Que ocupam determinada área de metragem quadrada. A problemática do estacionamento é capaz de ser o assunto de conversa mais pequeno e aborrecido da História das Conversas. Mesmo no âmbito do tema geral da circulação rodoviária, ele mesmo um pináculo de chatice, o estacionamento consegue guindar-se ao zingamocho da estopada.

A minha irritação tem dois grandes responsáveis: Medina e Madonna. É por causa deles que estamos há uma semana a discutir estacionamentos. Medina, que já tinha ido ao Ritz dar as boas-vindas a Madonna, está agora preocupado com o sítio onde ela parqueia. Todas as pequenas necessidades de Madonna, Medina supre. E supre pressuroso. 
Ao mesmo tempo que atravanca o trânsito dos 
outros 500 mil munícipes, resolve os problemas 
de circulação de uma.

Mas é em relação a Madonna que tenho o ressentimento mais fundo. Já houve um tempo em que discutíamos com gosto o encontro feliz da Madonna com o sistema rodoviário. Aquela foto de Steven Meisel, em que ela pede boleia na berma da estrada, toda nua só com saltos altos e uma malinha, proporcionou-me horas de gostosa reflexão. Mas esta questão do estacionamento é – não há outra forma de o descrever – pelintrice milionária. Madonna deve dar-se ao respeito. Como mãe de um jogador das camadas jovens do Benfica, tem uma imagem a proteger.


Pedinchar lugares de estacionamento à câmara municipal é uma conduta imprópria dos muito ricos. A parte boa de ter dinheiro é, precisamente, não precisar de pedir favores ao presidente da câmara. Comprar uma frota de 15 carros e depois precisar de ajuda para os estacionar é incongruente: ou bem que se é excêntrico, ou bem que se é mesquinho. A grande vantagem de ter Madonna a viver em Portugal 
é, ao que nos dizem, o prestígio associado ao facto de uma grande vedeta escolher o nosso país para morar. Mas então comporte-se como grande vedeta. Se tem 15 carros, contrate 15 motoristas que os mantenham a circular à volta do palácio, até ter necessidade de se meter num deles para ir ao pão. Coisas 
de grande vedeta. Uma estrela pop a sério teria 
comprado os paços do concelho e estacionado os carros no gabinete do Medina



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

terça-feira, julho 10, 2018

Os rapazes, os passarinhos e o idiota da aldeia

O Estádio da Luz abre hoje as portas para que os adeptos assistam livremente a uma sessão de trabalho da equipa principal de futebol. São de esperar uns quantos milhares movidos pela volúpia de retomar o contacto com aquilo que verdadeiramente os faz vibrar: a bola. Começa, assim, em termos públicos a temporada de 2018/2019 sucessora de uma temporada a todos os títulos medíocre em função das expectativas naturalmente criadas com o desempenho mais do que eficiente de uma equipa que desafiou a História conquistando quatro títulos nacionais consecutivos entre 2013 e 2017. O Benfica contratou neste defeso muita gente que se adivinha importante mas o frenesi maior nas bancadas será o da avaliação "in loco" dos jovens produtos da casa como João Félix ou Gedson Fernandes. São estes jogadores, agora inseridos num ambiente de adultos, que toda a gente vai querer ver hoje em acção na Luz. Em acção hoje e amanhã e depois… porque grande desgosto seria ver Félix e Gedson vendidos aos alegados "tubarões" que os cobiçam no mercados deste Verão antes de os ver dar uns pontapés oficialmente na bola ao serviço de quem os formou.
A meia-dúzia de visitas da Polícia Judiciária ao Estádio da Luz não afastou o patrocinador principal do futebol – a Fly Emirates – da órbita do Benfica. Ora aqui está uma excelente notícia. E, porventura, inesperada.

Divulgadas pela Liga de Clubes, as matérias "condicionantes" do sorteio do próximo campeonato nacional não desdenham a possibilidade de haver dérbis ou clássicos nas primeiras três jornadas da prova. Por um lado é aceitável porque os sorteios querem-se livres como os passarinhos. Por outro lado é inaceitável porque, ao contrário das justas benevolências concedidas na época passada ao Sporting por força da sua participação na fase de apuramento para a Liga dos Campeões, não haverá este ano a menor benevolência no que respeita ao calendário do Benfica no exigentíssimo mês de Agosto que se adivinha. Não é de crer que a Liga não considere de "interesse nacional" uma eventual qualificação do Benfica para a prova mais importante de clubes a nível continental tal como considerou no ano passado quando tratou de proporcionar a um outro emblema as melhores condições de acesso ao mais alto patamar do futebol europeu. E o Benfica, o que tem a dizer a isto? Passarinhos?

"O drama da internet é que promoveu o idiota da aldeia a figura nacional", explicou, muito bem explicado, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco numa das suas derradeiras aparições públicas. Eco preocupava-se com "a legião de imbecis" que "antigamente eram imediatamente calados" e que agora "têm o mesmo direito à palavra do que um Prémio Nobel". Vêm estas sábias reflexões a propósito de outras sobre o mesmo tema com que se têm justificado recentemente os clamorosos idiotas da aldeia do futebol em Portugal.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

José Maria Pincel: Subsídios para uma biografia

A presença de José Maria Pincel no espaço público português é tão intensa quanto misteriosa. A frequência com que se invoca o seu nome, quase sempre com feia altivez, assinala uma contradição incontestável: José Maria Pincel é, muitas vezes, o símbolo do anonimato – e, no entanto, é um dos nomes mais famosos de Portugal. “Então mas agora qualquer Zé Maria Pincel chega a deputado?”, costuma ouvir-se – e afirmações deste tipo contêm, pelo menos, três erros. O primeiro é, como já vimos, que, à força de repetição, o nome de José Maria Pincel ganhou uma proeminência que o desqualifica para designar gente anónima.

O segundo erro é que, neste e noutros casos, José Maria Pincel aparece não apenas como um anónimo, mas também como um borra-botas. Ora, sucede que José Maria Pincel é um péssimo nome para um borra-botas. Um nome vulgar, como Zé Silva, ou Zé Pereira, seria mais apropriado para designar um indivíduo, digamos, sem berço. Mas um José Maria? Note-se que não se trata de um mero Zé, como os que costumam protagonizar frases corriqueiras, a saber: “Ó Zé, 
vai buscar pão, que já não há.” De modo nenhum. Estamos perante um Zé Maria, que costuma ouvir solicitações bem diferentes, tais como: “Ó Zé Maria, venha cá dar um beijinho à tia.” Além do mais, Pincel está longe de ser um apelido banal. Antes pelo contrário, é invulgar sem ser esquisito, com uma ligação às artes que lhe dá mesmo alguma nobreza. É muito improvável, por isso, que José Maria Pincel seja uma pessoa destituída de valor. Associá-lo ao anonimato e à insignificância só pode ter sido resultado de uma vingança – que, como se vê, foi malsucedida.

O terceiro erro é o carácter radicalmente antidemocrático de qualquer declaração começada pela expressão “Então mas agora qualquer Zé Maria Pincel pode...?” Não precisamos de ouvir mais para responder afirmativamente: sim, qualquer Zé Maria Pincel pode, no nosso país, fazer o que lhe apetece. De José Maria Pincel nunca se ouviu dizer nada de desonroso. Antes pelo contrário: sabemos apenas que tem ambições, sempre legítimas, e que muitas vezes lhe são negadas sem justificação. “Não é qualquer Zé Maria Pincel que chega aqui e se senta à mesa com a gente.” Pois não sabem o que perdem, pois José Maria Pincel deve ser uma pessoa bem interessante, com muitas histórias tristes de discriminação para contar.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

domingo, julho 01, 2018

A humanização de Cristiano Ronaldo

Se Cristiano Ronaldo não fosse Cristiano Ronaldo dir-se-ia, em bom futebolês, que tinha sido aquele o sujeito que "enterrou" a nossa selecção no jogo com o Irão e a fez cair para o indesejado 2.º lugar no Grupo B. Não só desperdiçou uma grande penalidade como se arriscou a ser expulso depois de uma semi-cotovelada num adversário. Essa amável agressão, em termos práticos, serviu para elevar os níveis de hostilidade do público, dos jogadores iranianos e até do árbitro e do VAR que, minutos depois, lavariam as consciências apontando uma grande penalidade bastante duvidosa contra a equipa portuguesa. Mas como Cristiano Ronaldo é Cristiano Ronaldo o que importou verdadeiramente foi que tivemos o privilégio laico de o vermos não como uma divindade mas "humanizado" pelas falhas. Hoje, no entanto, convém que se "desumanize" outra vez a partir das 7 da tarde.
Ricardo Quaresma e Carlos Queirós trocaram um chorrilho de acusações no rescaldo do jogo da última segunda-feira. Pode-se dizer que, até ao momento, foi este o único episódio folclórico da campanha corrente, o momento "tuga" da presença nacional na Rússia. E basta. Esta novela picaresca, recheada de contas antigas e de crispações modernas, teria todos os ingredientes – ódios, vinganças, baixarias – para se constituir num êxito mediático com o consequente furor de audiências a arrastar tudo e todos para uma discussão sem fim sobre os méritos e os pecados dos intervenientes. Mas não foi nada disso que se passou. A altercação entre compatriotas durou pouco mais de 24 horas e extinguiu-se com a naturalidade com que se extingue qualquer vulgar caso do dia embora, neste confronto, se registassem inúmeros elementos retóricos do tipo animalesco e de lesa-Pátria que são tão do agrado das multidões.
Poderia, de facto, a guerra Quaresma-Queirós ter obtido os favores do público para se transformar no grande entretenimento nacional merecedor de aberturas de telejornais e de programas televisivos que lhe fossem inteiramente dedicados. E teria sido assim, certamente, se não estivesse o país ainda esgotado psicologicamente com a novela anterior que se arrastou por meses e só terminou na madrugada de domingo passado no palco da Altice Arena com choros, ranger de dentes, ameaças físicas, insultos e forte presença policial. Nos tempos mais próximos e depois de uma coisa daquelas torna-se muito difícil, quase impossível, que qualquer outro dramalhão consiga agarrar a devoção dos consumidores. A desintoxicação do público vai demorar.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sexta-feira, junho 29, 2018

"Noção do ridículo". Brevemente na Netflix

A Netflix, uma provedora global de filmes e séries de televisão via streaming (estou a copiar da Wikipédia porque não sei descrever com rigor a actividade da Netflix e a minha imaginação nunca seria provedora de uma palavra como provedora), definiu um conjunto de regras de conduta para os seus funcionários. As regras são bastante sensatas: não estabeleça contacto físico demorado e indesejado com os seus colegas, não continue a incomodá-los se já lhe disseram que não estão interessados em si, etc. A última regra, no entanto, é: não olhe para ninguém durante mais de cinco segundos. Como a notícia saiu nos tablóides ingleses, toda a gente teve o bom senso de desconfiar. Mas, instada a comentar, a Netflix não confirmou nem desmentiu, o que costuma constituir prova de veracidade. Além disso, responsáveis da empresa acrescentaram: a questão do assédio sexual não deve ser menorizada – o que está certíssimo. Infelizmente, a melhor maneira de menorizar uma causa é ter um histérico a defendê-la.

Exprimir, sobre determinado assunto, duas ou três ideias sensatas e depois acrescentar uma ideia absolutamente ridícula diminui a importância do assunto. Foi provavelmente por isso que, a seguir a “Não matarás” e “Não roubarás”, Moisés não acrescentou aos Dez Mandamentos a ordem “Não cantarás aquela da Céline Dion em karaokes porque toda a gente esganiça na parte em que ela diz que o seu coração vai continuar e é desagradável”. O profeta percebeu que misturar coisas estúpidas com coisas sensatas retirava peso à sensatez, e por isso era melhor não introduzir regras parvas na lista. Aquilo de não cobiçar a mulher do próximo já era esticar bastante a corda.


Valeria a pena analisar a mistura especial de autoritarismo com puritanismo que faz com que alguém pense: “Isto dos olhares tem de ter regras.” A acta da reunião em que um comité de sábios definiu que um olhar de cinco segundos é aceitável e um de seis é nocivo seria um primeiro e interessante documento de estudo. Uma descrição minuciosa da logística requerida para aplicar a nova regra mereceria edição em livro: qual o rácio recomendado de Fiscais do Olhar por cada funcionário? Há regras especiais para funcionários estrábicos? Uma coisa é fixar um colega durante seis segundos com o olho bom; outra coisa é fixá-lo com o olho maroto. Por uma vez, o olho bom é mais maroto do que o olho maroto, facto que deve ser contemplado na lei. Enfim, há um longo clausulado para redigir. Ao trabalho.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

sexta-feira, junho 22, 2018

Biggs Paradiso

É uma pena que Giuseppe Tornatore não tenha tido imaginação suficiente para incluir a ERC na lista de personagens do filme Cinema Paradiso. Já era tempo de as entidades reguladoras terem bons papéis no cinema, porque são personagens densas e complexas, e dariam espessura às narrativas. Em Cinema Paradiso, como é sabido, um padre submete a censura prévia os filmes que passam no cinema de um lugarejo italiano, cortando todas as cenas de beijos. Digo censura prévia porque, como infelizmente a ERC não participa no filme para orientar o espectador, a gente tem a tentação de concluir, precipitadamente, que censura é censura.

Esta semana, a ERC decidiu a favor do canal Biggs – que, como o padre de Cinema Paradiso, cortou um beijo numa série de animação. A directora do Biggs disse que o corte constituía “uma apreciação de natureza editorial, que nada tem a ver com censura” – e a ERC, pelos vistos, concordou. Como sempre que um programa é alvo de uma apreciação de natureza editorial, a minha curiosidade excitou-se. É como se costuma dizer: o fruto editorialmente apreciado é sempre o mais apetecido. Até o Marquês de Pombal, quando criou a Real Mesa Realizadora de Apreciações de Natureza Editorial, devia saber que as obras ali julgadas viriam a atrair mais atenção sobre si mesmas. Portanto, fui ver o canal Biggs. Foi tempo bem gasto. O programa em causa chama-se Sailor Moon Crystal, e conta a história de um grupo de moças que são guardiãs do universo. Há várias batalhas, explosões, bichos esquisitos, espadas que brilham, raios laser destruidores e mortes. O canal Biggs achou, no entanto, que a parte que podia perturbar o seu público juvenil era um beijo. É um beijo entre duas personagens femininas, ou seja, a matéria que costuma dar pesadelos às crianças. Quantos pais não tiveram já de consolar os filhos que acordam, de madrugada, encharcados em suor e a gritar coisas deste tipo:

– NÃO! NÃO!

– O que foi, Pedrinho? Estiveste outra vez a ver Sailor Moon Crystal?

– Sim…

– Estás com medo da vilã, a pérfida Rainha Beryl do Reino das Trevas?

– Não. Eu tolero-a bem, e à sua vontade de obter o poderoso Cristal de Prata com o fim de destruir tudo o que há de mais belo no universo.


– Então? Impressionou-te a morte da Chibiusa às mãos daquela personagem também maléfica, cujo cabelo de repente se transformou numa espécie de erva daninha que estrangulou a outra e a atirou ao chão com violência?

– Não, não. Isso foi muito giro.

– Se calhar estás perturbado com aqueles grandes planos dos olhos das personagens, típicos da animação japonesa, que transmitem uma densidade psicológica que nós não captamos, e ficamos armados em parvos a olhar para aquilo com a sensação de que é a nossa superficialidade ocidental que nos impede de perceber o que raio é que os bonecos estão a sentir durante aquele tempo todo?

– Não. Foi o beijo entre duas personagens femininas. Aquele amor abala os alicerces da minha personalidade infanto-juvenil, pois vai contra a lei de Deus. Posso jogar um pouco de Grand Theft Auto, para desanuviar? Estou a dois homicídios de obter um precioso bónus.

Estas cenas são frequentíssimas, infelizmente. Mas graças à ERC, ao canal Biggs e ao padre do Cinema Paradiso, podem finalmente acabar. Ufa. Bem-haja quem protege os nossos pequeninos do amor.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

terça-feira, junho 19, 2018

Cristiano Ronaldo & mais 10

O jogo de abertura de qualquer Campeonato do Mundo é suposto constituir-se numa sensaboria medonha. Reforçando a nota, deve a partida inaugural de um acontecimento desta dimensão terminar num empate, de preferência sem golos, ou numa vitória pindérica da selecção do país anfitrião. É isto o que mandam as boas maneiras do internacionalismo. Os russos, sempre agarrados às suas manias, resolveram mandar às malvas esta bonita tradição da hospitalidade e destroçaram a equipa nacional da Arábia Saudita com uma mão cheia de golos sem resposta. E, ainda assim, com tantos golos, o jogo foi uma sensaboria. Cinco golos e um aborrecimento.

Aparentemente, um Campeonato do Mundo de futebol é para os melhores do mundo, para a elite da elite desta magnífica indústria planetária. Felizmente, há excepções para alegrar com os preciosismos das cores locais o sisudismo da presunçosa organização. Não bastava ter a Espanha despedido o seu treinador 48 horas antes do jogo de estreia (até mais ver é o cúmulo do terceiro-mundismo deste Mundial'2018) e ainda se soube que o presidente da federação saudita, o senhor Ezzat, insultou publicamente os seus jogadores depois da catástrofe inaugural com a Rússia. Imagine-se um acontecimento portentoso como este, um Mundial, a ser beliscado intelectualmente pelos desvarios de um presidente exótico ao ponto de apontar a dedo os nomes dos jogadores que mais o desapontaram em campo e ainda "os erros técnicos" gerais que conduziram à derrota. Uma coisa destas, de facto, só lá nas arábias.

Já o outro jogo do nosso grupo, entre marroquinos e iranianos, só tendo um golo, foi mais interessante do que o dos russos com os sauditas com aquele despudorado fartote de golos. Começou muito bem a selecção de Carlos Queiroz. Jogou um bocadinho menos do que o adversário mas soube atar a equipa de Marrocos e esperar pelo golpe de sorte.

"Cristiano Ronaldo & mais 10" - é uma espécie de firma - conseguiu a proeza de adiantar a equipa no marcador e depois voltou a re-adiantar a equipa no marcador e, finalmente, quando já eram os espanhóis que iam adiantados no marcador e a coisa se apresentava negra, lá voltou a firma "Cristiano Ronaldo & mais 10" a fazer das suas e a impor um empate que soube como ginjas, em função da realidade dos factos. Aliás, quer no penálti com que inaugurou a noite, quer no livre directo com que fechou a noite, Cristiano Ronaldo não precisou dos "mais 10" para nada. Fez tudo sozinho, sofreu as faltas e cobrou-as exemplarmente. Foi lindo.



Fonte: Leonor Pinhão @ record

sexta-feira, junho 15, 2018

Anúncio em português suave

Não fume. A menos que queira, claro. Se quiser, fume. Tem esse direito e ninguém deseja, de modo nenhum, restringir a sua liberdade. Portanto, pode fumar. Pode no sentido de ter essa possibilidade, não no sentido de lhe estarmos a dar permissão. Não precisa da nossa permissão para nada, como é óbvio. Só lhe sugerimos que deixe de fumar porque os cigarros fazem mal à saúde. Mas, pensando bem, é impossível que, em 2018, alguém não saiba ainda que fumar faz mal, pelo que talvez seja paternalista estar a chamar-lhe à atenção para um facto consabido. Pedimos desculpa. Vamos recomeçar.

Se conseguir, não fume. Quer dizer, é evidente que consegue, porque é forte e independente. Consegue tudo o que quiser. E era importante para nós que quisesse deixar de fumar, porque o fumo mata. Mas a culpa não é sua. É da nicotina, do benzeno, do amónio, do cianeto de hidrogénio e de outras substâncias presentes nos cigarros. Era o que faltava que a culpa de fumar fosse do fumador, só porque compra, acende e fuma os cigarros. Bom, talvez o fumador tenha um bocadinho de culpa. Mas é uma culpa muito moderada, quase inexistente. Pelo amor de Deus, não se deixe esmagar pelo peso da culpa. Por favor, não chore. É melhor tentar outra vez.

Gostaríamos que não fumasse. Mas não queremos com isto dizer que o facto de fumar nos desgosta. Não é isso. Respeitamos as suas opções, sejam elas quais forem, e não fazemos depender o nosso afecto por si do seu consumo de tabaco. Nós, aqui na Direcção-Geral de Saúde, amamos tanto a população fumadora como a não-fumadora. Não que houvesse alguma dúvida sobre isso. Queremos deixar claro que não há qualquer relação entre a capacidade de ser amado e o consumo de tabaco. Já estamos arrependidos de termos falado em amor. Dá sempre mau resultado, porque é um tema polémico. Voltemos ao início.


Com todo o respeito, pondere a hipótese de, quiçá, considerar a possibilidade de, sendo a ideia do seu agrado, deixar de fumar. Não é um pedido leviano, porque sabemos que o processo de abandonar o consumo de tabaco é extremamente complexo, doloroso e difícil. E, para falar com toda a honestidade, até tem inconvenientes. Por exemplo, ao que parece, quem deixa de fumar fica com tendência para engordar. Não que haja algum mal em ser gordo, atenção. Somos todos lindos. Especialmente os gordos. E os gordos fumadores mais ainda. Bolas. Estamos um bocadinho nervosos. Precisamos de um cigarro.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão