quarta-feira, dezembro 27, 2017

Aves raríssimas

É uma princesa? É uma estrela de cinema? Não, é a presidente das Raríssimas. E esta é uma mudança de mentalidades que se saúda. Antigamente, os nossos heróis descuravam a imagem. O Super--Homem, como se sabe, andava com as cuecas à mostra. O Batman parecia uma esposa da Arábia Saudita. Paula Brito e Costa, presidente da Raríssimas, soube inovar – e pratica o bem com estilo. Tenho a certeza de que as pessoas que sofrem de doenças raras ficariam desconfortáveis se soubessem que a presidente da associação que lhes dá apoio vestia na Zara. Ou que comia carapau. Ou que se deslocava numa viatura barata. É provável que nem desfrutassem completamente das sessões de fisioterapia, ou das aulas de terapia da fala. Mas os invejosos do costume censuram os gastos da senhora. A culpa é da banda desenhada, que foi perpetuando um estereótipo nocivo da figura do altruísta. Todos os que se colocam ao serviço dos outros são retratados como brutos pouco sofisticados. Não custava nada que o Homem-Aranha, nos intervalos de salvar o planeta, fosse retemperar forças para um spa no Brasil, que lhe desobstruísse, quer os chakras, quer aqueles canais através dos quais ele esguicha teias. E depois enviasse a factura para uma associação sem fins lucrativos financiada pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. O Capitão América bater-se-ia contra as Potências do Eixo com outro empenho se evitasse o pronto-a-vestir e comesse com requinte. Ajudar os outros, sim, mas impecavelmente vestido e com o bandulho cheio de gambas.

Esta nova perspectiva ajudaria a convocar voluntários para este tipo de actividade. Meninos e meninas sonhariam, desde pequenos, com o trabalho em associações solidárias. Ajudar os outros é mais atraente quando os outros também nos ajudam a nós. É o mínimo que eles podem fazer, aliás. Até aqui, os necessitados de apoio desejavam apenas, e gananciosamente, o nosso apoio. Assim é mais justo. E o mundo está cheio de gente boa que gostaria de se dedicar ao próximo com o apoio do Estado. Massagens, marisco, vestidos de alta--costura, um BMW, emprego para o marido e para o filho e a reverência respeitosa dos que nos rodeiam são bons incentivos para acirrar o altruísmo que há em cada um de nós. Vistam-me, alimentem-me e massajem-me e eu mostro-vos imediatamente um mundo melhor: o meu. Depois é só tratar do mundo dos outros, que é o mais fácil.




Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão


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