sexta-feira, junho 30, 2017

Um disco riscado chamado Portugal

Interrompemos esta emissão para fazer uma ligação em directo ao local onde lavra o violento incêndio. O nosso enviado especial vai agora perguntar a uma vítima como é que ela se sente.

– Bom dia. Como é que se sente?

Obrigado. Em estúdio temos um especialista. Não é surpreendente que esta vítima se sinta demasiado aturdida para explicar como é que se sente?

– É. Eu esperava lucidez e frases completas.

Agora pedia-lhe que falasse sobre isto durante cinco horas.

– Com certeza. Estamos perante uma tragédia enorme que comporta elevados custos materiais e humanos. A área ardida leva décadas a recuperar. Situações como esta não podem voltar a acontecer. Não me lembro de uma coisa assim desde o ano passado. A nuvem de fumo vê-se do espaço. 
A floresta é um activo extremamente importante. 
Há que dotar os bombeiros de meios. Há que investir na prevenção. Há que corrigir os problemas do ordenamento do território. Não é hora de apontar dedos, mas a culpa não pode morrer solteira. Adeus e até para o ano.

Interrompemos esta emissão para fazer uma ligação em directo ao local onde lavra o violento incêndio. Ao que a nossa reportagem conseguiu apurar, há várias vítimas e nenhuma consegue verbalizar com exactidão o que sente. Comigo em estúdio está um especialista. Estamos perante o quê?

– Uma tragédia enorme.

O que é que ela comporta?

– Elevados custos materiais e humanos.

A floresta é um activo quê?

– Extremamente importante.

Vamos agora à sua popular rubrica dos há ques, se não se importa.

– Há que dotar os bombeiros de meios. Há que investir na prevenção. Há que corrigir os problemas do ordenamento do território.

Bravo. Qual é a dimensão desta tragédia?

– O grupo de jornalistas no terreno vê-se do espaço.

Obrigado e até para o ano.

Interrompemos esta emissão para blá blá blá. O nosso enviado especial vai agora perguntar blá blá blá.

– Bom dia. Blá blá blá?

Obrigado. Comigo em estúdio, um especialista.

– Estamos perante uma blá blá blá que comporta elevados blá blá blá. A área blá leva blá a blá blá. Situações como esta não podem blá blá blá. A floresta é um blá blá blá extremamente blá blá blá. Há que bombeiros. Há que prevenção. Há que ordenamento do território. Não é hora de blá, mas a culpa não pode blá. Adeus e até para o ano.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

segunda-feira, junho 26, 2017

Afinal qual é o problema?

O futebol vive de ciclos. E, como é próprio dos ciclos, todos têm um início e um fim. Começam e acabam essas revoluções em alegria ou em incomensurável tristeza, dependendo das cores das paixões em causa, mas é o "meio" dos ciclos que mais custa a passar para quem os vive em perda. 

Nestes transes, as tentativas de cortar o mal pela raiz obedecem a um reportório curtíssimo que leva o público mais qualificado a encarar com desconfiança e mal disfarçado tédio as sucessivas repetições das panaceias e dos tratamentos salvíficos. 

Tomemos por exemplo o Benfica. No início deste século entenderam os seus dirigentes que a solução para combater a dominância do FC Porto era contratar antigos jogadores dos azuis-e-brancos, atletas consagrados nas Antas e, posteriormente, no Dragão de modo a que esses nomes – e só os nomes – bastassem para repor o lindo emblema da águia na senda de um qualquer ciclo triunfal. 

E, assim, foram chegando sujeitos de talento apreciável como Zahovic e Drulovic e tantos outros, menos artísticos, como Argel ou João Manuel Pinto. 

O resultado prático foi igual a zero mas a "galera", como dizem os brasileiros, vibrou com a chegada desses jogadores aureolados no campo do inimigo acreditando, piamente, que esses títulos alheios se acabariam por transferir com esses mesmos jogadores para o Estádio da Luz. O que não viria a suceder, obviamente. 

O facto de o FC Porto ter dado uma fortuna a Maxi Pereira, que tanto tinha contribuído para o ainda incipiente renascer do Benfica, foi indício sólido de que a tal discussão sobre a hegemonia estava a mudar de campo. Maxi leva já duas temporadas inteiras no Dragão e ainda não acrescentou meio título sequer ao seu palmarés e ao palmarés do clube que o contratou. 

Já o Sporting vem percorrendo o mesmo trilho e, deste modo, foram chegando a Alvalade ex-campeões do Benfica como Bruno César e Markovic, velhos conhecidos do treinador Jorge Jesus. E, agora, será Fábio Coentrão se os exames médicos e o acordo sobre vencimentos se concluírem com o sucesso esperado. 

A turba dos dois lados da Segunda Circular indigna-se por estes dias com o negócio Coentrão. Uns indignam-se porque o homem das Caxinas disse um dia que em Portugal só jogava no Benfica e os outros porque o mesmo homem disse um dia que era sportinguista desde pequenino. 

Na realidade, ninguém tem razão porque exigir constância amorosa a um profissional de futebol é mania não do século XX mas do século XIX. São coisinhas destas que ajudam a fazer do futebol um espetáculo de multidões. E qual é o problema? 



Outras histórias... 
A maior família de Portugal  Silva, Silva, Silva & Cristiano Ronaldo e assim vamos lá  
Do jogo pobrezinho com o México (que deu empate) para o jogo eficiente com os russos (que deu vitória) na casa deles, Fernando Santos procedeu a umas quantas alterações na equipa nacional que resultaram muito bem em termos da qualidade de jogo dos campeões da Europa (sim, ainda parece impossível mas somos nós!). 

Foi a consagração do saber tático do selecionador português e foi também a consagração de todos os Silvas de Portugal, o apelido mais comum entre nós. Do encontro com o México para o desafio com a Rússia entraram três Silvas na equipa – Adrien Silva, Bernardo Silva e André Silva – e a aposta não podia ter corrido melhor. 

É claro que sem Cristiano Ronaldo, o autor do golo da vitória portuguesa em Moscovo, não há Silvas em Portugal que cheguem para fazer da nossa seleção uma mais do que séria candidata ao triunfo na Taça das Confederações. 

Mas para isso é preciso não descansar hoje frente à Nova Zelândia independentemente do número de Silvas em campo.




Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sábado, junho 24, 2017

Incentivo ao incentivo à leitura

Os textos que escrevo aqui na VISÃO são frequentemente incluídos em livros da disciplina de português do ensino secundário. É uma maneira excelente de pôr os alunos em contacto com escrita requintada e raciocínios sofisticados (1). Talvez um dia este mesmo texto venha a figurar num desses livros. Seria curioso: pela primeira vez, um texto incluído numa selecta escolar reflectiria acerca da circunstância de ser um texto incluído numa selecta escolar.

É uma espécie de mise en abyme (2) capaz de aborrecer alunos durante uns bons dez minutos de aula, ou até de lhes azucrinar a paciência num teste.

De vez em quando recebo chamadas telefónicas de jovens, filhos de amigos meus, que se encontram nesse momento a proceder à “análise e interpretação” de qualquer coisa escrita por mim. Costumam estar bastante indignados. Dizem que, se eu quero ser correctamente interpretado, deveria deixar-me de brincadeiras e escrever logo o que pretendo dizer, em vez de me pôr com figuras de estilo. Que começar frases com a palavra “que” excita nos professores a vontade de pedir uma análise sintáctica, e depois quem se lixa são eles. E que estão estafados de estudar estas estúpidas aliterações, por exemplo (3).

Ora, a culpa não é minha. Como calculam, eu nunca imaginei ser um TPC. Lamento profundamente que a vida se tenha desenrolado desta forma. É deplorável que milhares de estudantes tenham de me conhecer assim, entre uma estrofe d’Os Lusíadas e um excerto do Auto da Barca do Inferno – e que os seus professores os obriguem a dar-me a mesma atenção que eles dedicaram a Camões e Gil Vicente. Foi isso que me levou a escrever esta crónica cheia de anotações explicativas, para facilitar o trabalho dos alunos (4). Há um aspecto da minha obra que tanto alunos como professores devem manter presente: na maior parte das vezes eu escrevo estes textos em pijama. Todas as respostas de um teste ou trabalho de casa sobre mim devem incluir essa referência: “Nesta frase – que, muito provavelmente, o autor escreveu em pijama –, encontramos uma epanadiplose. (5)”  E sempre que um professor perguntar, a propósito de um texto meu, o que pretende realmente o autor, o aluno fica desde já credenciado para responder: “O autor pretende que este aluno tenha 5 a português. É a sua única ambição na vida.”(6) A sério.(7)


(1) Atenção: isto é bem capaz de ser ironia.
(2) Eis uma interessante expressão em estrangeiro cujo significado está disponível na Wikipedia. 
(3) Prometo parar prontamente com este tipo de proposição. 
(4) Cá está mais uma anotação bastante explicativa.
(5) É difícil encontrar uma epanadiplose numa frase minha, porque eu não sei bem o que uma epanadiplose é. 
(6) Não há aqui qualquer ironia.
(7) A sério.


Fonte : Ricardo Araujo Pereira @ Visão

sábado, junho 17, 2017

Fejsa já é padre há 9 anos

Fejsa, o sérvio do Benfica, foi esta semana notícia em várias publicações estrangeiras – nomeadamente em Espanha e em Inglaterra – pelo facto, aliás bastante absurdo, de colecionar ininterruptamente títulos desde o ano de 2008. 

O diário madrileno ‘As’, por exemplo, aconselha os possíveis interessados nos serviços do médio defensivo da Luz a não perder tempo porque "contratar Fejsa é garantia de ganhar o campeonato, seja que campeonato for". Depois elencam os espantadíssimos espanhóis o rol dos 9 títulos ganhos de enfiada pelo sérvio: 3 com a camisola do Partizan de Belgrado (2008-2011), 2 com a camisola do Olympiacos (2011-2013) e os 4 com aquela camisola vermelha de que a Madonna tanto gosta (2013-2017). 

Os elogios a Fejsa vindos da imprensa internacional compreendem-se. Um palmarés individual deste calibre deve ser caso único no mundo. E se em Portugal, com toda a franqueza, ninguém se lembra das exibições do sérvio no Partizan e no Olympiacos, já o seu contributo para o tetra do Benfica está fresco e amplamente documentado. 

Qual será, na realidade, o mistério de Ljubomir Fejsa? Que receita terá o sérvio que lhe vem garantindo um percurso profissional a terminar em festa ano após ano? E terá consciência Luís Filipe Vieira, o presidente do Benfica, que se vender Fejsa neste defeso e perder o título na próxima época não haverá quem não conclua que foi a falta do sérvio que impediu a equipa de Rui Vitória de chegar ao ‘penta’? 

Todas estas questões de capital importância para os benfiquistas são, naturalmente, falsas questões para os seus rivais diretos em Portugal. Para eles, no cúmulo de uma frustração com 4 anos, Fejsa, tal como os outros todos, não joga a ponta de um chavelho. 

E, desprezando até as trafulhices mais do que certas que levaram o Partizan e o Olympiacos a serem campeões com Fejsa – cartilhas em cirílico? missas ortodoxas? – já as razões que explicam este novo período de hegemonia do Benfica em Portugal estão à vista de todos e pelas piores razões: a aliança anti-Benfica fez eleger um presidente da Liga que sendo do Benfica-anti-Benfica se tem vindo a revelar de uma inépcia total desde o tristíssimo momento em que deixou de usar o apito e passou a usar gravata. 

Sérgio Conceição, muito atento, já se encarregou de traçar o destino de Fejsa e do Benfica – ou do Benfica sem Fejsa? – para 2017/18. "Não vão ser pentacampeões!", garantiu o técnico. Como é possível dizer-se uma coisa destas sem se saber ainda se o verdadeiro ‘padre’ da Luz, o mais fiável dos ‘padres’ da Luz, fica ou vai embora? Corrupção, isto cheira a corrupção… 



Outras histórias 
Um caso urgente de saúde pública 
Já estão a salvo os transeuntes nas nossas ‘zonas técnicas’ 
A velha guerra que opõe há mais de um século Benfica e Sporting atingiu esta semana um patamar que se poderá definir de ‘saúde pública’ e também da sua imperiosa legislação. 

O Benfica fez aprovar na última assembleia-geral da Liga um artigo regulamentar que considera "revelador de indignidade agravada" o ato de "fumar cigarros e cigarros eletrónicos" na chamada zona técnica dos estádios, bem como o ato de "expelir fumo ou quaisquer outras substâncias, tais como saliva" na direção de transeuntes nas referidas zonas técnicas. 

A proposta foi aprovada com 7 votos a favor, 4 votos contra e 36 abstenções, sendo que o Arouca (pois claro!) votou com o Benfica enquanto Sporting e Porto (vá-se lá saber porquê…) votaram contra este afã civilizacional vindo da Luz. 

Os 36 clubes que se abstiveram permitiram a aprovação da proposta que, pelo lado do Sporting, foi considerada uma afronta direta ao presidente Bruno de Carvalho. E assim, higiénico e triunfal, segue o defeso em Portugal.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Emel versus Asae: O recontro final

Toda a gente conhece o exercício infantil de imaginar uma luta entre dois colossos. Quem ganharia: o Super-Homem ou o Batman? Um tubarão ou um tigre? A EMEL ou a ASAE? Enquanto as duas primeiras contendas continuam a desenrolar-se apenas na nossa imaginação, a última ocorreu mesmo na vida real. Na semana passada, a ASAE multou a EMEL. Certos parquímetros não possuíam uma determinada certificação. O caso não excitou a curiosidade do povo tanto quanto eu esperava, provavelmente porque, tratando-se de dois dos organismos mais execrados do país, a alegria proporcionada pela derrota de um foi contrabalançada pela irritação causada pela vitória do outro. Vale a pena, até porque não temos mais nada para fazer, examinar com cuidado este bizarro incidente.

Tanto a ASAE como a EMEL têm um propósito, digamos, moralizador. A acção de ambas destina-se a melhorar os costumes. É importante que a comida, por exemplo, seja confeccionada em condições de higiene e segurança, e a ASAE esforça-se por garantir que isso aconteça. Os lugares de estacionamento são um bem escasso (em Lisboa, por exemplo, há três vezes mais carros do que lugares), e a fiscalização da EMEL possibilita a necessária rotatividade. Ora, pessoalmente, sou favorável a que a sociedade se organize civilizadamente – desde que eu possa continuar a viver como um selvagem. Em teoria, concordo com a segurança alimentar, mas na prática desejo, volta e meia, comer uma gordurosa bifana frita em óleo de há dois anos. Valorizo o trabalho da EMEL que me permite encontrar um lugar vago, mas abomino os fiscais que não me deixam usufruir do lugar para além do limite logo no dia em que não tenho moedas, que chatice. Oscilo entre o estado atilado “Eduquem estes bárbaros porque eles só percebem assim” e a disposição rebelde “Mas que intolerância é esta? Vão multar a vossa mãe.”

Sucede que, neste caso, multou-se quem multa. Multar o multador é uma operação com implicações filosóficas importantes. Significa que havia uma hierarquia de moralidade e que um dos moralistas considerou que o outro moralista carecia de moralização. Além disso, a EMEL foi multada porque não garantiu as melhores condições para multar. Estava a multar mal, ou seja, a fazer cumprir a lei fora da lei. Para aprender a multar-nos melhor, foi multada. Bem feita. Acho eu. São demasiadas ambivalências num processo só.



Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

sábado, junho 10, 2017

Dia de Portugal - 10 de Junho


Portugal, oficialmente República Portuguesa, é um país soberano unitário localizado no sudoeste da Europa, cujo território se situa na zona ocidental da Península Ibérica e em arquipélagos no Atlântico Norte. O território português tem uma área total de 92 090 km², sendo delimitado a norte e leste por Espanha e a sul e oeste pelo oceano Atlântico, compreendendo uma parte continental e duas regiões autónomas: os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Portugal é a nação mais a ocidente do continente europeu. O nome do país provém da sua segunda maior cidade, Porto, cujo nome latino-celta era Portus Cale.

O território dentro das fronteiras atuais da República Portuguesa tem sido continuamente povoado desde os tempos pré-históricos: ocupado por celtas, como os galaicos e os lusitanos, foi integrado na República Romana e mais tarde colonizado por povos germânicos, como os suevos e os visigodos. No século VIII, as terras foram conquistadas pelos mouros. Durante a Reconquista cristã foi formado o Condado Portucalense, primeiro como parte do Reino da Galiza e depois integrado no Reino de Leão. Com o estabelecimento do Reino de Portugal em 1139, cuja independência foi reconhecida em 1143. Em 1297 foram definidas as fronteiras no tratado de Alcanizes, tornando Portugal no mais antigo Estado-nação da Europa. Nos séculos XV e XVI, como resultado de pioneirismo na Era dos Descobrimentos (ver: descobrimentos portugueses), Portugal expandiu a influência ocidental e estabeleceu um império que incluía possessões na África, Ásia, Oceânia e América do Sul, tornando-se a potência económica, política e militar mais importante de todo o mundo. O Império Português foi o primeiro império global da História e também o mais duradouro dos impérios coloniais europeus, abrangendo quase 600 anos de existência, desde a conquista de Ceuta em 1415, até à transferência de soberania de Macau para a China em 1999. No entanto, a importância internacional do país foi bastante reduzida durante o século XIX, especialmente após a independência do Brasil, a sua maior colónia.

Com a Revolução de 1910, a monarquia terminou, tendo desde 1139 até 1910, 34 monarcas. A Primeira República Portuguesa foi muito instável, devido ao elevado parlamentarismo. O regime deu lugar à ditadura militar devido a um levantamento em 28 de maio de 1926. Em 1933, um novo regime autoritário, o Estado Novo, presidido por Salazar até 1968, geriu o país até 25 de abril de 1974. A democracia representativa foi instaurada após a Revolução dos Cravos, em 1974, que terminou a Guerra Colonial Portuguesa. As províncias ultramarinas de Portugal tornaram-se independentes, sendo as mais proeminentes Angola e Moçambique.

Portugal é um país desenvolvido, com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado como muito elevado. O país foi classificado na 19.ª posição em qualidade de vida (em 2005), tem um dos melhores sistemas de saúde do planeta e é, também, uma das nações mais globalizadas e pacíficas do mundo. É membro da Organização das Nações Unidas (ONU), da União Europeia (incluindo a Zona Euro e o Espaço Schengen), da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Portugal também participa em diversas missões de manutenção de paz das Nações Unidas.



Fonte: wikipedia

O amor é cego mas passa

Fábio Coentrão, que há 8 anos Jorge Jesus conseguiu transformar num muito eficiente lateral-esquerdo, só não será jogador do Sporting na próxima temporada se, eventualmente, não passar com distinção nos testes médicos. 

Isto porque não há nada pior do que investir num prometedor ativo que, afinal, se revela um contumaz inativo. A notícia do interesse do Sporting em Coentrão e, reciprocamente, do interesse de Coentrão no Sporting provocou grande alvoroço entre as alas mais disparatadas de adeptos do Benfica e do Sporting, que se recusam a admitir a legítima sazonalidade dos amores declarados pelos jogadores aos clubes que vão representando ao longo das carreiras. 

Consideram os benfiquistas Fábio Coentrão um troca-tintas porque, há exatamente 2 anos, o jogador jurou que, em Portugal, só jogaria no Benfica e foi assim, um bocado à bruta, que colocou ponto final nos rumores que circulavam à época e que o davam como certo no Sporting no primeiro ano de Jorge Jesus em Alvalade. 

Consideram os sportinguistas Fábio Coentrão um infiel convertido à pressa, que vai agora ingressar no seu templo depois de ter dito o que disse. Aliás, foi exatamente o que, sem grande originalidade, disse Markovic quando saiu do Benfica. Mas cumpriu. 

O impulsivo sérvio que foi contratado pelo Sporting no último defeso jogou tão pouco e tão mal que se regozijaram durante meia época os benfiquistas constatando, semana a semana, que Markovic em Portugal só ‘jogou’ efetivamente no Benfica, porque o Markovic de leão ao peito foi um fiasco total. 

Nada garante que Fábio Coentrão seja um êxito ou um fiasco no seu regresso anunciado ao futebol português até porque, tratando-se de futebol, nada melhor do que esperar para ver e tirar conclusões. Certo é que tudo o que corra bem a Coentrão em Alvalade vai causar dor na Luz e tudo o que lhe corra mal em Alvalade vai ser uma festa no outro lado. 

É sempre assim que se passam as coisas quando um jogador que brilhou ao serviço de um emblema se passa para o emblema do rival. 

Basta recordar os cânticos dos jogadores do Benfica no mês passado – "… e o Carrillo é campeão, e o Carrillo é campeão!..." – para se ter a noção exata de como estas ‘crueldades’, quando ocorrem, moem as suas vítimas. 

Quanto aos adeptos mais a sua proverbial cegueira clubista, é tempo de darem o devido valor – isto é, nenhum valor – às declarações de amor com que são contemplados episodicamente pelos seus ídolos, que logo viram vilões ao virar da esquina, porque o amor tão depressa é cego como deixa de o ser. 



OUTRAS HISTÓRIAS 
O melhor da semana no Dragão    
Um FC Porto que serve para a "tranquilidade" dos jogadores 
A contratação de Sérgio Conceição foi a melhor notícia da semana para o FC Porto. 

A segunda melhor notícia da semana para o FC Porto foi a de que Soares, o avançado contratado no último mercado de inverno, esteve ‘quase’ a ser convocado por Tite, o treinador do ‘escrete’, para os jogos que o Brasil vai disputar com a Argentina e a Austrália. 

Soares ‘quase’, imagine-se, ‘quase’, foi chamado à seleção brasileira. Não é para qualquer um. 

A terceira melhor notícia da semana para o FC Porto foi a entrevista que Casillas concedeu ao jornal francês ‘L’Équipe’ afirmando o guarda-redes espanhol que, no Dragão, recuperou "a tranquilidade" embora se compreenda que, entre os indefetíveis adeptos portistas, haja quem se interrogue se o F C Porto agora serve para a ‘recuperação da tranquilidade’ de jogadores em vez de servir para fazer dos jogadores campeões. 

Talvez por esta razão tenham sido pintados os muros de mais uma residência de um administrador da SAD. A culpa, claro, é do Benfica...



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

Actualização (à atenção de Carlos do Carmo)

No Castelo ponho um cotovelo mesmo em cima da casa da Monica Belluci, em Alfama descanso o olhar no apartamento do Michael Fassbender, e assim desfaço o novelo de azul e mar que os chineses querem fotografar. À Ribeira encosto a cabeça, almofada da cama do Tejo repleto de navios de cruzeiro, com lençóis bordados à pressa para satisfazer as necessidades do alojamento local, na cambraia de um beijo que a gente dá nos relatórios que indicam claramente um aumento significativo do número de turistas. Lisboa menina e moça, menina, da luz que os meus olhos vêem, tão pura, embora ligeiramente obscurecida pelo fumo dos tuk-tuks, teus seios são as colinas, varina cujo nível de vida piorou um pouco por causa das quotas impostas pela União Europeia às pescas, pregão que anuncia a realização do prestigiado web summit e me traz à porta ternura e algum lixo, porque os hóspedes do Airbnb não reciclam.

Cidade a ponto-luz bordada, toalha à beira-mar estendida sobre a qual turistas ébrios curam ressacas. Lisboa menina e moça, amada, cidade mulher da minha vida com rendas pela hora da morte.

No Terreiro eu passo por ti e posso adquirir várias bugigangas em cortiça, galos de Barcelos e camisolas do Ronaldo, nas lojas de recuerdos. Mas na Graça eu vejo-te nua, ao passo que já não vejo ninguém nu no Conde Redondo, dado que o Elefante Branco fechou.

Quando um pombo te olha, sorri, pois acabou de debicar uma fartura que um turista deitou fora. És mulher da rua porque até às três não vale a pena ires para casa, uma vez que, enquanto os bares estiverem abertos, não dormes de certeza. E no bairro mais alto do sonho, aquele em que mora o Éric Cantona, ponho um fado que soube inventar e que os estrangeiros apreciam, acompanhado de caldo verde, chouriço assado, broa e azeitonas, em casas extremamente typical.

Aguardente de vida e medronho, que me faz cantar, e faz os turistas mais fraquinhos vomitar.

Lisboa no meu amor deitada, pagando 350 euros por dormida, cidade por minhas mãos despida para pôr o vestido à venda numa loja de roupa vintage do Bairro Alto. Lisboa menina e moça, amada, cidade mulher da minha vida com rendas pela hora da morte.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

domingo, junho 04, 2017

O filho do filho do dragão

Sérgio Conceição poderá vir a ser (ou a não ser) o próximo treinador do FC Porto e não foi esta a primeira vez que os azuis-e-brancos se interessaram pelos serviços de Conceição. 

Há bem pouco tempo, quando urgia despachar Julen Lopetegui, foi notícia a cobiça do FC Porto pelos serviços do jovem treinador e seu ex-jogador e logo na semana em que o V. Guimarães de Sérgio Conceição recebia, justamente, o FC Porto de Lopetegui. 

Diga-se, resumidamente, que o resultado do jogo não foi favorável à transferência do treinador português nascido em Coimbra e acabou por ser José Peseiro o eleito pela SAD portista para assumir o comando da equipa. A coisa com Peseiro foi rápida e não correu bem. 

Tal como não correra bem com o basco nem, anteriormente, com Paulo Fonseca. Com Nuno Espírito Santo a coisa foi menos rápida – demorou uma temporada completa – e também esteve longe, muito longe de ser um sucesso apesar de tudo o que prometia em função da propalada "mística" carregada pelo antigo guarda-redes da casa. 

Convém precisar que "mística" é… ganhar. Vendo o Benfica ganhar três campeonatos de assentada, Espírito Santo foi, assim, contratado pelo FC Porto porque um dia, quando era guarda-redes da casa e num raro período menos feliz dos dragões, teve a inspiração de soltar um grito – "Somos Porto!" – que se transformou num slogan feliz que caiu no goto da vasta nação portista. 

Mas o "somos Porto" de Espírito Santo esboroou-se com o quarto título do Benfica e transformou-se num "fomos Porto". Na semana passada, foi explicado ao país do dragão que, afinal, Nuno sempre foi um benfiquista dos sete costados. Entretanto andou o FC Porto à cata de Marco Silva, que o preteriu em favor do Watford, o que se explica porque Marco Silva é outro benfiquista do piorio. Isto para não falar do benfiquismo de Paulo Fonseca, enfim, outro que tal… 

Sobre Sérgio Conceição é que, para já, não há dúvidas. É um filho do dragão certificado e como tal será recebido no Porto se o Nantes deixar. O problema maior é o filho do filho do dragão. Um dos filhos de Conceição, Rodrigo Conceição, 17 anos, é futebolista juvenil dos quadros do Benfica e ainda recentemente prolongou o seu vínculo com os mouros. 

Saberão, certamente, os adeptos e os profissionais da comunicação separar as águas perante esta minúscula traição. É que estes pormenores, na realidade, não valem nada. Veja-se o caso do filho do dirigente dos árbitros que foi contratado pelo Sporting no arranque da época passada e que pouco valeu ao autor da ideia. O futebol tem destas coisas. 



OUTRAS HISTÓRIAS 
Primeiro título na era do vídeo-árbitro  
O futuro parece ser um lugar cheio de possibilidades 
O Benfica conquistou o seu primeiro título e o primeiro título da história do futebol português na era do vídeo-árbitro. Foi a 26ª Taça de Portugal. 

Vencer a Taça é sempre uma festa para qualquer emblema mas para o Benfica foi ainda mais festa porque se tratou não só da sua 11ª dobradinha mas também de responder aos rivais – para quem o vídeo-árbitro era garantia da queda do império romano – levando para o Museu Cosme Damião o primeiro caneco disputado em condições tecnológicas que garantem o triunfo a 100% da verdade desportiva. 

A estreia do vídeo-árbitro foi um êxito. Nos poucos lances em que foi chamado a intervir, o vídeo-árbitro decidiu sempre em desfavor do Benfica, o que não impediu que a superioridade da equipa de Rui Vitória se afirmasse em campo e no resultado final. 

Até a chegada da bola do jogo impressionou o público. Um "trooper" galáctico voando num drone entregou a redondinha ao árbitro-humano. O futuro parece ser um lugar cheio de possibilidades.


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

sexta-feira, junho 02, 2017

Rocky e Ivan Drago vão ao cinema

Críticos de cinema de todo o mundo devem estar, neste momento, a rasurar críticas antigas. O mundo mudou e essa mudança produziu, primeiro que tudo, uma transformação sem precedentes no cinema. Numerosas películas mudaram de género sem que fosse necessário alterar um fotograma. Os filmes de espionagem americanos de antigamente são agora obras de ficção científica. Na história clássica dos filmes de espionagem, um agente do FBI ia investigar os russos. Na vida real, o Presidente dos Estados Unidos da América despede um agente do FBI por andar a investigar os russos. As novas relações entre os americanos e a Rússia exercem um estranho efeito retroactivo sobre a mitologia do passado. É como se Montéquios e Capuletos, de repente, fossem os melhores amigos: a história de Romeu e Julieta fica meio parva. Parece o inverso de um casamento seguido de divórcio. EUA e Rússia são um casal divorciado que se casa. Talvez haja necessidade de recorrer ao método estalinista de alterar fotografias, mas ao contrário: em vez de retirar elementos caídos em desgraça das fotos antigas, incluir elementos caídos em graça nas fotos antigas.

A frase “Cuidado, vêm aí os russos!” está agora mais completa: “Cuidado, vêm aí os russos. Teremos champanhe que chegue?” Exprime outro tipo de preocupação. A diferença é bastante significativa, pelo que talvez valesse a pena submeter os filmes clássicos ao processo a que a indústria de Hollywood chama um remake. Um remake costuma ser o equivalente cinematográfico dos restos do jantar de ontem: vão ao microondas e comemos outra vez a mesma coisa ao almoço. No caso dos filmes é ligeiramente diferente, uma vez que o jantar não é de ontem, é de há algumas décadas. Os remakes que tenho em mente seriam ainda mais singulares, porque teriam de conformar o enredo antigo à realidade moderna. Comecei a trabalhar no remake do filme Rocky IV. Nesta versão, Rocky e Ivan Drago não lutam, uma vez que são amigos. Drago matou Apolo Creed, mas apenas porque suspeitou que ele pudesse ser muçulmano. Rocky perdoou imediatamente o russo e ainda deram umas boas gargalhadas sobre isso. Para manter a tensão do filme original quanto à rivalidade entre o russo e o americano, Drago e Rocky fazem uma competição para ver quem come mais bombons de ginja durante um piquenique. Fico à espera da chamada dos estúdios da MGM. Tenho isto quase pronto.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão