sábado, junho 10, 2017

Actualização (à atenção de Carlos do Carmo)

No Castelo ponho um cotovelo mesmo em cima da casa da Monica Belluci, em Alfama descanso o olhar no apartamento do Michael Fassbender, e assim desfaço o novelo de azul e mar que os chineses querem fotografar. À Ribeira encosto a cabeça, almofada da cama do Tejo repleto de navios de cruzeiro, com lençóis bordados à pressa para satisfazer as necessidades do alojamento local, na cambraia de um beijo que a gente dá nos relatórios que indicam claramente um aumento significativo do número de turistas. Lisboa menina e moça, menina, da luz que os meus olhos vêem, tão pura, embora ligeiramente obscurecida pelo fumo dos tuk-tuks, teus seios são as colinas, varina cujo nível de vida piorou um pouco por causa das quotas impostas pela União Europeia às pescas, pregão que anuncia a realização do prestigiado web summit e me traz à porta ternura e algum lixo, porque os hóspedes do Airbnb não reciclam.

Cidade a ponto-luz bordada, toalha à beira-mar estendida sobre a qual turistas ébrios curam ressacas. Lisboa menina e moça, amada, cidade mulher da minha vida com rendas pela hora da morte.

No Terreiro eu passo por ti e posso adquirir várias bugigangas em cortiça, galos de Barcelos e camisolas do Ronaldo, nas lojas de recuerdos. Mas na Graça eu vejo-te nua, ao passo que já não vejo ninguém nu no Conde Redondo, dado que o Elefante Branco fechou.

Quando um pombo te olha, sorri, pois acabou de debicar uma fartura que um turista deitou fora. És mulher da rua porque até às três não vale a pena ires para casa, uma vez que, enquanto os bares estiverem abertos, não dormes de certeza. E no bairro mais alto do sonho, aquele em que mora o Éric Cantona, ponho um fado que soube inventar e que os estrangeiros apreciam, acompanhado de caldo verde, chouriço assado, broa e azeitonas, em casas extremamente typical.

Aguardente de vida e medronho, que me faz cantar, e faz os turistas mais fraquinhos vomitar.

Lisboa no meu amor deitada, pagando 350 euros por dormida, cidade por minhas mãos despida para pôr o vestido à venda numa loja de roupa vintage do Bairro Alto. Lisboa menina e moça, amada, cidade mulher da minha vida com rendas pela hora da morte.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

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