sexta-feira, junho 30, 2017

Um disco riscado chamado Portugal

Interrompemos esta emissão para fazer uma ligação em directo ao local onde lavra o violento incêndio. O nosso enviado especial vai agora perguntar a uma vítima como é que ela se sente.

– Bom dia. Como é que se sente?

Obrigado. Em estúdio temos um especialista. Não é surpreendente que esta vítima se sinta demasiado aturdida para explicar como é que se sente?

– É. Eu esperava lucidez e frases completas.

Agora pedia-lhe que falasse sobre isto durante cinco horas.

– Com certeza. Estamos perante uma tragédia enorme que comporta elevados custos materiais e humanos. A área ardida leva décadas a recuperar. Situações como esta não podem voltar a acontecer. Não me lembro de uma coisa assim desde o ano passado. A nuvem de fumo vê-se do espaço. 
A floresta é um activo extremamente importante. 
Há que dotar os bombeiros de meios. Há que investir na prevenção. Há que corrigir os problemas do ordenamento do território. Não é hora de apontar dedos, mas a culpa não pode morrer solteira. Adeus e até para o ano.

Interrompemos esta emissão para fazer uma ligação em directo ao local onde lavra o violento incêndio. Ao que a nossa reportagem conseguiu apurar, há várias vítimas e nenhuma consegue verbalizar com exactidão o que sente. Comigo em estúdio está um especialista. Estamos perante o quê?

– Uma tragédia enorme.

O que é que ela comporta?

– Elevados custos materiais e humanos.

A floresta é um activo quê?

– Extremamente importante.

Vamos agora à sua popular rubrica dos há ques, se não se importa.

– Há que dotar os bombeiros de meios. Há que investir na prevenção. Há que corrigir os problemas do ordenamento do território.

Bravo. Qual é a dimensão desta tragédia?

– O grupo de jornalistas no terreno vê-se do espaço.

Obrigado e até para o ano.

Interrompemos esta emissão para blá blá blá. O nosso enviado especial vai agora perguntar blá blá blá.

– Bom dia. Blá blá blá?

Obrigado. Comigo em estúdio, um especialista.

– Estamos perante uma blá blá blá que comporta elevados blá blá blá. A área blá leva blá a blá blá. Situações como esta não podem blá blá blá. A floresta é um blá blá blá extremamente blá blá blá. Há que bombeiros. Há que prevenção. Há que ordenamento do território. Não é hora de blá, mas a culpa não pode blá. Adeus e até para o ano.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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