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quinta-feira, junho 28, 2012

Contra os canhões rematar, rematar


Gosto de ver um daqueles jogos de futebol em que o objectivo é marcar mais golos do que o adversário, mas estes em que os jogadores lutam pelo prestígio de Portugal junto dos mercados financeiros também são interessantes. Várias figuras, anónimas e conhecidas, têm dado o seu apoio à nova modalidade e pedido aos jogadores que endireitem a economia na transformação de livres directos, ou que resolvam o problema do desemprego ao pontapé. Tendo em conta que o governo também tem tratado o desemprego com os pés, não se pode dizer que o pedido seja inovador, ao menos no que ao método diz respeito, mas há que ter esperança.

O campeonato da Europa de mudança da opinião que os estrangeiros têm sobre Portugal começou mal. No primeiro jogo, a imagem do país lá fora foi ao poste antes do intervalo, e, na segunda parte, o futuro dos nossos filhos foi à barra. Antes disso, o guarda-redes alemão já tinha socado para trás o orgulho que os portugueses sentem no seu país. Um português que acompanhava o jogo pela televisão, e não sabia onde tinha posto os óculos, chegou a pensar que a bola tinha entrado na baliza alemã e começou a sentir orgulho em Portugal, mas depois percebeu que afinal era canto e voltou a ter vontade de emigrar. 

No entanto, duas vitórias nos dois jogos seguintes fizeram com que a Europa nos olhasse com outros olhos. Há mais respeito, agora. Um português passeia nas ruas de qualquer cidade europeia e sente a admiração de toda a gente. O ministro das Finanças alemão terá telefonado a Angela Merkel para lhe dizer que, uma vez que a nossa selecção tinha sido capaz de bater a Dinamarca por 3-2, talvez as medidas de austeridade pudessem ser um pouco menos duras. Desempregados que já tinham as malas feitas para emigrar voltaram a pendurar a roupa no cabide e desataram a projectar micro, pequenas e médias empresas.

É infalível: selecção que faça brilharetes nos campeonatos internacionais obtém o respeito do resto do mundo. Repare-se no exemplo da Grécia: venceu o campeonato da Europa em 2004 e, hoje, o seu povo é tido na mais alta consideração. Os gregos mostraram que eram um povo honesto, corajoso e trabalhador, e qualquer pequeno problema que eventualmente possa haver com as finanças do país é desvalorizado quando os responsáveis da União Europeia e do FMI recordam o que Zagorakis e seus pares fizeram, há oito anos, em Portugal.

Os próprios espanhóis, que são campeões da Europa e do Mundo, têm um quarto da população no desemprego, mas esses são desempregados que podem comer um bocadinho do orgulho que foram ganhando naqueles campeonatos, e dar aos filhos a alegria de viver num país cuja selecção de futebol vence bastantes jogos.

Fonte: Visão

quarta-feira, novembro 24, 2010

Este país não é para corruptos

Em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer.

... Que Portugal é um país livre de corrupção sabe toda a gente que tenha lido a notícia da absolvição de Domingos Névoa.

O tribunal deu como provado que o arguido tinha oferecido 200 mil euros para que um titular de cargo político lhe fizesse um favor, mas absolveu-o por considerar que o político não tinha os poderes necessários para responder ao pedido. Ou seja, foi oferecido um suborno, mas a um destinatário inadequado. E, para o tribunal, quem tenta corromper a pessoa errada não é corrupto- é só parvo.

A sentença, infelizmente, não esclarece se o raciocínio é válido para outros crimes: se, por exemplo, quem tenta assassinar a pessoa errada não é assassino, mas apenas incompetente; ou se quem tenta assaltar o banco errado não é ladrão, mas sim distraído.

Neste último caso a prática de irregularidades é extraordinariamente difícil, uma vez que mesmo quem assalta o banco certo só é ladrão se não for administrador.

O hipotético suborno de Domingos Névoa estava ferido de irregularidade, e por isso não podia aspirar a receber o nobre título de suborno. O que se passou foi, no fundo, uma ilegalidade ilegal. O que, surpreendentemente, é legal. Significa isto que, em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer. É preciso saber fazer as coisas bem feitas e seguir a tramitação apropriada. Não é acto que se pratique à balda, caso contrário o tribunal rejeita as pretensões do candidato.

"Tenha paciência", dizem os juízes. "Tente outra vez. Isto não é corrupção que se apresente."


Fonte : RAP@Boca do Inferno in Visão

quarta-feira, janeiro 21, 2009

A todos os executivos que mantiveram Portugal em crise desde 1143 até hoje, muito obrigado!

Ou estou fortemente enganado (o que sucede, aliás, com uma frequência notável), ou a história de Portugal é decalcada da história de Pedro e o Lobo, com uma pequena alteração: em vez de Pedro e o Lobo, é Pedro e a Crise.

De acordo com os especialistas – e para surpresa de todos os leigos, completamente inconscientes de que tal cenário fosse possível – Portugal está mergulhado numa profunda crise. Ao que parece, 2009 vai ser mesmo complicado.

O problema é que 2008 já foi bastante difícil. E, no final de 2006, o empresário Pedro Ferraz da Costa avisava no Diário de Notícias que 2007 não iria ser fácil. O que, evidentemente, se verificou, e nem era assim tão difícil de prever tendo em conta que, em 2006, analistas já detectavam que o País estava em crise. Em Setembro de 2005, Marques Mendes, então presidente do PSD, desafiou o primeiro-ministro para ir ao Parlamento debater a crise económica. Nada disto era surpreendente na medida em que, de acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal, entre 2004 e 2005, o nível de endividamento das famílias portuguesas aumentou de 78% para 84,2% do PIB. O grande problema de 2004 era um prolongamento da grave crise de 2003, ano em que a economia portuguesa regrediu 0,8% e a ministra das Finanças não teve outro remédio senão voltar a pedir contenção. Pior que 2003, só talvez 2002, que nos deixou, como herança, o maior défice orçamental da Europa, provavelmente em consequência da crise de 2001, na sequência dos ataques terroristas aos Estados Unidos. No entanto, segundo o professor Abel M. Mateus, a economia portuguesa já se encontrava em crise antes do 11 de Setembro.

A verdade é que, tirando aqueles seis meses da década de 90 em que chegaram uns milhões valentes vindos da União Europeia, eu não me lembro de Portugal não estar em crise. Por isso, acredito que a crise do ano que vem seja violenta. Mas creio que, se uma crise quiser mesmo impressionar os portugueses, vai ter de trabalhar a sério. Um crescimento zero, para nós, é amendoins. Pequenas recessões comem os portugueses ao pequeno-almoço. 2009 só assusta esses maricas da Europa que têm andado a crescer acima dos 7 por cento. Quem nunca foi além dos 2%, não está preocupado.

É tempo de reconhecer o mérito e agradecer a governos atrás de governos que fizeram tudo o que era possível para não habituar mal os portugueses. A todos os executivos que mantiveram Portugal em crise desde 1143 até hoje, muito obrigado. Agora, somos o povo da Europa que está mais bem preparado para fazer face às dificuldades.

Fonte: Boca do Inferno – Ricardo Araújo Pereira

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