sexta-feira, julho 14, 2017

Ressurreição de vivos

Portugal teve esta semana duas excelentes notícias: um avião não caiu e uma pessoa não se suicidou. Talvez não sejam excelentes notícias. É possível que sejam excelentes não-notícias. Ou, mais precisamente, excelentes desmentidos de más não-notícias. Sejam o que forem, aceito. Foi agradável saber que um avião não tinha caído e que uma pessoa não se tinha suicidado, até porque o avião esteve despenhado durante cerca de duas horas e a pessoa ainda chegou a permanecer enforcada durante uns bons 45 minutos. É como a ressurreição de Lázaro mas sem Lázaro ter morrido. Assim poupa-se trabalho, quer a Lázaro, que não tem de falecer, quer a Jesus, que não desperdiça impositio manuum onde não há necessidade. Apesar de descoberto por acaso, parece-me que o desmentido de não-notícias poderia transformar-se numa instituição. Gostaria de ligar a televisão e passar a ouvir: “Esta manhã, pelas 11h32, um terramoto não arrasou o País. O sismo, que não registou 8,2 na escala de Richter, não teve epicentro em Viseu.” Ou: “Ontem, um monstro marinho não comeu 17 banhistas na praia do Castelo.” As notícias informam, mas muitas vezes preocupam. Os desmentidos de não-notícias envolvem criatividade e proporcionam alívio. Têm, sobre as notícias, uma superioridade evidente.

O primeiro não-caso a não-abalar o País foi a não-queda do não-avião. De acordo com a comunicação social, um avião de combate aos incêndios ter-se-ia despenhado. Uma jornalista fez uma longa declaração, dizendo que havia sido inadmissivelmente induzida em erro, tanto que tinha confirmado a informação junto de, e cito, “duas pessoas diferentes”. Esta expressão interessa-me, se me permitem uma nota marginal. A ideia de que uma notícia tenha de ser confirmada por duas pessoas diferentes constitui uma falha na deontologia jornalística porque parece inviabilizar que determinado facto possa ser confirmado por gémeos. Uma notícia confirmada por duas pessoas iguais devia ter a mesma credibilidade que outra confirmada por duas pessoas diferentes. Ou talvez até menos, dado que é muito mais fácil encontrar duas pessoas diferentes do que duas pessoas iguais.

O segundo não-caso foi o do não-suicídio, do qual Passos Coelho alegou ter tido conhecimento através de uma pessoa de família. O provedor da Santa Casa de Pedrógão Grande veio mais tarde confirmar e desmentir o presidente do PSD: confirmar porque tinha sido ele a dar-lhe a não-
-notícia, desmentir porque ele não é da família de Passos Coelho (a não ser que a família política conte). 
É, por isso, uma ocorrência ainda mais intrincada, na medida em que a não-notícia foi veiculada por uma não-fonte. Confesso que não sei o que não-pensar de tudo isto.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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