quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Recordações da casa cor-de-rosa

Provavelmente por não ter melhores qualidades para assinalar, a Irmã Joaquina começava os meus relatórios escolares sempre com a mesma declaração: “O aluno é assíduo e pontual.” No seu novo livro de memórias, “Quinta-feira e outros dias”, Cavaco Silva usa um método parecido para avaliar ex-primeiros-ministros: Passos Coelho era pontual; Sócrates não. Em determinada ocasião, Sócrates atrasou-se tanto que Cavaco se recusou a recebê-lo – e, embora a obra o não refira, deve ter sido marcada falta a vermelho. Seria interessante investigar se Sócrates conseguiu obter um documento justificativo do atraso, devidamente assinado pelo seu encarregado de educação: uma consulta médica, a morte de um familiar ou até o clássico “o cão comeu-me o orçamento de Estado”. Infelizmente, o livro também é omisso em relação a essa matéria. Para reconstituir esta época, os historiadores do futuro terão de se contentar com as parcas (embora interessantes) informações que o cronómetro do antigo presidente registou. 
E, além disso, com uma confissão: Cavaco diz que, a partir de certa altura, começou a desconfiar de que Sócrates nem sempre dizia a verdade. Se os vindouros atribuírem cognomes aos presidentes, será justo que o antecessor de Marcelo fique conhecido como “Cavaco, o Perspicaz”.

O livro permite compreender que Cavaco é, sobretudo, uma pessoa que remói. Saiu de Belém e foi para casa remoer coisas. No início do 14º capitulo, o ex-presidente afirma: “Não tenho dúvidas de que teria sido um Presidente da República diferente se não tivesse hábitos de rigor e de trabalho, se a minha formação académica não fosse nas áreas da Economia e das Finanças, se não tivesse sido primeiro-ministro durante dez anos (…).” Escassos cinco parágrafos mais adiante, volta a dizer: “A minha experiência como primeiro-ministro, os conhecimentos de Economia e Finanças (…) e os meus hábitos de rigor e trabalho foram particularmente úteis (…).” Antes disso, já tinha explicado o seu projecto: “(…) pôr o meu saber e experiência ao serviço do país, de modo a que a situação fosse melhor do que seria se a escolha do povo português (…) tivesse sido outra.” E, página e meia depois, repete: “Estou convencido de que (…) contribuí para que a situação económica e social do país fosse melhor do que se tivesse sido outra a escolha dos portugueses.” Trata-se, por isso, de uma obra que se insere num novo género: memórias de uma pessoa que está desmemoriada. Não se recorda que já recordou o que está nesse momento a recordar.

É curioso notar, no entanto, que, na opinião do antigo presidente, a presidência da república faz muito bem à saúde dos idosos: “Para mim, manter a actividade profissional até quando a saúde permitir é a melhor forma de garantir o princípio mente sã em corpo são. Considero que, do ponto de vista psicológico, foi um privilégio ter exercido as funções de Presidente da República entre os 66 e os 76 anos de idade, mantendo uma actividade intensa (…)”. O exercício do cargo de mais alto magistrado da nação junta-se assim ao golf, ao ponto-cruz e à hidroginástica como forma de entreter cidadãos de idade avançada que desejem manter-se activos. Fica a sugestão.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira

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