sexta-feira, novembro 04, 2016

Era eu menino e moço quando a juventude apareceu

Por ter nascido nos anos 70, nunca tive mocidade. No meu tempo, usava-se juventude. Já ninguém era moço há anos, e ainda não havia teenagers – excepto, talvez, no estrangeiro. Aconteceu à palavra mocidade o mesmo que às pessoas que costumava designar: envelheceu. Eu, que desconfio da sinonímia, acredito que tem de haver uma diferença, por ligeira que seja, entre mocidade e juventude. Talvez tenha sucedido o mesmo à meninice, que foi substituída, mais ou menos na mesma altura, pela infância. Antigamente havia, aliás, algumas pessoas, referidas tanto por Bernardim Ribeiro como por Carlos do Carmo, que eram designadas pela expressão “menina e moça”. Supõe-se que ser menina seja diferente de ser moça, e no entanto há registos de quem conseguisse sê-lo em simultâneo, embora apenas no momento de serem levadas de casa de seus pais, ou quando se encontram sob a luz que os meus olhos vêem, tão pura.

Talvez eu tenha experimentado, de forma relativamente humilhante (que é o ambiente em que as minhas experiências costumam, em geral, decorrer), a exacta distância entre a mocidade e a juventude. Estava a ler um livro que havia em casa dos meus pais (se eu tivesse tido mocidade diria, respeitosamente, “de meus pais”; o uso do artigo definido é uma ousadia da juventude), chamado “Histórias para gente moça”. Um dos textos era um conto de António Botto sobre um casal que acabara de ter um filho. O gato da família parecia sentir ciúmes do bebé, mas isso era mais divertido do que preocupante. Um dia, a mãe encheu uma panela de água a ferver para ir lavar roupa e, quando se dirigia para o tanque, viu o gato, que saía do quarto do bebé, lambendo os beiços ensanguentados. A mulher atirou a panela ao gato e precipitou-se para o quarto, onde o bebé dormia tranquilamente. No chão, junto ao berço, estava uma cobra morta. Atormentada pelo remorso, a mulher tomou o gato nos braços e enterrou-o no jardim. Pouco tempo depois, nascia ali mesmo uma linda roseira.

Mesmo tocado pela bravura do gato e pelo injusto julgamento precipitado da mãe, comentei com os meus pais que o bicho não era, ainda assim, totalmente inocente, uma vez que, como ficara claro no fim, tinha engolido, por maldade, dois ou três bolbos de rosa, que a senhora estava decerto a guardar para a primavera. Os meus pais disseram que a minha interpretação do texto revelava, sem margem para dúvidas, que eu era um idiota. E assim se tornou evidente que a mocidade, a que os meus pais haviam pertencido, era dada a misticismos e acreditava no perdão; e a juventude era cínica e atenta à perfídia do mundo. Ou idiota, que vai mais ou menos dar ao mesmo.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão


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