quinta-feira, outubro 20, 2016

Frankenstrump uma historia menos conhecida de Mary Shelley

O meu nome é Victor Frankenstrump e estudei ciências na universidade de Ingolstadt. Ao longo da minha frequência universitária pude aperceber- -me de que Ingolstadt é uma cidade com bastantes consoantes. Não há muito mais aspectos notáveis nesta aborrecida localidade, pelo que os meus amigos e eu resolvemos dedicar-nos com algum afinco ao alcoolismo. Numa noite de tempestade, um dos meus colegas apostou que eu não era capaz de criar um monstro feito de partes de cadáveres humanos e cérebro de gorila. Aceitei a aposta e fomos imediatamente para o cemitério pilhar sepulturas. Tínhamos alguma experiência no assunto porque essa tinha sido, precisamente, a actividade em que tinham consistido as praxes da universidade no ano anterior. Levámos os cadáveres para o laboratório da universidade e compusemos um corpo bastante grotesco, mas ainda assim razoavelmente parecido com o de um ser humano. A cabeça era especialmente estranha, porque pertencia a um homem que tinha morrido com um ataque de icterícia, e o rosto tinha agora um tom alaranjado, excepto ao redor dos olhos, onde era cor-de-rosa. Foi impossível obter o cérebro de um gorila, mas entretanto ocorreu-me que meu tio, Amílcar Frankenstrump, falecido na semana anterior, tinha a mundividência de um primata. O cérebro de meu tio era demasiado pequeno para a caixa craniana do monstro, de modo que preenchemos o resto do espaço com palha, para que não chocalhasse. Depois de cosidas as partes do corpo, levámos o monstro para um descampado e atámo-lo a um pára-raios, esperando que a descarga eléctrica de um relâmpago lhe desse vida. O relâmpago atingiu-o em cheio na cabeça, o que fez com que parte da palha que se encontrava no interior do crânio saísse. Quando se levantou, o monstro estava zangado mas decidido. Disse que “o lugar das gajas era na cozinha”, que “isto precisava era de um Salazar em cada esquina”, que “estrangeiros é na terra deles”, e que tinha uma vontade incontrolável de governar os Estados Unidos da América. Rimos bastante, porque era óbvio que, apesar de parcialmente composto de palha, mesmo assim faltavam-lhe habilitações para ocupar sequer o cargo de espantalho num campo de milho. Talvez pudesse fazer carreira como atracção de feira, mas nunca conseguiria estar perto de ser eleito para a Casa Branca. Fomos descansados beber mais uma garrafa de absinto, finda a qual sentimos alguma vontade de votar nele. Mas temos a certeza que passa após uma boa noite de sono.

Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão


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