sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Com factura, se faz favor

Os Medici, uma família do século XV, tinham um banco e faziam mecenato. Os portugueses, um povo do século XXI, fazem mecenato a bancos. São, como se vê, actividades muito semelhantes – e no entanto há uma enorme diferença de prestígio entre aquela família e este povo. Sem os Medici talvez não tivéssemos hoje muitas obras de Leonardo da Vinci, Donatello, Michelangelo e Rafael – o que significa que, provavelmente, também não teríamos Tartarugas Ninja, um facto tantas vezes negligenciado. Mas sem os portugueses não haveria BPP, BPN, Novo Banco e Banif. Os Medici patrocinavam artistas com o seu banco; os portugueses são artistas a patrocinar bancos.

Devo sublinhar que é de arte que se trata. Os portugueses sempre foram engenhosos a gerir o dinheiro e é impossível não apreciar a qualidade estética do famoso método dos envelopes: um envelope com o dinheiro para a luz, outro com o dinheiro para a água, e assim para todas as despesas. Nos últimos anos, os portugueses acrescentaram a este sistema um envelope que diz “bancos”. Esta constatação é importante porque, recentemente, muitas obras de arte patrocinadas pelos Medici tiveram de ser cobertas para que o presidente iraniano, que as considerava obscenas, não as visse. Sucede que eu considero obscenas as obras que tenho patrocinado, e gostava de exigir que os bancos resgatados fossem cobertos sempre que eu passar por eles. 
Na qualidade de mecenas, gostaria ainda que, sempre que ajudo a resgatar um banco, me passassem factura. Creio que é o mínimo que podem fazer. Não sei que parte me cabe nos cinco mil milhões de euros usados para salvar o BES, mas tenho a certeza de que se trata de uma despesa que poderei descontar no IRS, juntamente com a conta da farmácia.

Tenho ainda outra sugestão para minimizar os efeitos do nosso constante patrocínio a instituições de crédito. É um jogo novo da Santa Casa da Misericórdia chamado Totobanco. Todas as semanas, os apostadores tentam adivinhar qual o próximo banco a falir. Além do nome do banco, o jogador escolhe quatro números e duas estrelas. Com os quatro números tenta adivinhar o montante do resgate (em milhares de milhões: por exemplo, no caso BES teria ganho o jogador que tivesse apostado nos números 5000); com as duas estrelas, tenta acertar na fiança que o responsável pelo banco vai pagar para se manter em liberdade (em milhões: por exemplo, também no caso BES, a chave correcta seria 03). Como, por vezes, chega a passar uma semana inteira sem que um banco vá à falência, o prémio acumula para jackpot. É uma maneira (e não vejo muitas outras) de o nosso sistema bancário dar uma alegria a alguém, de vez em quando. 


Fonte: Ricardo Araújo Pereira@Visão


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