domingo, fevereiro 14, 2016

A família ao barulho

A propósito do triunfo fulgurante das redes sociais como veículos de comunicação, o jornalista Nuno Perestrelo de ‘A Bola’ citava um dia destes, e muito a propósito, Umberto Eco: "O drama da internet é que promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade." É o que diz sobre este capitoso assunto o recitado autor italiano que festejou os seus 84 anos no último janeiro. E que bem se aplica ao atual momento do futebol nacional a conclusão – tão lúcida – do velho filósofo e romancista piemontês.

Menos singular do que a promoção do "idiota da aldeia" ao estatuto de pensador será, no entanto, ainda mais indecorosa e indesejável esta espécie de "intimidade" forçada pelas redes sociais entre os seus frequentadores, incluindo os mais precavidos que, é fácil de adivinhar, são uma ínfima minoria dos internautas em ação. 

Isto porque começa a ser altamente embaraçante o volume de ajustes de contas pela via familiar e tecnológica que se vem desenrolando quase diariamente nos ecrãs dos nossos portáteis e dos nossos telemóveis. E é impossível fugir a tanta indiscrição à solta. Na realidade, quem iniciou esta moda foi o casal Pinto da Costa, como estarão recordados. Vítor Baía disponibilizou-se para uma candidatura ao FC Porto e a atual primeira- -dama saiu em defesa acalorada da sua posição e da posição do cônjuge. 

Democraticamente inspirada no exemplo presidencial, veio agora a mulher do capitão do Porto, em defesa ainda mais acalorada do seu marido. Maicon foi cruelmente tratado pelos adeptos da casa depois de cometer um falhanço que permitiu ao Arouca ganhar no Dragão e a sua cara-metade agarrou-se ao teclado para declarar, via Facebook, uma guerra aos médicos do clube que logo foi secundada pelo irmão de Maicon, que aproveitou a ocasião para, também ele, se apresentar à sociedade. 

Contagiada por esta febre de desabafos em família, a comunicação oficial do Porto entendeu, depois do lapso com o Arouca, atacar o árbitro da partida por se chamar ‘Rui Costa’ e, no mesmo ímpeto, atacar o presidente dos árbitros por ser pai de um adjunto de Lito Vidigal, o que configura o crime de ‘coincidências familiares’. Enfim, já nem se pode ter família no futebol português porque nos entram todos em casa aos magotes – pais, filhos, casais, irmãos – pela janela da tecnologia moderna que, afinal de tão moderna, nos remete a cada dia para as pequenas e ancestrais familiaridades da tal aldeia que, afinal, é bem nossa. 



Outras histórias 
Atribulações de aniversário 
Ainda não foi desta que Alvalade cantou em uníssono os ‘parabéns a você’ ao presidente do clube, festejando-se nas bancadas o nascimento do líder e uma vitória no campeonato. Já no ano passado, a coisa acabou por correr mal apesar da "data querida" – como diz a cantiga – ter sido amplamente anunciada em todos os meios pelo aniversariante com desmesurado despudor infantil. Mas o Jardel, esse mesmo, não deixou que acontecesse a festa tão ansiada que, por coincidir com um derby, não poderia deixar de terminar em cantoria. Em tempo de descontos, o tal Jardel desfeiteou Rui Patrício com um remate potente e o Sporting viu-se empatado sem remissão. Este ano, calhando o jogo com o Rio Ave no dia de anos do presidente, não se esperava outra coisa que não uma robusta vitória da equipa do Sporting e, finalmente, uma multidão a cantar os parabéns a Bruno Miguel. Mas outra vez o estádio ficou em silêncio perante um resultado nulo. Mas dizem que o jantar que se seguiu foi um êxito. 



Sobe e Desce 
Sobe 
Guerra na barbearia - ‘Hair Style’ 
Resultado do clássico à parte, qual dos treinadores terá exibido ontem o melhor corte de cabelo? É que o barbeiro é o mesmo e foi uma das figuras da semana. 

A guerra na bancada - Slimanis 
Em solidariedade com Islam ‘Cotovelos’ Slimani, adeptos do Sporting usaram máscaras com a cara do jogador argelino, facto que também não atemorizou o Rio Ave. 


Desce 
A paz no relvado - Edimar 
O preciso momento em que Edimar, um simpático jogador do Rio Ave, beija o cotovelo de João Mário, que também se associou à onda de solidariedade das bancadas. 



Pérola 
"Eu tenho um mínimo de literatícia", José Eduardo


Fonte: Leonor Pinhão @ Correio da Manha

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