sexta-feira, dezembro 27, 2013

Bruno e o lobo

Teve entrada de leão e o saldo é ainda claramente positivo, mas no comportamento público Bruno de Carvalho(BdC) tem de passar a ser mais do que um adepto fervoroso do Sporting. É que começou mesmo bem: limpou a casa, controlou os custos, forçou a banca a um entendimento, devolveu a esperança, aumentou receitas. E foi certeiro na decisão mais importante, escolheu um treinador - Leonardo Jardim - que reúne as três condições essenciais ao sucesso: conhecimento (percebeu-se a definição do plantel), competência (evidente na concretização em pouco tempo de um modelo de jogo eficaz) e coragem (nítida numa liderança firme mas discreta).

Carlos Daniel
Dir-se-á dele que tem os defeitos das próprias qualidades, que a mesma paixão do presidente mobilizador o transforma num chefe de claque deslocado e em momentos impróprios. A mensagem atrevida, de não vassalagem e até confrontação com os poderes existentes está assimilada, e já ninguém olha para o Sporting de BdC como o "coitadinho" do passado recente. Tem é de parar por aqui, a esse nível.

Bruno de Carvalho vai a tempo de estender ao comportamento público a maturidade exibida noutras decisões e não faltam razões que o recomendem, que nenhum clube é melhor que outro, apenas diferente, como ninguém é especial por ser adepto de um emblema, que até são todos muito parecidos. Os do Sporting estão convencidos de que foram os mais prejudicados dos últimos anos, mas os do Benfica pensam exatamente o mesmo e até os do Porto, apesar das vitórias, acreditam que um poder oculto favorece a capital.

Já agora, nem mesmo o sportinguista mais inveterado acreditará que sempre que não ganha a culpa é do árbitro, e esta época o saldo leonino até regista, pelo menos, equilíbrio entre benefício e prejuízo. Este discurso de guerrilha pode ainda ter dois tipos de efeito boomerang que BdC deveria acautelar. Por um lado, pode fazer acabar em frustração uma época que tem tudo para ser de afirmação. Não faz sentido insinuar que só fatores externos podem impedir o sucesso quando os adversários diretos têm argumentos incomparáveis. Depois, porque vão fatalmente ser desvalorizadas as próximas queixas de Bruno de Carvalho, que não tem medo de papões mas coloca o Sporting como vítima de lobos maus. Pode Bruno ficar como o Pedro da história: um dia terá mesmo razão, castigado por um erro de tomo que lhe levará um campeonato ou uma taça, e já ninguém o levará a sério.

Destaque
Pedro Rodríguez (Barcelona). Nunca será visto como um génio, mas tem momentos geniais. Exemplo perfeito de ambidestro, quase apetece dizer que tem dois pés direitos, soma-lhe a velocidade vertiginosa e uma invulgar tendência para o golo. É o extremo ideal, que tanto dribla por fora em busca da linha que permite servir o finalizador, como rasga em diagonal para ele próprio terminar a obra que ajudou a criar. Só num Barça de génios, como Messi, agora Neymar e sempre Iniesta e Xavi, se resumiria a ser actor secundário, o melhor deles tantas vezes. Quando faltam os protagonistas, surge e resolve, como no fantástico hat-trick em 9 minutos com que virou do avesso o jogo em Getafe, tornando-se, com 10 golos, no melhor goleador da equipa.

Descoberta
Riccardo Saponara (AC Milan). O toque de bola é como o algodão, não engana, que ela sai-lhe redonda de qualquer dos pés. Há jogadores que prenunciam classe até no modo como caminham e é esse o caso deste rapaz de 22 anos, que no dérbi frente ao Inter repartiu o meio-campo ofensivo com Kaká. O Milan perdeu o jogo, mas ganhou um jogador, em estreia a titular. Elegante, 1,84metros, é um "10" em potência, desses que aceleram o jogo mesmo sem correr muito, num simples passe luminoso. Ala de origem, Saponara tornou-se cérebro do Empoli na época passada, assumindo uma posição central que rendeu 13 golos e 15 assistências. O Milan não o deixou escapar e vale a pena segui-lo, que está aí um verdadeiro talento criativo, dos que têm rareado em Itália.

Fonte: Carlos Daniel @DN

2 comentários:

José Bagina disse...

Sobra berrar

Sentado no meu sofá, senti, quando o golo de Slimani foi anulado, o bafo quente de Jorge Nuno e Luís Filipe, no meu pescoço desprotegido. Não estou a dizer que, mancomunados, os presidentes do Porto e do Benfica convenceram Manuel Mota a permitir que o relvado de Alvalade fosse um campo de batalha na primeira parte do jogo e a exigir que se transformasse num salão de chá no momento em que o Sporting marcou um golo. Nem sequer sou dos que acham que o Sporting é sempre a vítima – ainda recentemente assistimos ao oposto. Mas tenho de verificar que parece haver uma relação quase automática entre a deterioração da qualidade de jogo do Benfica e do Porto e o aumento dos erros de arbitragem no campeonato. E, por isso, reconheço aos dirigentes do Sporting o direito à indignação.

Perante os protestos mais firmes de Bruno de Carvalho, o presidente da Associação Portuguesa de Árbitros exigiu uma punição exemplar. E eu exijo alguma vergonha na cara. Os árbitros, que até já boicotaram, há poucos anos, os jogos do Sporting, em defesa do seu bom-nome, têm sensibilidade selectiva e toleram bem melhor os ataques bastante regulares de Jorge Jesus. Se há coisa que o futebol nacional tem provado, é que há muita gente na arbitragem que nunca comete o erro de estar do lado errado do poder. E por isso reserva para as indignações sportinguistas os seus momentos de demonstração de testosterona.

Bem dizia Luís Filipe Vieira, há uns bons anos, que “são mais importantes os lugares na Liga do que os bons jogadores”. Como o Sporting não tem poder para ter lugares na Liga e não tem dinheiro para ter bons jogadores, resta-lhe bater-se pelas vitórias no campo e berrar pela justiça fora dele. A pressão que não pode exercer, na hora da verdade, nos corredores mal frequentados do futebol nacional, tem de exercer na praça pública. É por isso que, mesmo não gostando do espetáculo, tenho de reconhecer a Bruno de Carvalho o direito e o dever de dizer as coisas que diz. Quem não tem cão, caça com gato. Se até o Benfica, com os “lugares na Liga”, protesta, por que raio deveria o Sporting calar? Porque a associação de árbitros só se lembra que tem a dignidade de uma classe a defender quando o protesto vem de quem não manda no futebol nacional?
(Daniel Oliveira, Verde na Bola, in Record)

Rui Soares disse...

Domingo podes combinar com o Master do franchising do Lumiar, de quantas faltas seguidas é que dão direito a um golo. No ultimo fim de semana, duas faltas seguidas não foram suficientes.

É curioso, não o protesto por desta vez não terem sido mais uma vez beneficiados, mas sim o silencio da semana anterior por o arbitro ter assinalado um penalty, de uma carga de ombro fora de campo (de onde estou vejo-os a treinar os saltos para a piscina no baldio ao lado Lidl do Lumiar).

Temos 3 jogadores (Salvio, Ruben Amorim e Cardozo) no estaleiro, curiosamente, todos vitimas de entradas violentas em jogos contra os viscondes do Lumiar, que não sendo de espantar, além dos viscondes utilizarem jogadores de andebol (em formação para substituir o Danilo), de fazerem gravatas na pequena área, sempre que os viscondes fizeram entradas barbaras o arbitro virou a cara, pois ele é apenas apitador de futebol e não de artes marciais.

Erros das arbitragens, sim já os andamos a apregoar nas ultimas décadas e temos pagado por isso (ver imagens da Benfica TV que serviram para castigar o Enzo Perez). A grande diferença é que sempre criticamos a arbitragem (foram aplicados castigos a LFV, JJ, Rui Costa, etc, etc. Os árbitros erram e não são castigados, mas quem os critica é), criticamos porque temos sido prejudicados,ao contrario do sporting que critica a arbitragem apenas quando não é beneficiado.