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sexta-feira, janeiro 24, 2014

A guarnição comeu o bife

Carlos Daniel
Cristiano Ronaldo ganhou a Bola de Ouro. O Benfica vendeu Matic e Fejsa é o "Manel". E tenta não vender Rodrigo, que marca mais golos sem Cardozo e até marca mais golos que Cardozo, fora os penáltis. O FC Porto recuperou Ricardo Quaresma e o mustang já rende. E tenta não vender Jackson Martínez, que não para de render. Slimani também mostra serviço, na seca de Fredy Montero. O FC Porto ergue-se da pior derrota com um dos melhores jogos e prepara-se para viver sem Lucho, mais ano menos ano. E Lucho fez anos. Bruma lesionou-se. Quaresma pode sonhar mais com a seleção. Varela joga mais depois de chegar Quaresma. E há Rafa, que joga tanto mas parece que treina pouco. O Estoril continua bem, sobretudo bem treinado. Em Guimarães, Rui é sempre Vitória. O Arouca joga bem. O Paços de Ferreira esbraceja para sair do fosso onde os adeptos o enfiaram quando viam em Costinha a origem do mal. Em Olhão parece não haver salvação, nem em italiano.

E surgem os árbitros, fatalmente. Com o campeonato muito disputado entre os grandes, Pinto da Costa esquece-se de ter chamado estúpido a quem se queixa e atira-se a Artur Soares Dias, de quem historicamente tem poucas razões de queixa. E pelo caminho despacha dois putativos candidatos à sucessão, como António Oliveira e Fernando Gomes. Bruno de Carvalho, que é o presidente mais parecido com Pinto da Costa no discurso do contra tudo e contra todos, atribui ao rival do Norte um Óscar de representação. O mesmo Bruno de Carvalho que é capaz de saltar para o relvado de dedo em riste, quando se sente prejudicado. Luís Filipe Vieira, líder da prova e no luto pós-Eusébio, não se tem queixado, mas Jorge Jesus, noutros anos alheio ao assunto, já reclama por penáltis não assinalados. Paulo Fonseca, acossado pelos próprios adeptos, vê uma campanha contra ele e o FC Porto na comunicação social. Onde mais poderia ser?

Faz falta perceber que o essencial está sempre no campo, na qualidade do jogo, que resulta do bom treino, da crença numa ideia e de alma de um grupo verdadeiro. Fazem falta vozes como a do espanhol Lillo, que treinou, e marcou muito, Paulo Bento ou Domingos Paciência, personalidade pouco convencional, capaz de citar José Saramago e com pensamento profundo sobre o jogo e o jogar. Voltarei a ele, um destes dias, que hoje me interessa para título a frase magnífica com que ilustra o absurdo de jogos mais disputados à semana, na comunicação social, que ao sábado ou domingo na relva: "A guarnição comeu o bife."

Destaque
Samuel Eto"o (Chelsea). A prova de que os gatos têm várias vidas. Felino da área, nasceu para o grande futebol como aposta do Real Madrid, aposta adiada, ergueu-se depois a partir do calor de Maiorca. Seguiu-se Barcelona e o apogeu, Inter e a maturidade plena, depois o que parecia a reforma dourada no ex-milionário Anzhi da Rússia, a par de tratamento vip quando se desloca à seleção dos Camarões. Mourinho, que fez dele lateral de serviço num jogo famoso em Barcelona, chamou-o aos 32 anos para fazer o Chelsea ganhar outra vez. Mais um velho para um lar de idosos, pensaram muitos. O gato levantou-se de novo e arranhou três vezes em mais um jogo eterno frente ao Man United. Eto"o: a lenda africana continua.

Descoberta
Alberto Moreno (Sevilha). É o lateral esquerdo da moda em Espanha, já anunciado como prioridade do Real Madrid para a próxima época. E o lugar mais frágil da seleção mais forte deixou de o ser. O foguete Jordi Alba pode alternar com a locomotiva Moreno, e Del Bosque já percebeu isso. Robusto e rápido no seu 1,72m, defende com agressividade positiva e cresce tacticamente com Emery. A atacar, tem o que não se aprende: qualidade técnica, drible, cruzamento e remate, precisão no passe, capacidade atlética para ir e voltar. Em 2013 nasceu um grande lateral em Sevilha. O ano foi tão bom que Moreno diz que o vai tatuar. Se o futuro for o que prevejo, é bom que guarde espaço para novos tatoos, dos anos que se seguem.

Fonte: Carlos Daniel@DN

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Uma série de clássicos

Estamos a meio da época em que os principais candidatos apresentaram o anunciado melhor plantel dos últimos 30 anos - do Benfica - e o provável pior plantel dos últimos 30 anos - do FC Porto. Até agora, Jorge Jesus teve à disposição (e não terá mais, pelo que se sabe) o melhor plantel em muitos anos, enquanto Paulo Fonseca encontrou um balneário de qualidade inferior ao que (até ele) imaginaria. Aqui chegados, três pontos os separam.

Carlos Daniel
No clássico, o Benfica mostrou o que tem de melhor e o FC Porto não disfarçou o que tem de pior. Naturalmente, ganhou o Benfica. Paulo Fonseca insiste para lá do razoável no duplo pivô, que retira equilíbrio à equipa (flagrante como Fernando não pôde emendar a perda de bola de Lucho no primeiro golo), diminui a qualidade de construção inicial (foi muito fraca, com incrível número de perdas de bola) e deixa Jackson como um náufrago na ilha deserta. Carlos Eduardo, elogiado em excesso, apenas consegue disfarçar e em jogos de menor exigência. Lucho está transformado num problema sério, pelo menos neste sistema, que como médio-ofensivo não gosta de jogar e como segundo médio... já não pode.
O Benfica teve alma mas ganhou sobretudo por duas apostas táticas: no início, a pressão forte de Rodrigo e Lima (muito melhores nesse momento que Cardozo) com apoio de Enzo forçou o FC Porto a jogar como não gosta, em lançamentos longos e mais estendido no campo; em vantagem, o recuo das linhas - mantendo os extremos a bloquear os flancos e proibindo aos laterais as subidas de risco - permitiu aproveitar o talento e a velocidade de Gaitán, Markovic ou Rodrigo que se tornam demolidores se lhe dão espaço (e o FC Porto deu).

E assim se chega a meio da Liga com o Benfica na liderança, pela quarta vez em cinco anos (uma repartida), no que começa a ser clássico. Ao FC Porto resta, como nas duas épocas anteriores, outro clássico, retocar um plantel com lacunas evidentes apesar da fortuna (mal) gasta em Diego Reyes, Herrera, Quintero e Nabil Ghilas. Mas se com Lucho e Janko correu bem, com Izmailov e Liedson correu mal, e agora talvez não baste uma segunda juventude de Quaresma, que a base é mais fraca. No Benfica, o esforço em nome de um plantel de sonho só durou meia época. Mais valia ter vendido em agosto, evitando a oscilação a meio do percurso, mas na Luz este tipo de opção, entre vitórias e negócios, também já é um clássico.

Fonte: Carlos Daniel@DN

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Bruno e o lobo

Teve entrada de leão e o saldo é ainda claramente positivo, mas no comportamento público Bruno de Carvalho(BdC) tem de passar a ser mais do que um adepto fervoroso do Sporting. É que começou mesmo bem: limpou a casa, controlou os custos, forçou a banca a um entendimento, devolveu a esperança, aumentou receitas. E foi certeiro na decisão mais importante, escolheu um treinador - Leonardo Jardim - que reúne as três condições essenciais ao sucesso: conhecimento (percebeu-se a definição do plantel), competência (evidente na concretização em pouco tempo de um modelo de jogo eficaz) e coragem (nítida numa liderança firme mas discreta).

Carlos Daniel
Dir-se-á dele que tem os defeitos das próprias qualidades, que a mesma paixão do presidente mobilizador o transforma num chefe de claque deslocado e em momentos impróprios. A mensagem atrevida, de não vassalagem e até confrontação com os poderes existentes está assimilada, e já ninguém olha para o Sporting de BdC como o "coitadinho" do passado recente. Tem é de parar por aqui, a esse nível.

Bruno de Carvalho vai a tempo de estender ao comportamento público a maturidade exibida noutras decisões e não faltam razões que o recomendem, que nenhum clube é melhor que outro, apenas diferente, como ninguém é especial por ser adepto de um emblema, que até são todos muito parecidos. Os do Sporting estão convencidos de que foram os mais prejudicados dos últimos anos, mas os do Benfica pensam exatamente o mesmo e até os do Porto, apesar das vitórias, acreditam que um poder oculto favorece a capital.

Já agora, nem mesmo o sportinguista mais inveterado acreditará que sempre que não ganha a culpa é do árbitro, e esta época o saldo leonino até regista, pelo menos, equilíbrio entre benefício e prejuízo. Este discurso de guerrilha pode ainda ter dois tipos de efeito boomerang que BdC deveria acautelar. Por um lado, pode fazer acabar em frustração uma época que tem tudo para ser de afirmação. Não faz sentido insinuar que só fatores externos podem impedir o sucesso quando os adversários diretos têm argumentos incomparáveis. Depois, porque vão fatalmente ser desvalorizadas as próximas queixas de Bruno de Carvalho, que não tem medo de papões mas coloca o Sporting como vítima de lobos maus. Pode Bruno ficar como o Pedro da história: um dia terá mesmo razão, castigado por um erro de tomo que lhe levará um campeonato ou uma taça, e já ninguém o levará a sério.

Destaque
Pedro Rodríguez (Barcelona). Nunca será visto como um génio, mas tem momentos geniais. Exemplo perfeito de ambidestro, quase apetece dizer que tem dois pés direitos, soma-lhe a velocidade vertiginosa e uma invulgar tendência para o golo. É o extremo ideal, que tanto dribla por fora em busca da linha que permite servir o finalizador, como rasga em diagonal para ele próprio terminar a obra que ajudou a criar. Só num Barça de génios, como Messi, agora Neymar e sempre Iniesta e Xavi, se resumiria a ser actor secundário, o melhor deles tantas vezes. Quando faltam os protagonistas, surge e resolve, como no fantástico hat-trick em 9 minutos com que virou do avesso o jogo em Getafe, tornando-se, com 10 golos, no melhor goleador da equipa.

Descoberta
Riccardo Saponara (AC Milan). O toque de bola é como o algodão, não engana, que ela sai-lhe redonda de qualquer dos pés. Há jogadores que prenunciam classe até no modo como caminham e é esse o caso deste rapaz de 22 anos, que no dérbi frente ao Inter repartiu o meio-campo ofensivo com Kaká. O Milan perdeu o jogo, mas ganhou um jogador, em estreia a titular. Elegante, 1,84metros, é um "10" em potência, desses que aceleram o jogo mesmo sem correr muito, num simples passe luminoso. Ala de origem, Saponara tornou-se cérebro do Empoli na época passada, assumindo uma posição central que rendeu 13 golos e 15 assistências. O Milan não o deixou escapar e vale a pena segui-lo, que está aí um verdadeiro talento criativo, dos que têm rareado em Itália.

Fonte: Carlos Daniel @DN

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Não há coincidências

O Sporting segue firme, no seu jogo feito de equilíbrio e entrega. Perante o maior autocarro da época - o Paços que se apresentou em Alvalade, sem um único avançado -, os leões cumpriram a obrigação e Montero desmentiu os que, precipitada e erradamente, o viam como suplente de Slimani. São os mesmos que são mais de contabilizar golos do que de analisar jogo, em grande parte os mesmos que no Benfica endeusam Cardozo e ainda há duas semanas eram capazes de jurar que o Benfica não sabia jogar (e marcar, e ganhar) sem ele. No Sporting, Montero é muito mais do que um finalizador, que dele depende a dinâmica da equipa, na aproximação entre meio-campo e ataque e o Benfica sem Cardozo três vezes jogou e três vezes ganhou (com sete golos marcados) e ainda recuperou Lima e Rodrigo.

Nos encarnados, a inclusão de um terceiro médio é mais determinante do que o nome do ponta de lança titular, por muito que Jorge Jesus tente provar-nos (e se calhar a ele próprio) que o 4x3x3 não é o melhor sistema. Sendo certo que não há sistemas bons e maus antes de contrastados com as características dos jogadores, também já não há dúvidas de que é com três médios que o Benfica está mais perto de ganhar. É que não há coincidências.

No FC Porto, e à falta de outros argumentos, repetem-se coisas vagas como "Paulo Fonseca não ter mãos para o Ferrari" ou "não conhece a cultura de clube". Octávio conhecia melhor que ninguém a cultura do clube e deu no que deu. E chamar Ferrari ao atual plantel do FC Porto só por grande bondade ou ingenuidade.

De Fernando para à frente, apenas Lucho (apesar da veterania) e Jackson (uma vítima da época) são jogadores de topo. Os demais nunca foram ou apenas serão, u
m dia. Claro que se Danilo marcava o penálti que Capela inventou, tudo pareceria estar bem. Como falhou, repetiu-se o filme visto há dois anos, após uma outra derrota na mesma Coimbra, mas para a taça: treinador saiu do estádio acompanhado do presidente e teve à espera uma receção hostil no Dragão.
Carlos Daniel

Diz-se que a época do FC Porto (que valeu o primeiro título com Vítor Pereira) mudou nesse dia, porque o treinador sentiu que a SAD estava com ele e os jogadores perceberam que a claque que os idolatra é a mesma que os pode julgar sem misericórdia. Não acredito que se ganhe ou deixe de ganhar graças àquela cena de descontentamento repetida mas, definitivamente, não há coincidências.



Destaque - Robben (Bayern)

Podia ser Bale, por um show de bola que prova como se enganaram os que lhe vaticinavam fracasso em Madrid, mas eu não resisto a Robben. Há os grandes jogadores, os extraordinários, e depois há Robben, um capítulo à parte. Tem o futebol de rua que renuncia às linhas retas para avançar, o improviso que faz implodir estratégias, e vive no reino do drible, de onde desce semanalmente para nos mostrar que eficácia e arte podem dar-se bem. Os dois golos ao Braunschweig foram duas pérolas e tornaram-no no quarto goleador mais eficaz de sempre na Alemanha. Não lhe peçam para ser mais um numa linha de montagem. Ele é o misto de mestre pasteleiro e criador de moda, que coloca a cereja no bolo mas sempre com estilo



Descoberta - Alfred Finnbogason (Heerenveen)

Pode dizer-se que há sempre quem marque muitos golos na Holanda, mas 14 em 11 jogos têm de ser mais do que um acaso (e marcou 24 na época passada). Ter Van Basten como treinador ajudou este islandês de 24 anos, mas ele também tem salvo a carreira de banco do cisne de Utrecht. Jogador de área com mobilidade, como o mestre, Finnbogason até pode jogar a partir da ala (esquerda) e assim tem sido na seleção. Com Djuricic fez uma boa dupla mas não parou de marcar. Mais objetivo do que tecnicista, impressiona pela facilidade com que se desmarca, e surge nas costas da defesa ou lhes ganha a frente em antecipação. Conhece cada vez melhor a vida na área e exibe o sangue-frio de quem nasceu para encarar a baliza.



Fonte: Carlos Daniel @Diário de Noticias

quinta-feira, setembro 26, 2013

Jesus quis mudar o mundo

A meio de um programa de debate de futebol, depois de discutirem longamente treinadores e administradores que agridem ou talvez não, apresentador e comentadores concordam felizes: vamos falar de futebol finalmente, e a pergunta seguinte surge de imediato: quem foi mais prejudicado no jogo xis? 

"Fui eu, fomos nós, não foram nada, como consegue dizer isso com esse ar sério?", e depois sorriem, soltam a gargalhada falsa e irónica, por entre mais um "não é possível", como se negar a evidência em televisão fosse já uma arte. Futebol em Portugal é muito isto, quase nada de jogadores, tudo de bastidores.

Os treinadores entraram na dança: Jorge Jesus disse antes dos jogos que os rivais eram favorecidos e Paulo Fonseca respondeu depois das partidas que, com o que disse, Jesus ganhou em três campos. Logo Jesus a ganhar por falar, ele que tem tão pouca habilidade com as palavras. É da tradição: aos primeiros pontos perdidos, a culpa é dos árbitros. Claro que alguns, como Rui Silva ou Carlos Xistra, só ajudam à festa mas são o alvo fácil neste reino do "quem não chora não mama".

Leonardo Jardim, que recusou queixar-se, faz lembrar o soldado que marcha ao contrário de todo o pelotão. Chega a dizer que o seu clube está entre os... habitualmente beneficiados. Está ele certo ou estão os outros? Pelo sim pelo não, falem menos e treinem mais, sugeriu o presidente de Leonardo, logo a seguir.

O resto foi ainda mais fantasmagórico. Jorge Jesus perdeu a cabeça depois de ter ganho (!) e anda pelo campo no meio de adeptos e polícias, a querer mudar o mundo com palmadas e puxões. A intenção inicial podia ser a melhor mas o espectáculo foi deprimente e já não é o primeiro caso. Um administrador do FC Porto, também reincidente em cenas pouco louváveis, reagiu agressivamente ao festejo de um golo do Estoril por parte de um dirigente associativo de Lisboa. Jovem dirigente, benfiquista, logo lhe chamou um velho dirigente, portista.

Nas declarações posteriores ao caso, Lourenço Pinto e Nuno Lobo prestaram um péssimo serviço e às associações que dirigem e aceitaram colocar-se como correias de transmissão (a expressão era outra mas vou conter-me) no terreno minado de uma estúpida guerra entre dois clubes e que tão mal faz ao futebol. É a tempestade perfeita. 

Meu caro e saudoso Vítor Correia, a sua frase histórica está desatualizada: já é a bicicleta que anda de porco.


-Carlos Daniel, Diário de Noticias

sábado, setembro 14, 2013

A verdade e o verdadeiro

Recuso entrar na comparação para ter de concluir quem foi melhor, se Eusébio ou Cristiano Ronaldo. Só a distância (temporal) a que a história obriga nos mostrará quem chegou mais alto. O maior elogio a fazer já ao CR7 é o de nos deixar na dúvida sobre se o trono ainda é do King, questão que tantos julgavam nunca se colocar. São épocas diferentes, tempos tácitos diversos, preparação distinta, bolas, equipamentos e relvados incomparáveis, alterações de lei, equipas de clube e selecções como antes não havia. Nuns casos a evolução favorece um, noutros o outro.

Claro que a memória colectiva favorece os jogadores mais recentes, Lionel Messi face a Diego Maradona, Zinedine Zidane a Michel Platini, Cristiano Ronaldo a Eusébio. Filmados melhor, de vários ângulos e vistos a fazer magia em semanas consecutivas, ganham facilmente vantagem nas nossas análises. Terá Johan Cruijff sido melhor do que Di Stéfano? Muitos juram que não, mas na televisão parece, que é mais agradável rever a laranja mecânica a cores do que ir buscar os vídeos que o tempo fez mais pretos do que brancos do tempo do hispano-argentino.

Há uma injustiça, essa objectiva, cometida com Eusébio, que foi também um erro do jornalismo desportivo, acabando por ter de ser o próprio a lembrar, no que espero não origine um dispensável atrito com Ronaldo.

Como não basta dizer que a economia está a crescer sem comparar com anos anteriores, ou que agora se vendem mais carros do que no ano passado quando não se vendia nada, também não chega dizer que Ronaldo tem mais dois golos do que Eusébio na selecção. É obrigatório referir também que o CR7 fez mais 42 jogos do que Eusébio. Nem é uma questão de respeito por Eusébio apenas, mas de respeito pela verdade, que é o primeiro dever de um jornalista. E aprendi cedo que neste ofício das notícias não basta contar os factos com verdade, deve procurar-se a verdade dos factos.

Quem foi melhor, quem é melhor hoje, Ronaldo outra vez no debate, frente a Messi? A cada um sua verdade, mas com uma premissa indiscutível: Portugal tem actualmente, e já vai para dez anos, um jogador estratosférico. Vi todos os grandes jogadores dos últimos 40 anos, Luís Figo, Rui Costa, João Pinto, ainda Paulo Futre e Fernando Chalana. Português, não vi nenhum como Cristiano Ronaldo, este, o verdadeiro. E estrangeiros só dois ou três, incluindo Zidane. E o outro Ronaldo, o primeiro.

Fonte: Carlos Daniel in DN

quinta-feira, agosto 22, 2013

Lavar as mãos já não é possível


O título desta crónica remete para a cena bíblica em que a multidão delirante, juntando servos e juízes, pedia a crucificação de Jesus.

Este outro Jesus, Jorge, é o alvo de uma esmagadora maioria que ainda há três meses reclamava uma renovação forever que dele fizesse o Ferguson da Luz. E sem que surja uma voz da estrutura benfiquista que o defenda.

Já agora, teria de ser (de ter sido já) o presidente Luís Filipe Vieira, por ter sido quem insistiu na continuidade do técnico português e por, aparentemente, não haver mais ninguém na estrutura, que António Carraça desapareceu sem rasto depois de Rui Costa ter desaparecido com algum rasto.

Jorge Jesus cometeu erros, vários, por teimosia sobretudo, foi mesmo o principal responsável pelas derrotas finais da época anterior, mas há uma culpa que não tem de certeza: a de lhe terem renovado o contrato. Era evidente a sensação de fim de ciclo que a triste cena de Oscar Cardozo no Jamor ilustrou. (A propósito, o Benfica tinha acabado de falhar três objetivos em quatro jogos decisivos - Estoril, Dragão, Amsterdão e final da Taça de Portugal - no ano em que contratou a peso de ouro um "motivador". Pode ter méritos o cidadão, mas a motivação valeu, na prática, zero).

A gestão do dossiê Oscar Cardozo foi desastrosamente lenta (ainda não resolvida!), com notícias de jornal que são um nítido jogo de passa-culpas para o treinador. Se corresse mal, iam crucificá-lo. Já falta pouco. 

Foi, no entanto e apenas, o caso emblemático de uma pré--época feita de negócios de ocasião (Fariña e Pizzi, dois bons jogadores, só visitaram a Portela de Sacavém) e falta de critério (defesas-centrais e médios ofensivos a mais, sem mais um grande médio-centro que permitisse rotação com Enzo Pérez e Matic e eventual substituição deste, em caso de venda).

Os que só veem a árvore carregam sobre Cortez e consideram--no mais fraco que Melgarejo ou... Emerson. Perdoa-lhes Cortez, que não sabem o que dizem. O problema é que quando o coletivo não dá vitórias, o óbvio é encontrar o réu mais à mão: Roberto, Emerson, Artur, Carlos Martins, agora Cortez. E crucificá-lo. Segue-se Jesus, ele próprio.

O presidente do Benfica está num dilema: sabe que não faz sentido dispensar já o homem a quem renovou o contrato, mas também sabe que mais um resultado negativo o obriga a atuar. Delegar para cima ou para baixo? A escolha é só essa. Lavar as mãos já não é possível.

Fonte: Carlos Daniel @Diário de Noticias