sexta-feira, janeiro 12, 2018

Narcos 2018

Foi um dos casos mais graves da minha carreira e afectou a nossa unidade para sempre. Estávamos em Janeiro de 2018, escassos dias após a publicação em Diário da República do despacho nº 11391/2017, que limitava a venda de produtos prejudiciais à saúde em bares e cafetarias de instituições do Ministério da Saúde. Salgados, pastelaria, charcutaria e refrigerantes tinham sido banidos desses espaços, para estimular hábitos de alimentação saudáveis. Eu, Javier Peña, e o meu colega Steve Murphy, fomos enviados pela DEA americana para ajudar Portugal na luta contra os fritos e as gorduras saturadas. A nossa primeira missão, que seria também a última, foi vigiar a cantina do Hospital de Santa Maria. À primeira vista, estava tudo bem: a cantina vendia apenas frutas, legumes e vários produtos desenxabidos. Mas os frequentadores do hospital pareciam manter uma certa felicidade bastante suspeita, e o Ministério mandou investigar. No princípio, não demos por ele. João Diogo Dias vinha visitar uma tia, operada a uma hérnia. De repente, na ala em que a tia estava internada, os outros doentes começaram a ficar mais alegres. Riam alto, conversavam, não tinham qualquer intenção de impingir uns aos outros receitas de batidos verdes. Era óbvio que não estavam a seguir uma alimentação saudável. O Murphy ofereceu-se para se infiltrar à paisana e descobriu tudo. Dias depois, João Dias estava sentado à minha frente na sala de interrogatórios, depois de ter sido apanhado na posse de um tupperware com 10 croquetes, cinco rissóis e três empadas.

– Sr. Dias – disse eu –, sabe qual é a pena para quem trafica salgadinhos?

João Dias não respondeu.

– Isto mata, sr. Dias. Os seus são especialmente perigosos, porque são caseiros.

– Não é tráfico, eu trouxe-os para a minha tia. Os outros doentes pediram-me e eu ofereci.

– Sabemos como isto funciona, sr. Dias. Os primeiros são oferecidos, até os clientes ficarem agarrados ao rissol. O meu colega, que se infiltrou à paisana, e a quem ofereceu dois croquetes, está neste momento a fazer análises. O colesterol dele subiu dois pontos. Dois pontos, sr. Dias. E está perdido. Não creio que possa voltar a trabalhar. Quando o levaram para a clínica, gritava “Deixem-me só provar as chamuças!”, e também “Aquilo deve ir bem é com uma imperial fresquinha!” Ele nem sequer é português, sr. Dias.

– Eu só queria animar a minha tia. Ela gosta de croquetes.

– O problema é que isto não é um produto inofensivo que possa ser usado para fins médicos, como a marijuana.

– Se eu tivesse marijuana no tupperware deixavam-me ir?

– Claro. Estamos inclusivamente a estudar uma proposta de legalização. Isto dos croquetes é que é muito nocivo. Mas nós não estamos interessados em si, sr. Dias. Sabemos que é apenas o correio. Se nos disser quem produz estes croquetes, não o acusaremos. O nosso laboratório diz que os seus croquetes são dos mais puros que eles já viram: carne a sério, refogado puxadinho, pedaços de chouriço. Quem os fez sabia o que estava a fazer.

– Mas desde quando é que os croquetes são proibidos?

– Desde Dezembro. Tem de estar mais atento aos despachos do Ministério da Saúde. Vamos, sr. Dias. Só precisamos de um nome.

Fez-se um silêncio. Finalmente, o homem quebrou:

– Clotilde Dias.

– Quem é?

– A minha avozinha.

– Devíamos ter adivinhado. São sempre elas. Essa geração está perdida.




Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

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