sábado, maio 13, 2017

De chorar pelos dois

Como poderá não parecer absurdamente desproporcionada a reação do presidente do Sporting ao desaire matinal frente ao Belenenses no último domingo? Trata-se de um desrespeito pelo Belenenses, um histórico que apenas se atreveu a ir roubar pontos a Alvalade tal como muitos outros emblemas se atreveram ao longo desta temporada. 

O que o Belenenses cometeu há uma semana não foi, propriamente, uma proeza nem, muito menos, uma novidade. Nesta Liga de 2016/2017 também se viu o Sp. Braga vencer em Alvalade e ainda se viu o Tondela, o V. Guimarães e o próprio Carnide saírem do reduto leonino com empates averbados. 

No domingo, o Sporting atingiu, prosaicamente, o número de 12 pontos perdidos em casa, sendo que os primeiros 9 não foram suficientes para provocar a expressão pública dos sentimentos de "depressão" no presidente. 

Nem a eliminação na fase de grupos da Liga dos Campeões nem a exclusão da Liga Europa face ao intratável Légia de Varsóvia nem o afastamento da Taça de Portugal na discussão com o Chaves nem a saída da Taça da Liga a expensas do V. Setúbal nem o desaire no Dragão, na Liga, logo assumido nas calmas como a despedida da luta pelo título – em fevereiro! – tiveram o condão de provocar o anúncio de uma condição mental do presidente que fosse, ainda que vagamente, "deprimente". Teve de ser o Belenenses! 

Que mal fez o Belenenses para merecer tamanha desconsideração? Na realidade, não fez mal algum. Calhou ser o Belenenses o instrumento da emancipação do presidente na relação com o treinador que contratou há dois anos e a quem confiou o encargo de lhe garantir uma dúzia de voltas olímpicas por ano. 

Porém, nesta época, Jorge Jesus só proporcionou duas pindéricas voltas olímpicas ao seu presidente: a primeira – e penúltima – no culminar de uma goleada sobre o Praiense e a segunda – e última – aconteceu no palco do Restelo por ocasião de uma vitória tangencial na casa do Belenenses. 

O problema é, portanto, o treinador. Como explicou o presidente, pouco lhe interessa "o caudal ofensivo da equipa", o atributo mais incensado dos conjuntos trabalhados por Jorge Jesus, se a equipa lhe estraga as festividades amadoras do Dia da Mãe. 

Resta saber se a Jorge Jesus, um profissional, continua a interessar ver-se num projeto em que um jogo oficial é fornecido ao público como uma formalidade de programa a cumprir entre a inauguração dos 456 metros do "maior cachecol verde e branco do mundo" e uma "feijoada" de confraternização. 

É de chorar, não é mister? De chorar pelos dois. 



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Singularidades da comunicação 
O Benfica lida melhor com os insultos do que lida com elogios 
Os adversários, estranhamente, ainda não perceberam que o Benfica lida muito melhor com discursos de menorização e com insultos do que lida com elogios. 

Foi assim no ano passado quando o amesquinhamento da figura de Rui Vitória atingiu um patamar próximo do indecoroso e a equipa acordou unindo-se em torno do seu treinador no rumo do título. 

Como exemplo do contrário, vimos esta época o Benfica cair subitamente de produção a meio de janeiro depois de duas vitórias consecutivas em Guimarães que motivaram um coro de louvores tão rendidos que, num instantinho, se viu o campeão a perder pontos disparatadamente para o Boavista e para o Vitória de Setúbal. 

Por tudo isto – e numa semana que convidaria a exageros de otimismo no líder – terão sido bem-vindas à Luz as desconsiderações non-stop produzidas pela comunicação portista no que respeita ao desmerecimento da liderança e ao caráter assassino do doutor Jonas e dos seus demais colegas de colónia penal. Em cheio.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

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