quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Primeiro como farsa e depois como tragédia ridícula

É um dos momentos mais famosos do filme Duck Soup: Chico Marx desmente que determinado acontecimento tenha ocorrido. Uma senhora diz: “Mas eu vi com os meus próprios olhos…” Chico pergunta: “Bem, em quem é que vai acreditar: em mim ou nos seus próprios olhos?” Um outro Marx disse que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. No entanto, ao que parece, as coisas acontecem pela ordem inversa. Esta semana, o porta-voz da Casa Branca afirmou que a tomada de posse de Donald Trump tinha tido a maior assistência de sempre. Colocado perante um conjunto de documentos, números oficiais, fotografias e testemunhos oculares que o contradiziam, não disse, mas podia ter dito: “Sim, mas em quem é que vão acreditar: em mim ou nos vossos próprios olhos?” Começa a ficar claro que Trump vai ser o melhor presidente do mundo, sobretudo porque tem o seu próprio mundo. São boas notícias para quem temia que ele pudesse dar cabo do planeta: afinal, ele vive noutro. O nosso, em princípio, está fora do seu alcance.

Para um português, há qualquer coisa de estranhamente familiar num chefe de governo colérico, que suspeita de conspirações da comunicação social e é extremamente sensível às críticas. Trump e Sócrates têm, aliás, mais em comum do que parece. Ninguém sabe quanto dinheiro têm ao certo, uma vez que são ambos relutantes quanto a revelar o seu historial financeiro, mas suspeita-se que sejam ambos milionários. Trump irrita-se quando Meryl Streep o critica e Alec Baldwin o imita; Sócrates processava colunistas que o comparavam a Cicciolina. Trump considera que a CNN é um canal de notícias falsas, que é a versão americana da frase “o Jornal de Sexta é um telejornal travestido.” Um e outro gostam de mandar bocas aos adversários na internet, embora Sócrates o faça por interpostos bloggers. Tanto o presidente americano como Sócrates beneficiaram de empréstimos avultados, embora o pai de Trump não tenha sido tão generoso com o filho como Carlos Santos Silva foi com o amigo. Trump detinha uma universidade fraudulenta; Sócrates licenciou-se a um domingo. Trump foi escutado a ser desagradável com mulheres; Sócrates também. São quase almas gémeas.

Numa carta a Pope, Jonathan Swift escreveu que, ao contrário do que se costuma pensar, a vida não é uma farsa. É uma tragédia ridícula, que é o pior tipo de composição. Se a tragédia dos americanos for tão ridícula como a nossa, a Sorbonne que se vá preparando para receber mais um aluno ilustre.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão


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