sábado, fevereiro 11, 2017

Nós também, Bas Dost!

Que fique claro que a culpa é nossa. Do cidadão comum, do adepto comum e do jornalista comum. E também dos jogadores comuns como Bas Dost, que pôs o dedo na ferida com uma frase humilde, um raro momento confessional só ao alcance de um desportista de eleição. Proferiu o holandês uma grande verdade no que lhe diz respeito e no que, inegavelmente, diz respeito a 9 milhões de portugueses do continente e das ilhas e a mais uns quantos milhões espalhados pelo Mundo: "Entendo 20 a 30% do que Jorge Jesus diz." Nós também, Bas Dost! 

E, ao contrário de ti, que és um estrangeiro calmeirão e simpático mal acabado de chegar desses países baixos, nós, que somos portugueses de gema desde que nascemos, também só entendemos 40 a 50% do que diz o teu treinador, que é tão português como o resto do pessoal nativo mas que, por capricho, teima em expressar-se de modo a obrigar constantemente o diretor de comunicação do seu patronato a vir traduzir por miúdos a verdadeira essência do seu fulgor retórico. 

É incrível como, num país que retira ‘Os Lusíadas’ dos currículos escolares porque a nossa juventude estudantil já não consegue atinar com o português do século XVI, sermos agora confrontados com a triste notícia da inépcia geral da nossa população perante o português do século XXI tão críptico, ao que parece, como o do poeta maior da Pátria, morto e enterrado há bué. Leitores, perceberam o ‘bué’? Ótimo, nem tudo está perdido… 

Tudo isto a propósito, como já terão suspeitado, da péssima interpretação que foi dada – por ignorância ou por pura malícia – às palavras de Jorge Jesus mal acabou o FC Porto-Sporting . Cabe na cabeça de alguém minimamente fluente na nossa língua concluir que o treinador do Sporting quis, de algum modo, atribuir as culpas da derrota a um tal João Palhinha ou que quis, também de algum modo, estabelecer comparações cruéis entre os desempenhos de Casillas e de Patrício na noite do Dragão ou que quis, do mesmo modo, desembaraçar-se de qualquer tipo de responsabilidade em mais um insucesso evocando as fatais – e tão camonianas – maravilhas da ‘formação’ esforçadamente levada a cabo em Alcochete? 

Não, Bas Dost, não és só tu que tens dificuldade em compreender a 40% as palavras do míster. Nós também só atingimos pouco mais de metade e isto nos dias bons. Bem fez o assessor de comunicação do Sporting em retirar o treinador da flash-interview quando este se aprestava a mais uma estrofe sobre os seus valorosos e esforçados jogadores perante a perplexidade do pobre entrevistador. "Saia já daqui que isto é dar pérolas a porcos!" E foi isso mesmo que o míster fez, em nome do bom senso e da literacia nacional. 


Até veio a galinha preta a que Peseiro não teve direito. 
De todas as equipas nacionais que já venceram o Sporting nesta temporada, foi o Sporting de Braga que terá produzido a exibição mais autoritária durante os 90 minutos de jogo. Aconteceu em Alvalade poucos dias depois de José Peseiro ter sido despedido. Foi Abel Ferreira, treinador do Braga B, quem dirigiu interina e brilhantemente as hostes nesse compromisso entregando a Jorge Simão a equipa isolada no terceiro lugar da Liga. Simão, vindo de Chaves onde fazia excelente trabalho, não conseguiu nem manter nem reocupar essa posição apetitosa, e muitas têm sido as hipóteses falhadas pelo seu Braga para chegar ao pódio. A última foi na segunda-feira no jogo com o Estoril, que terminou empatado na Pedreira. O que tem faltado a este Braga persiste em ser um mistério ou uma maldição que nem a galinha preta atirada para o relvado conseguiu solucionar. Peseiro não teve direito à galinha, mas não pode deixar de se sentir, finalmente, justiçado pelas tais forças do além… 


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha



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