segunda-feira, janeiro 30, 2017

‘Mais-valia’ estar calado

Domingos Soares de Oliveira afirmou em setembro que o Benfica não precisaria de vender jogadores em janeiro. Referia-se, obviamente, o administrador da SAD do Benfica a este preciso mês de janeiro que estamos a viver. O voto do homem das finanças da Luz – noutros tempos chamava-se ‘tesoureiro’ – não deixa de ser auspicioso em função das últimas notícias. Mesmo não precisando de vender, como foi garantido, a realidade é que o Benfica vendeu Gonçalo Guedes ao PSG por 30 milhões de euros e é bem provável que até dia 31, quando encerrar o mercado de inverno, o Benfica ainda venda mais um ou dois ‘ativos’, que é como se chama agora aos jogadores de futebol cuja atividade promete render bom dinheiro. Antes assim que chamar-lhes erradamente de ‘mais-valias’ o que, economicamente falando, é a diferença entre o valor final da mercadoria e o custo da sua produção. 

Tomando ainda o exemplo de Gonçalo Guedes, a sua mais-valia obtém-se subtraindo aos 30 milhões de euros que os franceses vão dar por ele o valor investido pelo Benfica na sua formação. É uma pipa de massa. Esta é a regra do sucesso da fábrica de produtos do Seixal e de qualquer outra empresa de qualquer ramo, da produção de calçado à comercialização de tremoços. Os adeptos do Benfica, tal como os adeptos dos outros clubes por norma vendedores, vibram com estes encaixes astronómicos que se vão fazendo porque já tomaram consciência da posição negocial do futebol português no Mundo. Não adianta chorar, elaborar abaixo-assinados contra a venda de tudo e de todos que demonstrem um talento invulgar. 

Há uma frase que já entrou no nosso futebolês e que resume a resignação das bancadas. "Este não fica cá muito tempo", dizem os adeptos sempre que vêm um jogador produzir um certo número de habilidades. É o caso, por exemplo, de Zivkovic, a mais recente coqueluche do Terceiro Anel se o Terceiro Anel ainda existisse. Entra pelos olhos dentro que este sérvio de 20 anos vai cumprir uma passagem meteórica pela Liga portuguesa. Os adeptos conformam-se com estes ditames do capital e fazem o possível por usufruir enquanto podem do brilho destas aves raras. Gonçalo Guedes ainda não tinha convencido uma fatia significativa dos adeptos do Benfica da sua ‘raridade’ e já está em Paris a partilhar o balneário com Di María e outros que tais. É a vida, explicou Rui Vitória a quem ainda precisa de explicações. Que escusada foi, portanto, a garantia dada por Soares de Oliveira no fim do verão passado. O Benfica não precisa de vender em janeiro, mas vendeu. Mais-valia estar calado. 

Não havia maior risco do que entregar Markovic a Marco Silva 
O Sporting desfez-se esta semana de Markovic, subcontratado em agosto como resposta ao desvio de Carrillo para a Luz. Não houve em Alvalade "reforço" mais saudado e mais bem recebido. Compreende-se. Depois de brilhar de águia ao peito, Markovic partiu para Liverpool deixando juras de amor eterno ao Benfica e o seu ingresso no rival provocou enorme angústia prática entre os benfiquistas. E se pega? Mas não pegou. 

Na sua dupla passagem pelo futebol português, o único golo que fez em Alvalade continua a ser aquele que assinou pelo Benfica depois de um slalom gigante com que destroçou a linha defensiva do seu futuro-ex-emblema. Vai agora Markovic para o Hull City. "Marco Silva convenceu-me a vir", disse assim que aterrou em Inglaterra. De todos os clubes do planeta para onde o Sporting poderia despachar Markovic não haveria, do ponto de vista político, pior solução nem maior risco do que despachá-lo para o atual clube do ex-treinador do Sporting. E agora? E se explode?


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha


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