quinta-feira, janeiro 12, 2017

E-Grilhetas

No passado dia 1 de Janeiro entrou em vigor em França uma esquisita lei conhecida pelo nome de "direito de se desconectar", que determina que um trabalhador tem o direito de ignorar contactos telefónicos ou de correio electrónico relacionados com trabalho quando está de folga. Ou seja, a lei diz que, quando um trabalhador está sossegado em casa, ele tem o direito de estar sossegado em casa. Ainda não decidi se estou orgulhoso por, em 2017, sociedades como a nossa garantirem aos trabalhadores o direito a não trabalharem na folga, ou se estou humilhado por, em 2017, sociedades como a nossa ainda precisarem de garantir aos trabalhadores o direito a não trabalharem na folga. Há 30 anos, talvez fosse impensável que um patrão batesse à porta de um trabalhador às oito e meia da noite, lhe interrompesse o jantar e pedisse para analisar um relatório. Agora, no entanto, segundo o que esta lei deixa entender, era possível. Houve duas ou três mudanças que transformaram o impensável em possível: primeiro, deixou de haver patrões.

Há ci i âus (pessoas que se fazem designar em estrangeiro pela sigla CEO). E também deixou de haver trabalhadores. De acordo com a retórica da Igreja Universal do Reino do Empreendedorismo, os antigos trabalhadores são hoje comerciantes de um produto. Esse produto são eles mesmos. São comerciantes e produto ao mesmo tempo. É capaz de ser a pior combinação possível, porque a diferença entre um trabalhador e um comerciante é que o trabalhador tem um patrão e o comerciante tem clientes. E a diferença entre um patrão e um cliente é que o cliente tem sempre razão.

Além disso, apareceram inovações tecnológicas que, aliás, são óptimas. Facilitaram muito a nossa vida. Infelizmente, também há uma diferença importante entre apreciar as vantagens da tecnologia e deslumbrar-se saloiamente com a tecnologia, porque só este último estado de espírito leva à conclusão de que qualquer absurdo é legítimo, contanto que seja praticado através de um smartphone. Todas juntas, estas mudanças produziram um ambiente em que é natural que um ci i âu ache estranho não poder dispor dos seus produtos a qualquer hora do dia ou da noite. Uma coisa é a luta de classes, outra são os direitos do consumidor.

É possível que a DECO francesa consiga reverter esta lei.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão 

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