domingo, janeiro 08, 2017

2017 é um mito urbano

Diz-se que, numa das primeiras exibições dos filmes dos irmãos Lumière, os espectadores fugiram da sala em pânico, temendo que o comboio que viam a aproximar-se na pantalha os abalroasse. Hoje, talvez as plateias precisem de instruções para perceber o oposto: que o mundo não é como parece no cinema. No início do século XX, as pessoas pensavam que as coisas dos filmes eram tão reais como as da vida; no início do século XXI, pensam que as coisas da vida real são a fingir, como nos filmes. Talvez isso explique que o mundo pareça ultimamente um mito urbano. Se calhar, fomos tomando decisões com a disposição de quem pensa que a vida se pode rebobinar. Que Trump e Putin presidam aos EUA e à Rússia é tão plausível como a carta do príncipe da Nigéria que precisa da nossa ajuda para uma operação financeira que nos vai render milhões. Há uma sensação de fim do mundo que, sinceramente, me deixa um pouco desiludido. Pensei que fosse melhor. Esperava uma onda de libertinagem bastante intensa que, afinal, não se verifica. Se é para esta pasmaceira, não vale a pena o mundo acabar. O livro do Apocalipse não ajuda a compreender o momento, na medida em que fala do aparecimento de uma besta e eu vejo várias, e refere a existência de uma grande prostituta da Babilónia que, com pena minha, não apareceu. “Os habitantes da Terra se embriagaram com o vinho da fornicação”, diz a Bíblia – e, no entanto, todos os dias, nas melhores garrafeiras, garantem-me que ainda não chegou nada.

Não parece haver dúvidas de que o mundo se aproxima do fim. Portugal foi campeão da Europa de futebol. Morreram George Michael, Fidel Castro, Leonard Cohen, Prince, Gene Wilder, Muhammad Ali, David Bowie, Shimon Peres e Zsa Zsa Gabor – que eu pensava que já tinha morrido há anos, pelo que acolhi a notícia do seu passamento com a tristeza que se deve a um defunto, mas ao mesmo tempo com a alegria de constatar que ela teve uma vida mais longa do que eu imaginava. O falecimento de todas estas estrelas mundiais parece ser o equivalente à classe executiva do fim do mundo: primeiro vão os VIP e as pessoas normais seguem pouco depois, todas ao molho, em turística. As adegas que se apressem a lançar o vinho da fornicação, porque já não temos muito tempo e eu quero degustar isso.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão 

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