sexta-feira, novembro 11, 2016

O tom ufano

Tinha planeado escrever esta semana sobre o livro O Dom Profano mas, por motivos alheios à minha vontade (designadamente, o facto de a obra ser mesmo chata), não me foi possível concluir a leitura. Posso apenas, baseado no pouco que li, resumir em duas ou três palavras o espírito do livro: para José Sócrates, o carisma é um conceito que realmente se reveste de certos aspectos, sobretudo na medida em que. Em traços gerais, é isto. Apesar do que fica dito, dediquei alguma atenção ao livro, e estou preparado para fazer uma recensão crítica bastante profunda da capa, da contracapa, da badana e da dedicatória, que aliás se lêem muito bem.

Em primeiro lugar, deve assinalar-se o seguinte: o livro é cinzento. Um tom suave e agradável, que foi bem escolhido. As obras deste autor costumam ser consumidas em grandes quantidades, pelo que é ajuizado escolher uma cor que combine com vários estilos de decoração de interiores. Uma estante com duzentas ou trezentas lombadas de O Dom Profano contribuirá para criar em sua casa um recanto com um ambiente descontraído mas elegante, sofisticado mas acolhedor, como só o cinzento consegue proporcionar.

Não pode deixar de se referir, também, que esta é uma obra ousada, que contém afirmações arrojadas e contrárias ao senso comum. Por exemplo, a badana indica que, e cito, José Sócrates “é licenciado em Engenharia Civil”. E acrescenta que “é autor do livro A Confiança no Mundo”. Declarações polémicas que abrem o apetite para a tese propriamente dita, sugerindo que também ela poderá estar cheia de revelações como estas, que nos fazem questionar as nossas convicções. Ainda na badana, deve salientar-se a fotografia do autor que, sentado confortavelmente, sorri, descontraído, de colarinho aberto, mirando um ponto ao lado da câmara, com uma mão esquecida ao lado de uma das orelhas. Trata-se de uma foto que diz: “Carisma é isto. Estou aqui todo pimpão, em mangas de camisa, e sem olhar para vocês, mortais desprovidos de qualquer espécie de magnetismo. Já reflecti maduramente sobre grandes temas da filosofia política e agora encontro-me a relaxar.”

Quanto às dedicatórias, chama a atenção sobretudo a terceira, que diz: “À Lígia, que ficou.” Parece-nos uma distinção injusta porque, na nossa opinião, a Lígia não foi a única que ficou. Algumas outras também ficaram. Ficaram estarrecidas, repugnadas, furiosas. Mas todas ficaram qualquer coisa.

A contracapa é um dos momentos altos da obra. Sócrates começa por referir que, nos anos 80, Vítor Constâncio, então líder do Partido Socialista, lhe recomendara a leitura de um livro de Max Weber. “Comprei-o no dia seguinte”, revela o ex-primeiro-ministro, indicando que, naquele tempo, quando desejava ter uma coisa, comprava-a, em lugar de a pedir emprestada a um amigo. Também aqui é possível apreciar a evolução do pensamento do autor. Após a leitura do livro, diz Sócrates: “Recordo a impressão que me causou e o que era novo para mim – (…) liderança carismática.” Uma vez que, naquela altura, o líder do partido de Sócrates era Vítor Constâncio, é natural que o conceito de “liderança carismática” fosse completamente novo para ele. Por fim, Sócrates diz que “nas suas linhas gerais, este livro foi esboçado na prisão”. Esta informação reforça uma ideia preocupante sobre o sistema prisional: o presídio não contribui para reabilitar o recluso, antes pelo contrário. A permanência na prisão só acentua os comportamentos anteriores. É esse o caso, aqui: Sócrates já tinha perpetrado um livro antes de ser preso. Depois de sair, comete nova obra. Um facto que merece reflexão urgente.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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