quinta-feira, outubro 27, 2016

O homicídio em série e o bidé

No momento em que escrevo, o autor dos crimes de Aguiar da Beira continua a monte. A GNR tem sido criticada por não ter conseguido capturá-lo, o que me parece injusto: as autoridades sabem que o tempo conta a seu favor, uma vez que, após uma semana a viver no mato, mais cedo ou mais tarde o assassino revelar-se-á, muito provavelmente, pelo cheiro. Este é, aliás, um aspecto que os principais comentadores costumam descurar: a relação entre a fuga às autoridades e a higiene pessoal. Uma coisa é ludibriar a polícia durante o dia e depois pernoitar no Ritz, após um banho quente e retemperador. Outra coisa é andar a monte no pinhal, sem papel higiénico, escova de dentes e uma muda de roupa. É diferente ser um assassino foragido em Nova Iorque, onde há sempre uma espelunca com águas quentes e frias disposta a acolher hóspedes esquisitos sem fazer muitas perguntas, e dedicar-se à mesma actividade nas matas de Trás-os-Montes, podendo apenas aspirar a um curral de ovelhas como abrigo. Há dias, quando ouvi um comentador de um canal de televisão por cabo fazer um apelo ao homicida por, segundo disse, estar convencido de que ele teria acesso à comunicação social, ocorreu-me que também isso talvez fosse improvável. Mesmo na hipótese remota de ter conseguido subscrever um bom pacote de canais nos bosques do distrito de Vila Real, é difícil imaginar que o criminoso faça uma pausa na fuga à polícia para verificar se estão a apelar à sua rendição na CMTV. Na verdade, além de afectar a higiene pessoal, a evasão para a floresta dificulta a vida cultural, na medida em que um foragido pretende espairecer e não consegue ver um pouco de televisão, deseja comprar o jornal e não pode, quer ir à ópera e é complicado.

Além de um péssimo plano de fuga, Pedro Dias tem um nome decepcionante para assassino. Toda a gente percebe o potencial de um nome como Charles Manson para crismar assassinos e inspirar futuras estrelas da música. Mesmo em Portugal, temos um passado de foragidos com outra grandeza, como Faustino Cavaco, que fugiu da prisão de Pinheiro da Cruz em 1985 e andou um mês a monte. Faustino Cavaco é um nome bastante apresentável para uso de um bandido. Não surpreende que um Faustino possa ser infausto, e estamos acostumados a que um Cavaco nos dê cabo da vida. Mas, no nome de Pedro Dias, há uma banalidade que não assusta ninguém. Um cantor chamado Marilyn Dias não venderia um único álbum.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão


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