sexta-feira, julho 08, 2016

Reviver o passado antes de ele passar

Primeiro, a Inglaterra saiu da União Europeia. Na altura em que se realizou o referendo que determinou o chamado Brexit, ninguém percebeu a verdadeira dimensão da tragédia. O problema não foi só a Inglaterra ter saído, foi sobretudo a Alemanha ter ficado.

Depois, Donald Trump venceu as presidenciais americanas. Conforme prometido, construiu um muro a separar os Estados Unidos e o México. Dois anos depois, os americanos exigiram que o muro fosse derrubado, porque os impedia de fugir para o México.

Depois, Boris Johnson tornou-se primeiro-ministro de Inglaterra. Rapidamente se percebeu que Johnson tinha em comum com Trump mais do que apenas o facto de frequentarem o mesmo cabeleireiro. A Escócia e a Irlanda do Norte abandonaram o Reino Unido, várias cidades inglesas pediram a independência e a Grã-Bretanha passou a chamar-se apenas Bretanha, pela razão de já não ser grã. Boris Johnson acabou a governar Birmingham e dois bairros nos arredores de Liverpool, territórios a que agora se chamava Inglaterra.

Depois, Marine Le Pen venceu as presidenciais francesas e expulsou do país todos os imigrantes. No campeonato do mundo de 2018, a selecção francesa perdeu por 5-0 com a Tunísia, por 7-0 com Marrocos e por 12-1 com a Argélia.

Depois, um cientista descobriu um fóssil de âmbar dentro do qual se encontrava um mosquito que havia picado o dr. Oliveira Salazar. A partir dessa amostra, fez clones suficientes do antigo ditador para concretizar o sonho de certos frequentadores de tabernas e Portugal passou a ter um Salazar em cada esquina. Um dos Salazares tentou tomar o poder mas percebeu que já estava ocupado por outro estadista não eleito, o sr. Subir Lall, e compreendeu que mais valia estar quieto.

Quando o Reino Unido abandonou a União Europeia, gerou-se incerteza e os mercados caíram. Quando Trump foi eleito presidente, gerou-se mais incerteza e os mercados voltaram a cair. Quando Marine Le Pen substituiu Hollande, gerou-se nova incerteza e os mercados caíram mais um pouco. A certa altura, os mercados acabaram por perceber que o mundo tem sido incerto desde o Big Bang, mas nem assim se deixaram de mariquices.

Depois, foi preciso resgatar mais 157 instituições financeiras, e os cidadãos do mundo inteiro passaram a entregar o seu salário integral directamente aos bancos, para poupar tempo, por saberem que, mais tarde ou mais cedo, o seu dinheiro acabaria por ir lá parar. Assim, sempre se evitava a extenuante angústia da espera.

Depois, numa cimeira internacional, Trump, Johnson, Le Pen e três Salazares juntaram-se num canto a rir de Kim Jong-un, a quem chamavam “o moderado”.

Depois, as minhas filhas casaram com dois rapazes que tinham tatuagens e andavam de mota. Tendo em conta o estado em que se encontrava o mundo, achei que podia ser pior.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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