quinta-feira, maio 19, 2016

O tempo, esse grande escultor de Lajes

Toda a gente conhece aquele tipo de sociólogo subtil que, leccionando normalmente defronte de um copo, profere frases começadas por expressões tais como : 
“O cigano é um gajo que…” ou
“O preto, normalmente, não tem…”.

Para este género de analista, as pessoas que formam grupos aos quais ele não pertence são todas exactamente iguais. Daí referir-se a elas no singular: quando se fala de uma, fala-se de todas.

Não passa pela cabeça deste tipo de sábio iniciar um raciocínio dizendo
“O branco é um gajo que…”, porque tem a consciência clara de que os brancos são muito diferentes uns dos outros. Curiosamente, há discursos bem-intencionados que não evitam o mesmo lapso. 

Certo tipo de defensor da igualdade de género diz que “A mulher é mais…”, como se pudéssemos identificar um traço de carácter, ou uma característica emocional que fossem comuns a metade da humanidade, e que pudessem aplicar-se, com igual sucesso, a Imelda Marcos e a Jane Austen, a Marie Curie e a Marilyn Monroe, à minha avó e a Irma Grese.

Quem costuma dizer que “os políticos são mentirosos” abusa do mesmo tipo de generalização primária em relação aos políticos mas também quanto aos destinatários das mentiras – que são, em geral, os eleitores. Desse ponto de vista, o caso da cimeira das Lajes é fracturante, porque revela uma mentira de um político a outro político. Não é inédito, mas constitui, apesar de tudo, uma ocorrência menos frequente. 

A história é a seguinte: Durão Barroso disse que, em 2003, o Presidente Jorge Sampaio tinha apoiado expressamente a realização da cimeira das Lajes. Sampaio veio esclarecer que Barroso lhe tinha dito que a cimeira teria como propósito evitar a guerra. Como sabemos, na cimeira acabou por ficar decidida a invasão do Iraque, com o objectivo de neutralizar as armas de destruição maciça imaginárias que aquele país detinha. Deste episódio deve destacar-se a habilidade de Durão Barroso e a credulidade de Jorge Sampaio, que foi capaz de acreditar que Bush, Blair, Aznar e Barroso iam reunir-se numa base militar para conversar um bocadinho sobre pacifismo. Aguardo com ansiedade a revelação de mais acontecimentos importantes da História Contemporânea de Portugal. 

Por exemplo, neste momento parece-me provável que Durão Barroso diga numa entrevista que Sampaio apoiou expressamente a sua ida para a Comissão Europeia e que Sampaio esclareça logo a seguir: “Ele disse-me que ia só ali comprar tabaco.” 

Ou que Barroso afirme que o Presidente tinha apoiado expressamente a sua substituição por Santana Lopes e Sampaio venha corrigir:
“Ele prometeu-me que o substituto seria o seu filho, que tinha na altura 12 anos, e eu fiquei descansado.”


Fonte: Ricardo Araujo Pereira @Visão

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