quinta-feira, abril 21, 2016

Racismo capilar

Segundo dizem, esta semana houve indignação do facebook. Vou tentar resumir o motivo da controvérsia – embora seja uma tarefa difícil, uma vez que o caso é extremamente complexo, como costumam ser todos os que ocupam os polemistas das redes sociais. O que se passou foi isto: Justin Bieber mudou de penteado. Houve brados, pranto e ranger de dentes, porque o cantor optou por um estilo capilar popularmente conhecido como “rastas”, e foi acusado de “apropriação cultural”. Não foi o primeiro. Há 15 dias, na Universidade de São Francisco, uma funcionária agarrou um aluno com o mesmo penteado e disse-lhe que ele não podia ter o cabelo assim: estava a apropriar-se da cultura africana. Segundo ela, só os negros podem usar aquele tipo de penteado. Este discurso fez-me lembrar um outro, que dizia: “Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural. O que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu.” Uma moderna defensora das identidades culturais e um anúncio do Restaurador Olex: a mesma luta.

Uns meses antes, em Dezembro, na Universidade de Oberlin, no Ohio, um grupo de estudantes acusou a cantina de “apropriação cultural” porque o sushi servido constituía uma “representação incorrecta de pratos culturais” e ofendia uma tradição culinária ancestral. Com a mesma impecável superioridade moral, em Novembro, a associação de estudantes da Universidade de Ottawa suspendeu as aulas de yoga, por serem uma “inaceitável apropriação cultural de uma prática não-ocidental”. E umas décadas antes, no dia 18 de Agosto de 1941, trezentos jovens alemães conhecidos como “Swing Kids” foram presos pelos nazis por estarem a tocar música jazz, o que lhes era interdito por se tratar de “música de negros”. Mais uma vez, é impressionante como o moderno anti-racismo se parece com o velho racismo.

Esta compartimentação cultural levanta problemas interessantes. Uma vez que, ao que parece, o smoking foi inventado em Inglaterra em meados do século XIX, significa isso que um índio não pode usar um? Ou, já agora, um português? Mesmo entre os portugueses, é legítimo que um minhoto use um capote alentejano? Um cozinheiro trasmontano pode fazer chocos à algarvia? Um açoriano pode cantar o fado? À cautela, hei-de tentar saber qual é o traje típico de São Sebastião da Pedreira e vou comprar meia dúzia.

Os antigos activistas do movimento dos direitos civis batiam-se pelo fim da segregação racial e pela igualdade de direitos. Os modernos fiscalizam o penteado de um adolescente. Imagino que Rosa Parks e Martin Luther King ficariam muito, muito orgulhosos.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

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