quinta-feira, março 10, 2016

Um português, um francês e um inglês operam uma importante mudança sócio-económica

O número de pessoas que acreditam que o humor tem muito poder parece ser bastante elevado. É certo que, normalmente, são pessoas sem grande sentido de humor, como ditadores ou jornalistas, mas ainda assim é muita gente. Costuma dizer-se que o humor é a arma dos fracos. Não admira: os fracos não costumam ter acesso às outras armas. É precisamente por isso, aliás, que são fracos. E não é o facto de recorrerem ao humor que os torna fortes.

O humorista americano Lewis Black foi uma vez confrontado com o facto de alguns académicos considerarem que os programas de sátira política determinavam comportamentos políticos. Black respondeu à entrevistadora: “Bem, primeiro, diga a esses académicos que se vão lixar [ele opta por outro verbo]… A sério, diga-lhes que isso é uma treta… (…) Se a sátira fosse de facto importante a esse nível, como um modo de conseguir fazer coisas, então mais coisas estariam a ser feitas. Tudo o que produz é riso (…).” Black era colaborador frequente do programa The Daily Show. Jon Stewart, apresentador do programa, e Stephen Colbert, outro colaborador regular, defenderam por diversas vezes a mesma ideia. Em 2006, Colbert disse à revista Rolling Stone que o facto de o seu trabalho ser apreciado pelas pessoas não significava que tivesse efeitos políticos. Stewart acrescentou: “Ou que tenha uma agenda de mudança social. Não somos guerreiros no exército de ninguém.”

O problema foi o seguinte: a certa altura, um jornalista noticiou que, de acordo com determinado estudo, os jovens americanos obtinham toda a sua informação em programas como o de Jon Stewart. Na verdade, não só o estudo dizia algo muito diferente disso, como vários estudos posteriores desmentiram completamente essa ideia (por exemplo, “Dispelling Late-Night Myths”, de Young, e “Stoned Slackers or Super-Citizens? The Daily Show Viewing and Political Engagement of Young Adults”, de Baumgartner e Morris, para citar apenas dois). Mas já não havia nada a fazer. O enorme poder político de Jon Stweart estava decretado. Foi considerado o mais acutilante crítico de George W. Bush. Passou a ser incluído nas listas das personalidades mais influentes do mundo da revista Time. A estação de televisão Fox tentou criar um programa idêntico mas de tendência conservadora, para equilibrar o poder do liberal The Daily Show. Em Setembro de 2004, o comentador conservador Bill O’Reilly convidou Stewart para o seu programa e disse-lhe: “Sabes o que é assustador? Tu vais ter, de facto, influência nestas eleições.” Um mês e meio depois, George W. Bush seria reeleito, obtendo mais dez milhões de votos do que na sua primeira eleição.

A semana que passou foi bastante reveladora quanto ao poder do humor e à possibilidade de controlar os seus efeitos. A cineasta Leonor Teles ganhou um Urso de Ouro para melhor curta-metragem pelo filme Balada de um Batráquio, que fala de uma estratégia usada por alguns comerciantes: colocar um sapo de porcelana à porta dos estabelecimentos, para afastar clientes ciganos. Depois de saber do prémio, Leonor Teles disse: “O melhor foi ver as pessoas a rirem-se com o filme, a divertirem-se. É bom sentir isso.” A imprensa levou a mal. Um jornal perguntou: “Quer ter um papel numa eventual aproximação entre os ciganos e o resto da sociedade?” Leonor Teles respondeu: “Eu não! Fiz o filme, o que há a fazer é as pessoas irem vê-lo e tirarem dele o que bem entenderem. Não me cabe a mim ter o papel de juiz.” E acrescentou: “Nunca pensei que um filme tão parvo pudesse ganhar um prémio como este.” Inadmissível. O crítico Jorge Mourinha corrigiu logo, no Público: “Mesmo que de parvo o filme não tenha nada.” E, noutro texto, reforçou: “É mesmo por isso que Balada de um Batráquio não é parvo nem tosco.” No DN, o editorial dizia: “Não, Leonor, parvoíce é o mínimo que se pode dizer de quem põe sapos nas montras para afastar seja quem for.” E apontava Leonor Teles como um dos nomes que “não deixam para os mais velhos o desconcerto do mundo e o impulso de fazer algo para mostrar, para mudar”. De facto, as coisas mudaram. No dia seguinte, o JN noticiava na capa: “Venda de sapos de loiça dispara.” Alguns comerciantes que ainda não sabiam que os ciganos tinham uma superstição com sapos ficaram a saber pelo filme, e foram esgotar os stocks de batráquios de porcelana. Um dia negro para quem acredita que os problemas sociais se resolvem à força de curtas-metragens humorísticas. Mas um bom dia para quem gosta de cinema, porque o filme é bom.

Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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