sexta-feira, novembro 20, 2015

Morram certas onomatopeias, pim!

Há dias, numa festa de casamento, o padrinho do noivo ergueu o copo no fim do discurso e, como é costume nestas ocasiões, disse para os convidados: "Tchim-tchim." Tendo calado por demasiado tempo a minha objecção a este gesto, pedi a palavra e disse o seguinte: "Meus amigos, sem pôr em causa a oportunidade de brindarmos ao enlace do João e da Andreia, gostaria apenas de pedir a todos que o fizéssemos de um modo aritmética e linguisticamente correcto. Na verdade, 'tchim' é uma onomatopeia bem pouco competente para imitar o som que os copos fazem quando telintam. Aliás, a bonita palavra 'telintar' reproduz muito mais fielmente aquele som, o que é bastante curioso." As pessoas fitavam-me com admiração, e era claro que também consideravam aquele facto bastante curioso. "De facto" - prossegui - "quando dois copos embatem um no outro não se produz, de modo algum, o som 'tch', a menos que o vidro se quebre. Mas este é apenas um primeiro ponto da minha justificada antipatia pela expressão 'tchim-tchim'. Quando brindamos, o nosso copo toca no copo de outra pessoa apenas uma vez, pelo que o segundo "tchim" é completamente despropositado. É interessante notar que o som 'tchim-tchim' nunca foi produzido, na prática, por qualquer grupo de copos: quando duas pessoas brindam ouve-se apenas um 'tchim', e quando brindam três ouve-se 'tchim-tchim-tchim' - os dois tchins correspondentes ao brinde da pessoa A com as pessoas B e C e um terceiro tchim produzido pelo brinde da pessoa B com a pessoa C. Posto isto, quando se brinda, creio que o mais apropriado será dizer apenas 'tchim' - ou, de preferência, uma onomatopeia que se aproxime mais do som de vidro que toca em vidro. Eu recomendo 'plim'. Muito boa noite."

Fez-se um daqueles silêncios que costumam ocorrer depois de grandes momentos. A maior parte das pessoas tinha a boca entreaberta, mas não parecia interessada em falar. Por isso, levantei-me novamente e acrescentei: "Há já muito tempo que venho defendendo a necessidade de uma profunda reforma das onomatopeias portuguesas. Devo dizer que não conheço um único cão que faça 'béu--béu'. E tenho vergonha de admitir que a onomatopeia dos ingleses para o som de bater à porta ('knock-knock') é bem superior à nossa, na medida em que, de acordo com a minha experiência, nunca um punho fechado batendo numa superfície de madeira fez 'truz-truz'". Neste ponto, o padrinho do noivo interrompeu para dizer: "O que devia ser investigado era o som que um punho fechado faz quando bate nas tuas ventas." Alguns convivas desconfiaram que a observação não expressava uma verdadeira curiosidade linguística, e movimentaram-se no sentido de impedir uma zaragata. Como sempre que alguém tenta impedir uma zaragata, gerou-se então uma zaragata, durante a qual acabariam por se partir, na testa do padrinho do noivo, duas garrafas. Que, ironicamente, fizeram "tchim" e "tchim".

Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

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