sábado, outubro 03, 2015

Efectivamente não há dinheiro

Nem na melhor literatura se encontra um retrato tão vívido do País: em Portugal, nem nos programas eleitorais há dinheiro
Após a análise cuidada que fiz dos programas eleitorais do PS e da coligação PàF, a primeira coisa que quero revelar ao cidadão indeciso é que o programa do PS tem muito mais austeridade do que o da PàF. Talvez deva explicar que a expressão "análise cuidada" significa, em termos práticos, que estive a brincar com a ferramenta de pesquisa do documento digital de ambos os programas, e que andei entretido a procurar as palavras que se repetem mais vezes. No programa do PS, a palavra "austeridade" aparece 20 vezes; no da PàF não aparece nenhuma. Como interpretar este dado, indubitavelmente importantíssimo? A PàF não deseja aplicar mais austeridade, e por isso não a refere? Ou tem a austeridade de tal modo arreigada no programa que chega a ser austera relativamente ao número de vezes que a menciona? Não sei. A resposta a essa pergunta requereria a leitura integral de um documento de propaganda política, o que, por razões de saúde, nunca faço.


Outra palavra que (como toda a gente, creio) tive curiosidade de procurar nos programas foi "efectivamente". Tenho, pelo termo "efectivamente", um carinho especial. Normalmente, pode ser suprimido sem qualquer prejuízo. Os utilizadores da palavra "efectivamente" costumam desejar, apenas, preencher algum tempo sem dizer nada de especial. Nessa medida, acaba por ser surpreendente que haja tão poucas ocorrências em ambos os programas: sete vezes no da PàF e apenas 4 no do PS.


Nas referências a escalões etários, o PS leva larga vantagem. Refere 26 vezes os idosos (apenas 9 referências no programa da PàF) e 76 vezes os jovens (contra 39 da PàF). No entanto, nenhum dos programas se refere a pessoas como eu, que não são jovens nem idosas. Nem os ideólogos do PS nem os da PàF pensaram nas pessoas de meia-idade, o que se lamenta. As pessoas de meia-idade mereciam ser alvo de algumas medidas concretas, quanto não seja porque são elas que aturam quer os idosos, quer os jovens.


Talvez o mais interessante seja a referência à palavra "dinheiro", que tem apenas uma ocorrência no programa do PS e duas no da PàF. Nem na melhor literatura se encontra um retrato tão vívido do País: em Portugal, nem nos programas eleitorais há dinheiro.


Fonte : Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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