quinta-feira, outubro 22, 2015

A palavra do ano é mas

Cavaco exige dar posse a um governo maioritário, mas não se a maioria incluir os partidos à esquerda do PS. Jerónimo de Sousa viabiliza um governo do PS para que haja uma política alternativa à coligação, mas disse que o PS e a coligação eram farinha do mesmo saco. António Costa perdeu as eleições, mas pode ser primeiro-ministro. A coligação passou quatro anos a dizer que não havia alternativa, mas quer negociar com o PS políticas alternativas. O Bloco manifesta abertura para apoiar o PS, mas disse que o PS tinha sido a desilusão da campanha eleitoral. Durão Barroso diz que os eleitores socialistas não votaram no PS para um governo com o PCP e o BE, mas é igualmente improvável que tenham votado no PS para um governo com o PSD e o CDS.

A bolsa perde agora milhões por causa da hipótese de um governo de esquerda, mas perdeu 2,3 mil milhões quando Paulo Portas revogou a irrevogabilidade. A composição da Assembleia da República indica que o povo português votou maioritariamente contra a coligação, mas também indica que votou maioritariamente a favor do respeito pelo tratado orçamental. A direita diz que um eventual governo de esquerda não respeitaria a Constituição, mas passou quatro anos a desrespeitar a Constituição.

António Costa substituiu o anterior líder do PS por ele ter ganho por poucochinho, mas não quer sair depois de ter perdido por bastantezinho. Cavaco defende a estabilidade, mas pode patrocinar a turbulência. Tudo isto é bastante confuso, mas tem graça.

Bem vistas as coisas, «mas» significa política. Cavaco não gosta de mas. Isto de as pessoas se oporem umas às outras, de as circunstâncias mudarem, de ser necessário fazer escolhas, nunca lhe agradou. O que é bonito é o consenso.

Acontece que Cavaco é sonso quando pede consenso. Na verdade, Cavaco é um consonso: deseja o consenso desde que seja em torno da sua opinião. O povo português deu duas maiorias absolutas a Cavaco Silva e elegeu-o Presidente por duas vezes à primeira volta. Mas lá está, desta vez não lhe fez a vontade. Portugal pode estar menos estável, mas está mais interessante.

Fonte : Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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