sábado, maio 16, 2015

Se adormeceres roubam-te as botas

Carrega, Benfica!
Tão lindo este grito, lindíssimo mas talvez excessivamente coloquial tendo em conta a seriedade do momento.
É que o Benfica chegou ao ponto em que só tem dois jogos por disputar e está a uma vitória de revalidar o título de campeão.
O primeiro jogo é na casa do Vitória de Guimarães onde, nesta época, o Porto empatou e o Sporting saiu goleado.
O segundo jogo é na Luz com o Marítimo que nesta época, com dois treinadores diferentes, ganhou dois jogos ao Porto sempre com o mesmo treinador.
Nada disto se apresenta fácil.
Carrega, Sport Lisboa e Benfica!
Assim mesmo, com o nome completo porque chegou a hora de ser inteiro. E porque inteiro soa ainda melhor.
Carrega, Sport Lisboa e Benfica!
Assim mesmo, com o nome inteiro porque chegou a hora de ser completo. E completo demora mais tempo a dizer. E prolonga-se a satisfação.
Carrega, Sport Lisboa e Benfica!
Com as sílabas todas. É música que não deixa dormir.
Dormir é que não, Sport Lisboa e Benfica, dormir é que nunca.
Por exemplo, num filme antigo de Roberto Rossellini, chamado Libertação, retratando, precisamente, o mestre do neo-realismo a libertação da Itália pelos Aliados no culminar da II Guerra, há todo um episódio com uma esfaimada criança napolitana que persegue um soldado norte-americano com a intenção de lhe roubar qualquer coisa que valha dinheiro no mercado negro.
Exausto nas suas deambulações pelas ruas de Nápoles com a criança sempre à perna, o soldado acaba por se encostar a uns escombros e, entorpecido pela brutalidade do Sol, fecha os olhos.
Diz-lhe o rapazinho com toda a franqueza da sua miséria:
- Se adormeceres roubo-te as botas.
E é precisamente o que acontece. O soldado adormece e acorda descalço.
Carrega, Sport Lisboa e Benfica!
Se adormeceres roubam-te as botas.


Nos instantes que se seguiram ao quarto golo do Benfica, refiro-me ao jogo do último sábado, a expressão de um destino já inelutável levou Vítor Bruno, jogador do Penafiel, a uma curta e fogosa série de atitudes provocatórias que resultaram, objectivamente, em dois cartões amarelos mostrados a jogadores do Benfica como castigo por terem caído na tentação de responder à letra.
Foi o momento mais quente do jogo e imediatamente se transmitiu às bancadas.
Uma pequena parte do público, entusiasmado com a robustez do marcador e aborrecido com Vítor Bruno que nos tirou Samaris do jogo de Guimarães, desatou a cantar «olés» enquanto os jogadores do Benfica trocavam entre si a bola frente ao ali mesmo despromovido Penafiel.
Não foi bonito, não. Mas a verdade é que esse dispensável exercício de crueldade não se prolongou por muito tempo porque logo outra parte do público, mais adulta, fez valer os seus bons pergaminhos e impôs gentilmente o fim dos «olés» e o respeito pelo adversário.
Benditas sejam as maiorias esclarecidas que ainda habitam os estádios de futebol.


O presidente do Porto, por cansaço ou por ter mais que fazer, delegou a propaganda, área em que era mestre, numa elite de estrategas perfeitamente capaz de organizar recepções festivas depois de derrotas – e por isso já se exige o ADN de volta – e não menos capaz de descortinar «um toquezinho xenófobo» na resposta do director de comunicação do Benfica à última intervenção pública do treinador Julen Lopetegui. 
Lopetegui até pode ser o melhor treinador do mundo mas não é, certamente, o melhor comunicador do mundo. Contra si tem aquela notória desarticulação de um boneco a dar pinotes mas com os fios sempre à vista.
Entretanto o director de comunicação do Benfica, por iniciativa própria ou não, lá respondeu à última vaga de lamentações de Lopetegui sem recurso a nada que o pudesse ofender.
Limitou-se a publicar uma imagem de uma bancada repleta de benfiquistas, o tal «manto protector» na sua opinião, e a tratar o treinador do Porto não pelo nome mas pela sua naturalidade de «basco» que muita o honra, certamente.
Trocar o nome a Lopetegui é diminuí-lo. E de gosto duvidoso quando é propositado, admitamos. Já chamar «basco» a Lopetegui que é basco não é diminuí-lo nem se reveste de qualquer acinte.
Só mesmo pessoas que, por qualquer motivo fútil ou por paixão funesta, já não podem mais ver um «basco» pela frente é que conseguem descortinar «um toquezinho xenófobo» nesta redundância de chamar basco a um basco.
Pelo andar da carruagem, um dia destes ainda lhe chamam mouro.


No princípio da semana, por causa da greve dos pilotos da TAP o Marítimo teve de pernoitar em Lisboa. No dia seguinte, antes do embarque paras o Funchal, a equipa treinou-se no Seixal devidamente autorizada pelo Benfica.
É um procedimento comum tal como o presidente do Marítimo se viu forçado a explicar recordando que a equipa da Madeira já anteriormente utilizou os campos de outros clubes de norte a sul do país, incluindo as instalações do Porto, sempre que se viu atrasada no continente por questões voos.
Como o Marítimo é o último adversário do Benfica nesta Liga o Porto reagiu oficiosamente a este episódio aéreo considerando-o um atentado à verdade desportiva. O presidente do Marítimo, por sua vez, considerou de «baixa intelectualidade» os protestos portistas. A verdade é que qualquer jogo que possa decidir um título arrasta consigo intricadas teorias da conspiração. É natural, o futebol é paixão não é império da lucidez. E o mais curioso é que a má fama da última jornada não nasceu esta semana no Seixal. 
A má fama da última jornada nasceu em Paços de Ferreira vai agora fazer três anos. Ainda ninguém se esqueceu. Eu também não. No entanto, para não dar parte fraca, aceitei placidamente a sagração do campeão e o pacote de negócios prontamente anunciado entre as partes.
E, francamente, houve ali alguma espécie de «amor», de «amor, só pode»?
Não, nunca, nada, zero.


Tiro maravilhosamente certeiro contra a xenofobia foi dado por Leonardo Jardim ao ser confrontado com o facto de o seu nome não constar na lista de candidatos ao prémio para o melhor treinador do campeonato francês.
- Eu só posso ganhar o prémio para o melhor pedreiro português em França – disse o madeirense.
Bravo!
Só espero que o Leonardo Jardim não se ofenda por o tratar por «madeirense».


Com todo o respeito pelo Vitória de Guimarães e pelo seu presidente da Assembleia Geral mas aquela tirada «se ganharem que vão festejar para o Marquês que é a casa deles» não terá um «toquezinho» de qualquer coisa menos aceitável?
Ainda o jogo de Guimarães não começou e já os benfiquistas, que aprenderam a não deitar foguetes antes da festa, foram mandados para o Marquês que, sensatamente, se recusam a reservar por causa das tosses.
Sempre se vai aprendendo com os erros, felizmente.
Um dos erros que, no entanto, pode ainda ocorrer dada a sensibilidade do tema é o de se prestar mais atenção às palavras inebriantes do alto dirigente vimaranense do que ao jogo propriamente dito com o Vitória de Guimarães. Que é o que conta.


O antigo árbitro Jorge Coroado – o introdutor da «azia» no léxico do nosso futebol – considera que foi muito mal nomeado o árbitro para o Belenenses-Porto mas que foi muito bem nomeado o árbitro para o Vitória-Benfica.
Não se pode ter tudo, é o que é.
Por sua vez, o Porto considera que foi pessimamente nomeado o árbitro para o Vitória-Benfica e, pior ainda, considera que foi terrivelmente nomeado o árbitro para o Belenenses-Porto.
Caramba, isto é que são muitas exigências.


PS - O Real Madrid não conseguiu fazer à Juventus o que o Benfica conseguiu há um ano: ganhar em casa e não perder fora. E mais nada!"


Fonte: Leonor Pinhão @A Bola


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