sexta-feira, maio 15, 2015

Adendas ao código deontológico do jornalista, por António Costa

O jornalista tinha dito apenas que entregar a elaboração do programa do partido a um grupo de independentes revelava falta de coragem política. Isto, para Costa, é um insulto reles. O que significa que este candidato a primeiro-ministro nunca foi a uma feira, nunca esteve 20 minutos no trânsito, nunca foi ao futebol. Alguém precisa de conhecer o mundo.
O primeiro ponto que deve ser esclarecido, no caso da mensagem enviada por António Costa a João Vieira Pereira, jornalista do Expresso, é o seguinte: diz-se um sms ou uma sms? Julgo que há bons argumentos a favor de ambas as opções mas, como não existem estudos sérios sobre este problema, com muita pena minha terei de me dedicar, ao contrário do que é meu hábito, à questão essencial, que é a substância da mensagem de António Costa. Talvez seja importante situar esta rabugice no contexto mais amplo de indisposições de Costa com a Imprensa. Todos recordamos o episódio ocorrido há alguns meses, quando uma jornalista da SIC teve a ousadia de fazer uma pergunta ao secretário-geral do PS. Na altura, António Costa considerou infamante que a jornalista lhe tivesse aparecido "detrás de um carro". A objecção parece admitir que há sítios detrás dos quais é legítimo que um jornalista saia, mas que um carro não é um deles. É um ditame ético um pouco vago e incompleto, mas fica registado.

Desta vez, Costa não argumenta com a localização a partir da qual o jornalista se apresenta, embora, tendo em conta o modo como o Expresso chega aos seus leitores, o pudesse ter feito: "Então o sr. vem de dentro de um saco de plástico para criticar o meu programa económico para a década?" Não, desta vez o problema é outro. Costa começa por dizer: "Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava." Creio que este tempo é o chamado antigamente. Esta dificuldade não é exclusiva do jornalismo. Antigamente era tudo melhor do que agora. E o pior é que este agora vai ser o antigamente de amanhã.

Costa prossegue: "Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados". As pessoas que, ao contrário de António Costa, não fizeram estudos superiores, costumam exprimir a mesma opinião mas com uma formulação ligeiramente diferente: "Andam para aí a confundir liberdade com libertinagem. Ao menos, antigamente havia respeito."

E António Costa acrescenta: "(...) que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas." Esta, para mim, é a frase mais importante da mensagem, na medida em que desmente os que acusam Costa de pretender domesticar as opiniões publicadas na Imprensa. Nada mais falso. António Costa não é contra insultos. É apenas contra o insulto reles e cobarde. O secretário-geral do PS desafia o jornalista a dirigir-lhe insultos elevados e corajosos. Deseja injúrias sofisticadas, o que só lhe fica bem. Mas o jornalista tinha dito apenas que entregar a elaboração do programa do partido a um grupo de independentes revelava falta de coragem política. Isto, para Costa, é um insulto reles. O que significa que este candidato a primeiro-ministro nunca foi a uma feira, nunca esteve 20 minutos no trânsito, nunca foi ao futebol. Alguém precisa de conhecer o mundo.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira@Visão

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