sexta-feira, novembro 28, 2014

Falcatrua spotting

Na véspera do início da comissão de inquérito parlamentar às falcatruas do caso BES, Miguel Macedo demitiu-se por causa das falcatruas do caso dos vistos gold. São tempos maravilhosos para quem aprecia falcatruas. Uma falcatrua pode levar apenas cinco minutos a fazer, mas leva anos a investigar e, normalmente, arquivar. Por falta de oportunidade, infelizmente não tenho podido usufruir de tantas falcatruas quanto gostaria, mas a simples observação de falcatruas costuma ser suficientemente compensadora.

A demissão do ministro coloca alguns problemas interessantes ao observador de falcatruas. De acordo com o Expresso, alguns arguidos são "amigos pessoais" de Miguel Macedo. Tenho constatado que, de todos os tipos de amigo que é possível ter, o amigo pessoal é, sem dúvida nenhuma, dos mais nocivos. Se o ministro fosse amigo colectivo de alguns arguidos, ou se fosse apenas amigo institucional de outros, talvez a demissão não fosse inevitável. Mas a amizade pessoal costuma vincular o amigo ao autor da falcatrua. A questão que se coloca é a seguinte: podemos exigir a um ministro que não tenha, entre os seus amigos (pessoais ou outros), autores de falcatruas? Percebo que se impeça um autor de falcatruas de chegar a ministro, mas proibir que um ministro seja amigo de burlões já me parece excesso de zelo. Além de que torna quase impossível nomear um ministro. Só misantropos com muita sorte podem aceder ao cargo. A teoria dos seis graus de separação sustenta que quaisquer duas pessoas estão separadas apenas por seis ou menos laços de amizade. Creio que é possível reduzir para metade os graus de separação entre qualquer português e um vigarista.

Outro problema é político. Uma das razões para adquirir o visto gold é a possibilidade de vir para um país que não incomoda os autores de falcatruas. Se os autores de falcatruas começam a ser presos, e até os seus amigos são forçados a demitir-se, não são apenas os vistos gold que perdem valor, é Portugal que deixa de fazer sentido. Sempre que uma falcatrua é conhecida, alguns portugueses indignados perguntam: "É neste país que queremos viver?" Inúmeros chineses endinheirados respondem: "Sim, se faz favor." Esperemos que este percalço não os faça mudar de ideias.


Fonte: Ricardo Araujo Pereira @ Visão

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