sexta-feira, novembro 28, 2014

Afinal, nem isso

Esta entente cordiale que vigora entre o Benfica e o Porto, e que parece deixar positivamente encantados os líderes dos emblemas arquirivais, está a deixar os adeptos dos dois clubes às aranhas sem saberem muito bem o que dizer sobre o sensacional pacto de regime que entrou em vigor com a eleição de Luís Duque para a presidência da Liga.
Da parte dos presidentes, Pinto da Costa tem sido o mais prolixo sobre a matéria. Em Angola, onde foi tratado por «irmão» pelo simpático general Kundi Pauhma, elogiou a solução encontrada a meias com o Benfica para repor o futebol português no bom caminho.
Já em Portugal, o presidente do Porto foi mais longe estando mais perto e afirmou que a rivalidade com o Benfica é «dentro do campo». Não andasse o país entretido com aquilo de que toda a gente fala e aqui tínhamos um assunto e pêras para as aberturas dos telejornais.
Andam, assim, os adeptos do Benfica e do Porto abananados com esta revolução dos afectos depois de andarem trinta anos a odiar-se uns aos outros militantemente. Abananados e diga-se também, em abona da verdade, que andam preocupados, o que se compreende porque não é fácil, de um dia para o outro, incorporar o novo paradigma.
A portistas já ouvi dizer que esta modernice só pode correr mal para o lado deles porque tanto respeito e sentido cívico redundam numa descaracterização até à medula daquilo que foi o corpo teórico e prático do triunfal avanço sobre a capital que tão bons resultados proporcionou.
A benfiquistas ouvi dizer bem pior. Que a coisa só pode correr pessimamente para o nosso lado e que, por isso mesmo, está já garantido o segundo lugar no campeonato que é o lugar dos primeiros dos últimos. Dizem muitos dos nossos que não há memória, nas últimas três décadas, de se ver o Benfica campeão quando a relações institucionais com o Porto se esmeram em aprumo e em confiança.
A politólogos, gente mais complicada e com outras referências, ouvi palavras mirabolantes sobre esta novíssima união. Dizem que tudo isto lhes faz lembrar aquele momento histórico do fim do século XX em que a República Federal Alemã e a República Democrática Alemã se constituíram num mesmo país dando origem a uma era, a que vivemos presentemente, de conforto, bem-estar e prosperidade como nunca se tinha visto.


Perante esta douta análise, cabe agora aos adeptos do Benfica e do Porto escolheram quem gostavam de ser na dita equação. A RFA ou a RDA? Foi o Benfica que anexou o Porto ou foi o Porto que anexou o Benfica? A um velho comunista ouvi uma vez dizer, contendo o riso, que foi a RDA quem anexou a RFA e que esse era um dos segredos mais bem guardados da História.
Lá para Maio, quando o campeonato já estiver terminado, olharemos para a tabela final e logo veremos quem é que anexou quem em prol da prosperidade do futebol português.
Uma coisa é certa: o presidente dos anexados vai ter de se aguentar com uma ruidosa revolta popular. De um lado ou do outro, já estou a ouvi-los.


No passado fim-de-semana houve Taça de Portugal que, por alguma coisa, é uma competição extraordinariamente amada no país. A Taça traz-nos jogos diferentes a que prestamos inaudita atenção como, por exemplo, o beatífico Santa Maria - Santa Eulália que terminou com o apuramento da Santa que jogava em casa.
E a Taça faz-nos diferentes, é verdade. Por exemplo, o fabuloso Oriental eliminou o Vitória de Setúbal mercê de um lance infeliz de um jogador dos sadinos, François, que meteu um golo na sua própria baliza.
No fim do jogo, os adeptos do Oriental festejaram rijamente o sucesso, como lhes competia, e os adeptos do Vitória de Setúbal no lugar de se atirarem ao árbitro, ao treinador e ao François, como também lhes competia, optaram, maravilhosamente, por consular com aplausos e carinho o seu infeliz jogador.
Foi bonito de se ver. Estas raridades do comportamento só acontecem na Taça de Portugal e é por isso que toda a gente gosta da Taça de Portugal.
Na Luz, o Benfica recebeu e eliminou o Moreirense com um resultado de 4-1. Quatro golos e qual deles o mais bonito? Jonas e Salvio foram os artistas de serviço quanto à concretização. Quanto à não-concretização, Derley pelo que jogou e Cristante por nos ter mostrado o que sabe jogar, foram as outras alegrias da tarde.
O golo de honra dos visitantes nasceu de um desatenção calamitosa no eixo central da nossa defesa permitindo ao Taquarita de Moreira de Cóngos fuzilar sem hipótese para Júlio César brilhar. Coisas que acontecem.
Mas na perspectiva de desatenções destas em São Petersburgo tiram-nos o sono. E o sonho também.


Na manhã de ontem, bastante chuvosa por sinal, apelando sem esforço ao meu fair play e patriotismo fiz questão de dar os parabéns a um bom amigo e vizinho sportinguista pelo triunfo da véspera sobre o Maribor que garantiu ao Sporting, no mínimo, a presença na Liga Europa.
Muito obrigado! - respondeu-me com elevação e modéstia, escusando-se diplomaticamente a qualquer referência sobre a periclitante situação europeia do meu clube. Ou a pôr-se a adivinhar as possibilidades do Benfica na tarde-noite da Rússia. Delicadezas que muito apreciei.
De franca simpatia em simpatia franca, dei-lhes os parabéns, não menos sinceros, pela exibição do Nani, pelo golo do Nani, pela jogada do golo do Nani e fui surpreendida por uma reacção bem diferente daquela que era legítimo aguardar.
O meu vizinho e bom amigo sportinguista empalideceu, deitou as mãos à cabeça:
- Isso foi a pior coisa que nos podia ter acontecido! - ripostou.
E explicou-me, pausadamente, que melhor teria sido se esse momento mágico do jogo de Alvalade tivesse ocorrido quando falhou a electricidade de modo a inviabilizar liminarmente a captação pelas câmaras de televisão que, com claridade a rodos, lá levaram as imagens «do génio» - palavras suas - por esse mundo fora e, especialmente, até Manchester.
- Foi a pior coisa que podia ter acontecido ao Sporting! - repetiu na conclusão do seu raciocínio que, sendo enviesado, não deixa de ser avisado.
Até ao fim de Janeiro, que é quando se fecha a janela das transferências, vão andar divididos os adeptos do Sporting no que respeita aos golos e às jogadas de Nani. Por um lado, reina a angústia porque sempre que Nani faz levantar Alvalade o barulho é tão intenso que chega num instantinho a Old Trafford.


André Almeida poderiam chamar hoje os jornais o czar de São Petersburgo não fosse a sua única falha de marcação a Hulk ter resultado no golo com que o Zenit derrotou ontem o Benfica afastando-o da Liga dos Campeões o que, por esta altura do ano, já vem sendo tradição.
No único segundo em que não teve a oposição impecável de André Almeida, Hulk conseguiu meter uma bola na área na direcção de Danny que fez o golo solitário do jogo na cara de Júlio César. Foi um Benfica pequenino que se apresentou na primeira parte, sem dimensão europeia à míngua de meio-campo e de poder de fogo. Os primeiros vinte minutos da segunda parte foram outra coisa para bastante melhor e não fosse a ausência de poder de fogo o jogo poderia ter ficado bem resolvido para o nosso lado. Depois foi o que se viu. O Zenit a crescer, o Benfica a minguar e adeus Liga dos Campeões onde, bem vistas as coisas, só poderíamos ir fazer pequena figura.
Quando o Benfica perdeu em casa com o Zenit na jornada inaugural lembro-me de ter escrito, num acesso de infantil de optimismo, que já nos estava a imaginar na terceira final consecutiva da Liga Europa. Afinal, nem isso.

Fonte: Leonor Pinhão @ A bola

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