quinta-feira, outubro 09, 2014

Um dia até lhes vão chamar insubstituíveis

O Benfica é uma equipa em construção e não podia deixar de ser, não por mania do seu treinador, mas porque, efetivamente, da equipa campeã saiu muita gente da maior importância. Reinsisto. A saída mais difícil de disfarçar é a de Garay, um jogador excepcional, onde nascia o jogo da equipa de trás para a frente e onde morria, frequentemente, o jogo do adversário. Poderá haver, sobre este assunto, as mais variadas opiniões. Mas esta é a minha.
A realidade é agora outra. Há, no entanto, belas promessas entre alguns dos que chegaram agora ao Benfica. Jonas foi o último a chegar e assim que tocou na bola pela primeira vez no jogo com o Arouca percebeu-se que o brasileiro veio com os estudos feitos. São de apreciar, porque são raros, os jogadores que não reclamam tempo de adaptação e de aprendizagem. Jonas marcou até um golo na estreia, é um licenciado.
Dos outros novos, Talisca e Derley vão-se fincando, ganhando o seu espaço. Um dia destes até lhes vão passar a chamar de insubstituíveis depois de lhes terem chamado outras coisas menos bonitas. Isto ainda se vai compor em termos da qualidade do espetáculo capaz de agradar às plateias elegantes.
No último fim-de-semana, quanto às lamentações de uns e ao gáudio de outros, houve a registar o perdão de grandes penalidades ao Benfica e ao FC Porto, uma para cada um.
Mas no capítulo dos erros das terceiras equipas em campo, como não podia deixar de ser, o momento mais fabuloso da jornada, verdadeiramente sensacional foi o regresso do sportinguista Freddy Montero aos golos em posição de fora-de-jogo 299 dias depois.
É obra.

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Ainda um assunto da semana passada.
Foi acusado o treinador do Benfica de ter preferido, em Leverkusen, poupar jogadores para o desafio com o Arouca do que procurar a vitória contra os alemães na Alemanha, como se vencer o Bayer fosse um brinde assegurado desde que Maxi Pereira, Samaris e Lima entrassem em campo nas posições de André Almeida, de Cristante e de Derley.
Desde que a temporada oficial começou tem sido proeminente no discurso do treinador do Benfica a vontade de revalidar o título nacional brilhantemente conquistado em 2013/2014. Há mais de trinta anos que o Benfica não vence dois campeonatos de uma assentada e, francamente, já começa a parecer mal.
Portanto quer Jorge Jesus aquilo que todos queremos e que exigimos.
No entanto, tal como acontece a qualquer adepto comum do Benfica num momento de introspeção honesta, de bom grado Jorge Jesus trocaria o hipotético segundo título consecutivo por uma hipotética vitória na Liga dos Campeões, facto quinhentas vezes mais estrondoso do que a vitoriazinha interna, muito saborosa, mas sem aquela distinção do galgar das fronteiras que o Benfica persegue desde 1962, quando bateu o Real Madrid por 5-3 na final de Amesterdão, há mais de 60 anos.
Ou não é assim?
Troca-se imediatamente um campeonato nacional por uma Liga dos Campeões!
Quem estiver de acordo ponha o braço no ar!
Ena, tantos braços no ar, inclusivamente o meu.
Infelizmente, estas duas competições não são equiparáveis a cromos para a troca. Nem, muito menos, são fantasias. O Benfica, que nos dois últimos esteve à beira de ganhar a Liga Europa e não ganhou, sofreu este ano uma remodelação tão acentuada no seu quadro de jogadores que, dificilmente, haverá lugar, em 2014/2015 para a edificação de uma equipa sólida e fortemente competitiva a nível do segundo escalão da realeza europeia, como as que vimos nas duas temporadas anteriores.
O que não queremos, e neste ponto estaremos todos de acordo, é fazer má figura como fizemos, na verdade, na Alemanha.
É mau benfiquismo pensar assim?

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José Mourinho reagiu ao melhor estilo de um D’Artagnan sadino à intempestiva intrusão de Arsène Wenger no seu espaço técnico enquanto decorria o jogo entre o Chelsea e o Arsenal. Um alçar do peito, um olhar fulminante, toda uma elegância inata no dirimir da situação criada pelo azougado mosqueteiro francês.
E duas forçosas passadas atrás porque Wenger tem, bem medido, mais um palmo de altura do que Mourinho e apareceu-lhe não só pela frente mas também distintamente embalado.
No clássico de Londres, a capital mundial das boas maneiras, fez furor o momento protagonizado pelos dois treinadores, sendo que um é um sacana de um francês, pelo que tem culpa, e outro é português, pobrezinho, pelo que está desculpado.
Foi assim, geneticamente, que os arregalados ingleses viram o que se passou em Stamford Bridge.

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Ditou o sorteio ser o Sporting da Covilhã o adversário do Benfica na primeira eliminatória da Taça de Portugal que inclui os clubes primodivisionários, cabendo ao Benfica, que é o detentor do troféu, jogar fora de casa. O jogo realiza-se, portanto, na Covilhã embora no fim-de-semana tenham surgido notícias que apontavam a decisão da eliminatória para o palco de Aveiro em favor de uma receita que permitisse “resolver o problema financeiro do clube”. Acabou por imperar a tradição e o Benfica vai mesmo jogar à Serra da Estrela. Ainda bem. Assim é que é bonito.

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Na última temporada o jovem Ola John foi justamente desterrado para o campeonato alemão e regressou outro. Veio reeducado.
Agora quando o Benfica não tem a bola o holandês compromete-se no trabalho de a recuperar. No jogo com o Arouca até o vimos a dobrar Eliseu por mais do que uma vez.
Já quando o regressado Ola John tem a bola não se perde em habilidades circenses sem qualquer proveito para a equipa.
Está um extremo pragmático o nosso Ola John. Avança sem medo quando pressente que o caminho lhe está de feição, não inventa e quando se depara com dificuldades opta por entregar a bola a um companheiro melhor colocado ao invés de brincar na areia, que era a sua especialidade mais em destaque no primeiro ano que passou na Luz.
Perante este milagre da reeducação, estamos todos com grandes expectativas no que diz respeito ao regresso de Djuricic depois de uma temporada na Alemanha ao serviço do Mainz.
Se não vai a bem, vai a mal.


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Está em grande o Valência de Nuno Espírito Santo e de mais uns quantos portugueses que são nossos estimados conhecidos. No último fim-de-semana bateram sem apelo o campeão espanhol por 3-1. A todos se deseja a continuação destes sucessos.
Este lindo arranque do Valência vem relançar a questão dos benefícios internos de se estar ausente das competições internacionais, que é, precisamente, o que se passa nesta temporada com a equipa “ché”
Sempre me intrigou chamarem-lhes a equipa “ché”. Fui investigar. Ao que parece chamam-lhes “ché” porque “ché” é uma interjeição muito comum do falar valenciano e que se equivale ao nosso “pá”, no sentido de tratarmos com proximidade alguém amigo com quem falamos.
- Che, mira el gol de André Gomes!
- Eh pá, que golão do Talisca!
O uso do “ché” é também comum na Argentina e em outros países sul-americanos. Por exemplo, o doutor Ernesto Guevara, de nacionalidade argentina, entrou para História com o nome de “Che” Guevara porque tratava por “ché” toda a gente que conhecia. Traduzindo para português chamava “pá” a todos, o que nem é para admirar.
Os “chés” de Nuno Espírito Santo, voltando ao futebol, vão bem lançados na Liga espanhola apesar de estarem fora da Europa ou vão bem lançados na Liga espanhola precisamente por estarem fora da Europa?
Por exemplo, na época anterior houve duas equipas que conseguiram ficar no segundo lugar dos seus respetivos campeonatos – o Liverpool em Inglaterra e o Sporting em Portugal – porque, para muita gente douta, beneficiaram das folgas de não terem jogos europeus a meio da semana ao contrário dos seus adversários internos mais diretos que se esfalfaram em compromissos, viagens e minutos nas pernas.
Tudo isto são, naturalmente, especulações. E, por isso mesmo, o percurso deste Valência merece a maior atenção, “ché”!

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Na noite de sexta-feira o presidente do Sporting atirou-se com unhas e dentes ao presidente do FC Porto e até lhe chamou nomes feios. Também se atirou ao presidente do Benfica ainda que com menor veemência porque o respeitinho é muito bonito. Por este conjunto de antecedentes oratórios foi pena a ausência do presidente do Sporting na reunião da Liga na segunda-feira para o cara-a-cara com os ofendidos que é o apanágio dos valentões.

Fonte: Leonor Pinhão @ A bola

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