quinta-feira, abril 10, 2014

História do presente

'Ministros cinco horas a discutir cortes'
in Expresso, sobre o Conselho de Ministros de segunda-feira, 31 de março


Maria Luís Albuquerque: Bom, de acordo com o manual de instruções que o professor Vítor Gaspar me deixou quando saiu do Governo, é preciso fazer mais cortes este ano.

Paulo Portas: Impossível. Não pactuarei mais com este saque. Estamos a ultrapassar fronteiras que me recuso a transpor. Demito-me irrevogavelmente.

Passos Coelho: Está bem. Até já. Então onde é que se há-de rapar

Paulo Macedo: Ó Pedro, então o teu pai deu uma entrevista a dizer que o País está mal, pá?

Passos Coelho: A sério? Vamos cortar-lhe a reforma. Já cortámos reformas?

Maria Luís Albuquerque: Esta semana, não.

Passos Coelho: Então é isso.

Pedro Mota Soares: Eu tenho os bens dos velhos portugueses todos inventariados, e parece-me que ainda há espaço para cortar. Há um casal em Mafamude que tem 37 euros em moedas numa caixa de biscoitos, por trás da máquina de café.

Passos Coelho: Têm uma máquina de café? Alguém anda a viver acima das suas possibilidades. Diz-lhes para venderem isso no OLX e ainda fazemos mais alguma receita.

Paulo Portas: Então? Já há decisões desagradáveis das quais eu me possa demarcar, usufruindo assim do duplo benefício de estar no Governo enquanto ao mesmo tempo o critico?

Pedro Mota Soares: Sim. Há uns velhotes em Mafamude que vão ficar sem a máquina de café.

Paulo Portas: Nunca! Eu não transponho a fronteira da máquina de café. Demito-me irrevogavelmente.

Maria Luís Albuquerque: Está bem. Digam-me só uma coisa: estes cortes que estamos a decidir hoje são secretos ou aquele meu secretário de Estado pode revelá-los à Imprensa?

Marques Guedes: Desculpem interromper, tenho aqui o Marques Mendes ao telefone a perguntar se já decidimos alguma coisa, porque ele vai fazer o programa na SIC em breve e ainda não tem novidades para dar em primeira mão.

Passos Coelho: Agora não, pá. Como é que estamos em relação àquela minha ideia de moer funcionários públicos para almôndegas?

Paula Teixeira da Cruz: Parece que é inconstitucional.

Paulo Portas: Para almôndegas? Não era para hambúrgueres?

Passos Coelho: Mudou-se para almôndegas.

Paulo Portas: Nesse caso, demito-me irrevogavelmente. Eu não transponho a fronteira da almôndega.

Maria Luís Albuquerque: Alguém vê algum sítio, no aparelho de Estado, onde se possa cortar um gasto supérfluo?

Passos Coelho: Não me ocorre nada. Ainda ontem estive a pensar nisso com o meu adjunto, que tinha falado com o seu assessor, que tinha estado reunido com os seus três consultores, cada um dos quais tinha nomeado um gabinete de estudos, mas nenhum deles chegou a qualquer conclusão.

Paulo Portas: Só se cortarmos mais reformas e salários. Nem pensar. Demito-me. Desculpem. Isto vicia.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira@Visão

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