sexta-feira, março 28, 2014

Ricardo Araújo Pereira entrevista... Ricardo Araújo Pereira

Ricardo, já reparou na tendência que estas auto-entrevistas têm para redundar no mais aborrecido cabotinismo?
Estava precisamente a pensar nisso, Ricardo. Essa observação é muito perspicaz. Antevejo uma excelente entrevista.

Obrigado. Mas acha que o facto de estarmos a reconhecer que as auto-entrevistas são ridículas vai impedir que esta se torne ridícula?
Não, mas as pessoas acreditarão mais facilmente que se trata de um ridículo intencional, depois de termos feito esta desconstrução que reputo de extremamente moderna.

Ricardo Araújo Pereira
Qual foi a pergunta que nunca lhe fizeram?
Essa não é uma delas, curiosamente. Já me perguntaram muitas vezes qual foi a pergunta que nunca me fizeram. É difícil responder, na medida em que o universo de questões que nunca me foram colocadas é muito mais vasto do que o daquelas a que já tive de responder. Mas nunca me perguntaram, por exemplo, qual é o PIB do Bangladesh.

Qual é?
747,34 dólares per capita.

Incrível. Como é que se definiria?
Em princípio, não me definiria, na medida em que sou demasiado complexo, como sabe. Mas, em traços muito gerais, posso dizer-lhe que sou forte no jogo aéreo e nas desmarcações, e tenho alguma facilidade em jogar de costas para a baliza, embora me falte capacidade de explosão.

É capaz de identificar o seu maior defeito?
Agradeço que me faça essa pergunta, porque me dá a oportunidade de responder de uma forma que julgo ser inédita. Normalmente, os entrevistados dão uma de duas respostas a esta pergunta: ou apontam um defeito menor (em geral, a teimosia), ou conseguem transformar o seu maior defeito num defeito dos outros (por exemplo: confiar demais nas pessoas). Gostaria então de dizer que, da vasta lista de defeitos que a minha personalidade me coloca à disposição, hoje escolho estes: sou preguiçoso e guardo rancores. Sempre são dois pecados mortais. Gostava muito de juntar a luxúria, mas não pratico tanto quanto desejaria.

Qual é o seu tipo de humor?
Mais uma vez, vou ser polémico. O meu tipo de humor é o que tem como objectivo fazer rir. Está cada vez menos em voga, parece-me. O riso tem má reputação e, por isso, há duas grandes escolas de comédia que tentam reformá-lo. A primeira é a escola da Miss Universo, formada por humoristas que desejam um mundo muito lindo. Pretendem endireitar o mundo através do poder infalível das piadas. Rir, sim, mas só se o riso tiver uma utilidade prática qualquer, se servir um objectivo considerado importante por um pequeno Zhdanov ou Goebbels . Caso contrário, riso é parvoíce. Há que educar as pessoas, dar-lhes lições de moral e aplicar-lhes o correctivo que merecem. O extraordinário poder do humor, que ingénuos como eu relativizam, está bem documentado historicamente. Todos recordamos a piada que acabou com a escravatura, a rábula de vaudeville que deu o direito de voto às mulheres, o programa cómico que determinou o fim da Segunda Guerra Mundial...

Que taxinomia curiosa. E qual é a segunda escola?
Agradeço o seu interesse. Ficaria surpreendido com a quantidade de gente que considera entediante ouvir-me falar sobre o poder da comédia. A segunda escola é a do anti-humor. O humor está muito visto. O que tem graça é não ter graça. Até porque o riso é parvoíce. Chaplin, Groucho Marx e Woody Allen estavam a ver mal as coisas. Há dias, li um crítico elogiar um programa cujo autor "se tinha esforçado por não fazer piadas". Imagino o esforço requerido por essa dura tarefa.

Como vê a actual situação do País?
Vejo com alguma esperança. O Governo diz que o País está melhor, o que é óptimo, embora as pessoas estejam piores, o que é péssimo. Fazendo a média entre o estado do País e o das pessoas, o resultado é razoável. Ou seja, parece que está tudo bastante mais ou menos. Não é mau.

Qual é a sua opinião sobre a co-adopção?
Sou a favor para todos os tipos de casal, menos para os que incluam parlamentares. As crianças precisam de um ambiente estável, e um parlamento que começa por aprovar uma lei para vir a chumbá-la meses depois é formado por pessoas instáveis, que não têm maturidade para criar uma criança. Ao contrário do que algumas pessoas defendem, acredito que ser deputado não é um desvio nem uma aberração, e até julgo que os deputados deveriam poder casar. Mas creio que a nossa sociedade ainda não está preparada para que certos deputados possam adoptar crianças. Basta pensar no estigma social sofrido por uma criança que, na escola, dissesse ser criada por um destes deputados.

Finalmente, Ricardo, o que levaria para uma ilha habitada?
Um tigre, porque prefiro ilhas desertas.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @Visão

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