sexta-feira, janeiro 03, 2014

Poupa-se imenso no latim

Estão tão parecidos o Benfica e o FC Porto nesta temporada que, francamente, até faz confusão.
Basta ouvir os adeptos de um e de outro emblema para se dar conta de quão iguaizinhos estão os arquirrivais no que diz respeito às opiniões que emitem sobre a produção de jogo das respectivas equipas de futebol.
Dizem os benfiquistas:
- Não estamos mesmo a jogar nada.
E dizem os portistas:
- Não estamos a jogar rigorosamente nada.
E os seus olhares, carregados de pesar, cruzam-se piedosamente e sem deitar chispas, que seria o normal.
Ou não é assim que estão os “moods” nos dois campos?
Leonor Pinhão
Estes estados de espírito, tão raros de ver conjugados, são, no entanto, benéficos para a paz e para o sossego do país. Como os dois adversários reconhecem que não estão a jogar nada, poupa-se logo imenso no latim ficando as azedas discussões do costume reduzida a zero por falta de material.
E, se bem repararam, já nem sequer falam mal de árbitros os potentados da Luz e do Dragão. Silêncio absoluto sobre penaltis, foras-de-jogo e quejandos. 
Terão combinado entre eles, à socapa, absterem-se de emitir comunicados sobre tudo o que meta um apito, deixando esse fardo a pesar nas costas do novo presidente do Sporting?
É o que parece. Mas há quem diga que, neste capítulo, até já estão a abusar.
Tenho um amigo sportinguista que não concorda nada com isto. Garante ser impossível qualquer tipo de combinação entre o FC Porto e o Benfica para prejudicar o Sporting porque isso é “contranatura”, nas palavras dele. Poderá ter razão.
Exibiu, no entanto, um argumento fraquíssimo para me demonstrar que ainda no último clássico, para a Taça da Liga, ficou provado que é entre o Sporting e o FC Porto que se arranjam as melhores combinações.
- Ambas as equipas iniciaram o jogo com os seus pontas-de-lança argelinos e terminaram-no com os seus pontas-de-lança colombianos. Foi uma combinação!
Enfim, um disparate. Não deixa de ser verdade que foi exótica a situação. Mas nada mais do que isso.
Adiante.
Falava-vos de como estão parecidos, esta temporada, os adeptos do Benfica com os do FC Porto e vice-versa. Consideram por aparente unanimidade que as suas respectivas equipas não estão a jogar nada e encolhem os ombros com estupefacção quando olham para a tabela classificativa do corrente campeonato e constatam que seguem em primeiro lugar com o mesmo número de pontos.
Não é o mesmo número de pontos que os alarma, pois se ambos jogam a mesma coisa – isto é, nada – é de esperar que tenham somado o mesmo parco pecúlio. O que os surpreende é o facto de estarem em primeiro lugar. E quase consideram como imerecida essa posição. Isto é o que se ouve por aí.
Como se não bastasse esta anormalidade do espírito que vem durando desde o início da prova, surgiu agora uma outra consonância entre o Benfica e o FC Porto que, não sendo uma anormalidade do espírito, é antes uma anormalidade de carne e osso.
Trata-se da questão muito humana dos guarda-redes. E, lá está, dos respectivos guarda-redes dos dois emblemas. Pois estão a viver exactamente o mesmo transe, e com requintes de malvadez, os pobres Helton e Artur, ambos por coincidência brasileiros não sendo, no entanto, coincidentes os respectivos currículos, há que dizê-lo.
Titulares indiscutíveis das suas balizas, Artur e Helton, viram-se de repente relegados para a condição de empata-talentos, de atrasa-futuros e, para tanto, bastou que Jorge Jesus abrisse, finalmente, a porta a Oblak e que Paulo Fonseca confiasse a Fabiano, como é norma nestas ocasiões menores, a defesa das redes do FC Porto no jogo com o Sporting a contar para a Taça da Liga.
Isto se considerarmos a Taça da Liga como uma questão menor o que, vendo o empenho posto em campo pelas duas equipas na noite de domingo, custa um bocado a avalizar. Mas são cada vez mais os treinadores que colocam os habituais guarda-redes suplentes em acção quando os jogos não são a contar para o campeonato, que é de longe o que realmente interessa.
Adiante.
Sem, provavelmente, atingir a unanimidade do coro do “não estamos a jogar nada” no Dragão e na Luz no que se refere à qualidade do espectaculo, esta questão dos novos guarda-redes e dos velhos guarda-redes também faz com que os adeptos do Benfica e os adeptos do FC Porto venham exprimindo uma confiança idêntica em Oblak e em Fabiano.
Trata-se de uma onda ineludível. A própria comunicação social foi atrás do assunto comum aos do Dragão e aos da Luz e consultou especialistas na matéria. Antigos treinadores de Oblak e de Fabiano confirmaram à imprensa as melhores expectativas geradas nos dois campos. 
“Fabiano dificilmente perde a titularidade se Helton vacilar”, disse Daúto Faquirá, que foi treinador de Fabiano em Olhão. Faquirá falava no rescaldo do Sporting-FC Porto de domingo passado. “Fabiano é completo”, acrescentou. “Fabiano é irrepreensível”, acrescentou ainda mais. Fabiano fez uma belíssima exibição negando ao Sporting uma vitória que seria merecida.
Manuel Cajuda, que foi treinador de Oblak em Leiria, nem esperou pelo jogo de estreia do esloveno como guarda-redes da equipa principal do Benfica – ocorreu em Setúbal, uns dias antes do Natal – para vaticinar certas coisas de forma muito directa: “Artur, o teu lugar é capaz de ter ido ao ar.” 
Entre o jogo de Setúbal e o jogo na Madeira, contra o Nacional, Cajuda, já com o apoio de muita gente, voltou a falar sobre o seu ex-pupilo em termos que não deixam dúvidas. “Oblak é uma monstruosidade na baliza.”
Demos, assim, por certo que se Daúto Faquirá fosse o treinador do FC Porto e se Manuel Cajuda fosse o treinador do Benfica, Fabiano e Oblak seriam os guarda-redes titulares das suas equipas.
Como não são, vamos todos ter de esperar para ver o que vai acontecer. Todos, os da Luz e os do Dragão estão presos neste suspense.
Eu, confesso, estou. Até porque tenho Manuel Cajuda em grande conta.

Em Espanha, a versão preliminar da Lei da Segurança e Cidadania, já aprovada pelo actual governo de Mariano Rajoy, aponta para multas até mil euros para quem se atreva a jogar à bola nas ruas, em espaços públicos, em jardins, em praias.
Os espanhóis são campeões do mundo de futebol mas, depois disto, não merecem. E, cá para mim, a lei é inexequível. O futebol de rua será sempre o berço democrático dos futuros campeões. 
Lembram-se de cada coisa.

Acabou 2013, facto em si que é um bem para a língua portuguesa que levou tratos de polé depois de um ano inteiro a ouvir-se dizer dois mil e “treúze” para cá, dois mil e “treúze” para lá. Milhares, quiçá milhões, descobriram um “ú” na palavra “treze”, é obra. 
Foi um fenómeno linguístico que não conheceu classes sociais, nem graus académicos nem, muito menos, qualificações profissionais. Acabou anteontem dois mil e “treúze”, já era tempo. Pode ser que dois mil e catorze corra melhor e correrá, por certo, desde que não se lembram agora os criativos da língua de descobrir outro “ú” que o transmude, por exemplo, em “cuatorze” que também é chique.
No campo dos relatos de futebol, pelo contrário, há coisas que já nunca vão mudar, como o saudável hábito de transformar substantivos em verbos. Assim, continuaremos a ouvir, e para todo o sempre, que um jogador “temporizou” enquanto outro, por ser mais afoito, “desposicionou-se” com grande pinta. 
No fim do jogo “parabenizaram-se” todos.
Provavelmente até é bom português. Mas que soa esquisito, soa. A propósito desta questão de estilo, partilho convosco um pequeno texto de Millor Fernandes, escrito no distantíssimo ano de 1946, em que o humorista brasileiro abordou o fenómeno da transformação de substantivos em verbos, que também o devia incomodar, numa suposta carta escrita a um seu irmão.
Cá vai:
“Maninho, ao meio-dia papelei-me e canetei-me para escriturar-te. E paragrafei finalmente aqui porque é hora de adeusar-te pois ainda tenho de correiar esta carta para ti e os relógios já estão cincando.”
É bom, não é? E até se aprende que no Brasil de 1946 os Correios fechavam as portas às cinco da tarde.
A brutal criatividade de Millor Fernandes inspira-me a anunciar-vos que não podia ter ficado mais contente pelo próximo Benfica-FC Porto se ir Catedralizar no dia 12 de Janeiro quando os relógios estiverem quatrando em ponto.
É que gosto do futebol à luz do dia.

Fonte: Leonor Pinhão @ABOLA 

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