quinta-feira, agosto 22, 2013

Lavar as mãos já não é possível


O título desta crónica remete para a cena bíblica em que a multidão delirante, juntando servos e juízes, pedia a crucificação de Jesus.

Este outro Jesus, Jorge, é o alvo de uma esmagadora maioria que ainda há três meses reclamava uma renovação forever que dele fizesse o Ferguson da Luz. E sem que surja uma voz da estrutura benfiquista que o defenda.

Já agora, teria de ser (de ter sido já) o presidente Luís Filipe Vieira, por ter sido quem insistiu na continuidade do técnico português e por, aparentemente, não haver mais ninguém na estrutura, que António Carraça desapareceu sem rasto depois de Rui Costa ter desaparecido com algum rasto.

Jorge Jesus cometeu erros, vários, por teimosia sobretudo, foi mesmo o principal responsável pelas derrotas finais da época anterior, mas há uma culpa que não tem de certeza: a de lhe terem renovado o contrato. Era evidente a sensação de fim de ciclo que a triste cena de Oscar Cardozo no Jamor ilustrou. (A propósito, o Benfica tinha acabado de falhar três objetivos em quatro jogos decisivos - Estoril, Dragão, Amsterdão e final da Taça de Portugal - no ano em que contratou a peso de ouro um "motivador". Pode ter méritos o cidadão, mas a motivação valeu, na prática, zero).

A gestão do dossiê Oscar Cardozo foi desastrosamente lenta (ainda não resolvida!), com notícias de jornal que são um nítido jogo de passa-culpas para o treinador. Se corresse mal, iam crucificá-lo. Já falta pouco. 

Foi, no entanto e apenas, o caso emblemático de uma pré--época feita de negócios de ocasião (Fariña e Pizzi, dois bons jogadores, só visitaram a Portela de Sacavém) e falta de critério (defesas-centrais e médios ofensivos a mais, sem mais um grande médio-centro que permitisse rotação com Enzo Pérez e Matic e eventual substituição deste, em caso de venda).

Os que só veem a árvore carregam sobre Cortez e consideram--no mais fraco que Melgarejo ou... Emerson. Perdoa-lhes Cortez, que não sabem o que dizem. O problema é que quando o coletivo não dá vitórias, o óbvio é encontrar o réu mais à mão: Roberto, Emerson, Artur, Carlos Martins, agora Cortez. E crucificá-lo. Segue-se Jesus, ele próprio.

O presidente do Benfica está num dilema: sabe que não faz sentido dispensar já o homem a quem renovou o contrato, mas também sabe que mais um resultado negativo o obriga a atuar. Delegar para cima ou para baixo? A escolha é só essa. Lavar as mãos já não é possível.

Fonte: Carlos Daniel @Diário de Noticias

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