sábado, junho 09, 2018

Taxarei até que o orçamento me doa

Quando se soube que o preço dos combustíveis ia subir pela décima semana consecutiva, maldisse os cientistas. Pessoas menos sofisticadas maldizem o Governo, mas eu tento que as minhas rabugices sejam modernas e elevadas. Claro que, de acordo com gente que fez contas, mais de metade do preço do combustível são impostos. O meu carro, neste momento, está a gastar 10 euros de impostos aos 100. Em gasolina propriamente dita gasta apenas 6 euros. E isso enerva, com certeza. Mas é importante não esquecer que, com o dinheiro dos impostos, o Governo constrói, por exemplo, estradas. Estradas essas que, aliás, estão em óptimo estado, uma vez que ninguém tem dinheiro para andar nelas, dado o preço dos combustíveis. Ou seja, os impostos sobre os combustíveis contribuem ao mesmo tempo para a construção de estradas e para a sua manutenção.

É por isto que, na minha opinião, a ira deve ser dirigida contra os cientistas. Ninguém poderia imaginar que a Ciência se dedicasse a inventar o carro sem condutor antes do carro sem combustível. Como nunca ninguém se queixou do preço dos condutores, esperava-se que os cientistas atacassem o problema que afligia verdadeiramente as pessoas e inventassem um veículo movido a energia barata ou até gratuita. Os autores de ficção científica indicaram a prioridade com toda a clareza. Nos filmes da série Regresso ao Futuro, o professor que inventa a máquina do tempo concebe um carro movido a lixo. Os espectadores ficaram moderadamente impressionados com a hipótese de viajar no tempo, mas a ideia de ter um carro cujo combustível são cascas de banana e latas de refrigerantes vazias comoveu plateias em todo o mundo. Que o carro pudesse conduzir-se sozinho, no entanto, não passou pela cabeça de ninguém. Ora, o certo é que, em 2018, temos carros que andam sozinhos, mas continuam a necessitar de combustível. Entre o ser humano e o gasóleo, os cientistas decidiram que o mais urgente era dispensar o primeiro.


Em abono dos cientistas, deve dizer-se que a inexistência de gasolina não implicaria a inexistência de impostos. Creio que Mário Centeno teria talento suficiente para inventar um imposto sobre cascas de banana. E um imposto sobre esse mesmo imposto, justificado pelo facto de ser justo taxar quem se deixa taxar por lixo. E assim sucessivamente até à Taxa sobre o Dinheiro que Escapou às Outras Taxas – que, não tenho dúvidas, será criada em breve.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ visão

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