sábado, fevereiro 10, 2018

Sherlock Holmes e o caso do camarote presidencial

Vamos começar pelos factos (para os leitores mais jovens, esclareço que “factos” eram uma coisa que os jornais publicavam antigamente, antes do advento das chamadas fake news): Mário Centeno pediu dois bilhetes para ir ver o Benfica-Porto com o seu filho no camarote presidencial do Estádio da Luz; os filhos de Luís Filipe Vieira obtiveram isenção de IMI para um imóvel que recuperaram no Chiado; as autoridades fizeram buscas no gabinete do Ministério das Finanças para averiguar se há relação entre uma coisa e outra. Sucede que a decisão de isentar imóveis de IMI cabe à autarquia, e não ao ministro; e o imóvel em causa qualificava-se legalmente para beneficiar dessa isenção. Pode ser que um destes factos não seja um facto, dado que os recolhi na cada vez mais falível comunicação social. Mas, havendo aqui factualidade, é difícil reconhecer a justiça portuguesa. Estamos perante um caso em que se desconfia que, em troca de dois bilhetes para ir à bola, um ministro concedeu um benefício que não tem poder para conceder a cidadãos que não precisam de favores para o obter. As autoridades judiciais não costumam ser tão zelosas. Ainda não foi assim há tanto tempo que houve para aí umas confusões envolvendo uns submarinos e um centro comercial em Alcochete sem que qualquer gabinete tivesse sido revistado.

Em Portugal, como sabe até quem não tem formação jurídica, há cortesia, jeitinho, favor e corrupção. Destes, só a corrupção é ilegal – e, felizmente, quase nunca ocorre no nosso país. A oferta de bilhetes a Mário Centeno parece ser um pouco mais que uma cortesia. Mas, em princípio, não passou de um jeitinho. Não foi uma cortesia, na medida em que a cortesia costuma ser voluntária. Aqui foi requisitada por Centeno, o que a transforma num jeitinho. Creio que seria um exagero qualificá-la como favor. Mas Mário Centeno está a ser investigado por um crime. Resta-nos, por isso, uma hipótese: ver futebol pode configurar a prática de um crime – o que não é surpreendente. Diz-se que, em Portugal, há criminosos entre os dirigentes, os jogadores e os árbitros. Era uma questão de tempo até os espectadores também estarem sob suspeita. Se o futebol português é um crime, assistir é cumplicidade. Mário Centeno precisa de um bom advogado.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira@Visão


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