sábado, novembro 11, 2017

Não cantou, não cantou!

Não houve espanto nem, muito menos, alarme social quando o País teve ocasião de ver o doutor Fernando Madureira comandando garbosamente a claque dos Super Dragões no decorrer de um jogo do campeonato de basquetebol no pavilhão do Dragão, poucas horas depois de ter sido noticiada a sua interdição de frequentar recintos desportivos durante os próximos seis meses. Certamente que muita gente se sentiu confundida vendo o tal Madureira de novo em ação numa das suas arenas de conforto – que são as bancadas dos estádios e dos pavilhões e os campos onde joga o Canelas – julgando, por certo, ter ouvido mal ou interpretado pior as notícias que o davam como arredado por meio ano das suas lides em função de um eventual castigo que lhe teria sido aplicado por uma entidade chamada Instituto Português do Desporto e da Juventude. 

Como em Portugal se é jovem até muito tarde (o presidente do Sporting, por exemplo, tem quase 50 anos e faz ponto de honra em se intitular como "um jovem" sem que ninguém o contrarie) nada obstaria, enfim, a que um instituto dito da juventude aplicasse uma sanção disciplinar a um sujeito de meia-idade que se atrevesse a cantar em público o seu desgosto pelo facto de o avião que caiu com a equipa da Chapecoense a bordo não transportar, no lugar da equipa brasileira, a equipa do Benfica. 

Não estando, portanto, em causa a autoridade do IPDJ nem os dotes vocais de Madureira, que garante que não cantou – só gingou –, como se explica o facto de continuarmos a ver o mesmo Madureira liderando as suas tropas no Porto e por esse País fora como se, afinal, não tivesse havido castigo algum? Haverá também penas suspensas neste mundo tão peculiar da juventude e do desporto e do canto coral? Terá o juiz desta causa considerado que, por estar bem integrado e ter uma reputação profissional sólida, pode Madureira continuar a pôr em prática a sua tese de doutoramento – ‘Bancada Total’ – que lhe valeu 16 valores num instituto superior da Maia pela invenção "odoernamente" de todo um léxico com "estratégicas" e "cabragentes" ? Não, nada disso. 

O doutor Madureira está de volta à ação mas de volta superiormente autorizado, beneficiando da "tecnalidade" expressa no direito ao recurso com efeitos suspensivos que o IPDJ concede à juventude. Não se entristeçam, porém, os fãs do chefe dos Super Dragões porque se, eventualmente, for algum dia mesmo impedido de frequentar recintos desportivos – o que é muito duvidoso – tê-lo-ão certamente como comentador num qualquer programa de uma qualquer estação de televisão. É que faltam doutores. 



Um outro Domingos Paciência 
Uma década para deixar cair o "estava a olhar para o chão" Domingos Paciência, que foi uma finíssima máquina de fazer golos pelo FC Porto, enveredaria pela profissão de treinador e é hoje o responsável pela equipa do Belenenses. Ao contrário dos dirigentes do Restelo que não aceitaram com naturalidade a última derrota no estádio do Dragão – ousaram até reclamar pela divulgação do áudio do vídeo-árbitro… –, Domingos recorreu à sua proverbial paciência para comentar os lances em que terão ficado por assinalar duas grandes penalidades a seu favor, ou seja, contra os donos da casa. "Não sei, não vi", disse fazendo recordar um outro Domingos Paciência – provavelmente o mesmo – que era treinador da União de Leiria e, instado pela curiosidade dos jornalistas a comentar uma agressão de Quaresma, jogador do FCP, a um jogador leiriense, Tixier, resolveu o assunto com um "não sei, não vi, estava a olhar para o chão". Demorou uma década até deixar cair o "estava a olhar para o chão" mas o "não sei, não vi" continua em vigor.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

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