sexta-feira, julho 21, 2017

Aproveito para me demitir também

A grande semelhança entre o Ministério Público e o chinelo da minha avó – satisfaço finalmente a curiosidade de quem sempre quis saber – é a seguinte: ambos se dedicam a punir quem vai ilicitamente ao futebol. Poucas pessoas estarão mais habilitadas para escrever sobre os três secretários de Estado que se demitiram por terem ido ver jogos da selecção a França, a expensas da Galp. Já estive em situações parecidas. No meu caso, havia infracções de três tipos: ou eu estava no futebol quando já devia estar em casa; ou estava no futebol quando devia estar a cumprir outro tipo de obrigações; ou estava no futebol quando devia estar no futebol, mas rompia botas ortopédicas que tinham sido adquiridas na véspera. É certo que nunca estive no futebol a convite de empresas que tinham um contencioso fiscal com o Estado e sobre as quais eu me encontrava em posição de tomar decisões, mas creio que, se isso tivesse acontecido, o chinelo da minha avó me teria punido na mesma. O essencial é: eu sei o que é ser castigado por estar ilicitamente no futebol. Mais: comparado com os castigos que suportei, os que foram impostos aos secretários de Estado são para meninos. Nem se pode dizer, aliás, que os castigos foram impostos. Foram eles que se demitiram. Quando souberam que o Ministério Público ia constituí-los arguidos, resolveram antecipar-se e constituir-se arguidos primeiro – porque, provavelmente, ao longo do último ano aprenderam que não devem aceitar nada de ninguém. Já no meu caso, o castigo da ilicitude futebolística consubstanciava-se no impacto da dura sola nas minhas tenras nádegas. Não havia maneira de eu me antecipar e punir as minhas nádegas por minha própria iniciativa. Até porque, se o fizesse, acabaria por ser punido por dois motivos: ilicitude futebolística e uso indevido e não autorizado do chinelo. Imagino que sair do governo custe, mas desafio estes secretários de Estado a experimentarem o chinelo da minha avó. Isso sim, é uma punição moralizadora da vida política e da sociedade em geral. O Ministério Público que me desculpe, mas não moraliza nada enquanto não obtiver um chinelo credível e com sentido de Estado.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

Sem comentários: