quinta-feira, abril 20, 2017

Javardice geracional

Correm-me muitas vezes os imortais versos de Camões: 
“Descalça vai para a fonte / 
Lianor pela verdura; / 
Vai fermosa, e não segura / 
De maneiras que vou apalpar-lhe o pipi.” 

A maior parte dos alunos tomou contacto com outra versão do poema, mas eu li-o num volume que pertencia ao meu pai, que é da geração de José Mayer, e era assim que eles aprendiam. José Mayer é o actor brasileiro que, na semana passada, foi acusado de assediar sexualmente uma colega de trabalho: “Colocou a mão esquerda na minha genitália”, denunciou a vítima. Depois de, num primeiro momento, negar as acusações, o actor acabou por emitir um comunicado pedindo desculpa. O texto é um primor de coerência, porque consegue ser quase tão ignóbil como o acto que lhe deu origem. Mayer começa dizendo: “admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito”. É uma interessantíssima exibição de pequenez disfarçada de grandeza. Colocar a mão em genitálias alheias contra a vontade das suas proprietárias é um acto que não costuma ser caracterizado com a palavra “brincadeira”. O Código Penal, por exemplo, prefere a designação “crime”. Em vez de admitir um crime – que, como é próprio dos crimes, ultrapassou os limites da lei –, Mayer admite uma brincadeira que ultrapassou os limites do respeito. Ou seja, na prática admite que não admite o que devia estar a admitir. Receio que este tipo de arrependimento light funde uma nova tendência. Que seja uma questão de tempo até que um assassino lamente as suas brincadeiras de cunho violento, ou que um corrupto peça perdão pelas suas brincadeiras de cunho financeiro.

Numa reviravolta inesperada, Mayer revela ainda que também é vítima, acusando: “sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas.” Há, nesta história, duas vítimas – e nenhum criminoso. A figurinista Susllen Tonani foi vítima de Mayer, e ele, coitado, foi vítima da sua geração. Foi essa geração bandida (que, aliás produziu outros visigodos apalpadores de vaginas à má fila, tais como os porcalhões Caetano Veloso, Chico Buarque ou Gilberto Gil) que incentivou Mayer a brincar às agressões sexuais. 
O realizador de Os Acusados, que é da mesma geração de Mayer, deve ter ficado confuso com o modo como o seu filme foi recebido: pôs Jodie Foster a protagonizar uma divertidíssima comédia e a academia de Hollywood premiou a actriz pela qualidade da sua interpretação dramática. Esquisito. O júri dos Oscars devia ser de outra geração e entendeu mal o filme.



Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão

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