sábado, abril 15, 2017

Eu cartilho, tu cartilhas...

Com o desportivismo possível, quando faltam seis jornadas para o fim do campeonato e os nervos desfalecem perante a iminência de uma qualquer decisão, prestaria o mais alto serviço à paz e sossego no território nacional a estação de televisão que ousasse reunir os três diretores de comunicação dos três maiores clubes portugueses poupando, assim, aos estafados representantes e comentadores do costume o esforço supremo das suas prestações semanais e aos não menos estafados telespetadores a trabalheira de os ter de ouvir na tentativa vã de destrinçar entre todos quem tem cartilha, quem não tem cartilha e quem melhor fora que não tivesse cartilha. 

Como está instalada a noção – bastante errada, aliás – de que os comentadores, as redes sociais e a vulgaridade em geral são quem ganha os campeonatos, dê-se, portanto, o palco aos responsáveis máximos pela comunicação dos três "grandes". 

Já imaginou, caro leitor, o "boom" de audiências que resultaria de uma emissão especial de televisão que sentasse à mesma mesa o senhor Saraiva em representação do Sporting, líder destacadíssimo do campeonato nacional da bola não fora a atuação do árbitro Jorge Sousa no dérbi da Luz, mais o senhor Marques em representação do Porto, comandante mais do que isolado do campeonato não tivessem ficado por marcar 47 grandes penalidades contra todos os adversários do FC Porto no campeonato e, finalmente, o senhor Bernardo em representação do Benfica que seria o tranquilíssimo dono do primeiro lugar dando- se o caso de o Benfica não ter esbanjado a gorda vantagem em joguinhos com Boavista, V. Setúbal e P. Ferreira? 

Num programa destes é que se revelaria, finalmente, quem conjuga melhor o verbo cartilhar. Poderão contrapor que semelhante verbo, cartilhar, nem sequer existe mas se numa modalidade tão popular como é o futebol se inventam pomposamente todos os dias verbos que não existem – como, por exemplo, ‘desposicionar’ – e fazem escola expressões de significado impenetrável – como, por exemplo, ‘receção orientada’ e ‘remates prensados’ – que mal tem que eu cartilhe, que tu cartilhes, que eles cartilhem? 

Por falar em cartilhas, tem-se revelado que a do senhor Marques do Porto é de todas a pior. Veio recentemente o senhor Marques acusar o senhor Bernardo do Benfica de ser "um saltitão" que saltou da ‘entourage’ de José Sócrates para o Estádio da Luz esquecendo-se de que o seu patrão, o senhor Pinto da Costa, até foi visitar o dito José Sócrates, seu bom amigo, à prisão depois de um fim de semana que lhe correu especialmente mal. Não se faz. Isto é amadorismo. 



OUTRAS HISTÓRIAS... 
A grande questão da atualidade 
Luta pela sobrevivência política das entidades empregadoras 
Eis que o grego Samaris se transformou na nova besta negra da comunicação do FC Porto e do Sporting que, compreensivelmente, lutam com tudo o que têm à mão pela sobrevivência política das suas entidades empregadoras. 

Não será necessário um intelecto muito acima da média para se concluir de uma penada que a eventualidade de o Benfica se sagrar, pela quarta vez consecutiva, campeão nacional deixará as gerências de Pinto da Costa e de Bruno de Carvalho muitíssimo mal vistas pelas respetivas massas de adeptos. 

É este o drama. Diga-se que o que Samaris fez em Moreira de Cónegos não se faz e o grego do Benfica será bem castigado e suspenso, mais cedo ou mais tarde. FC Porto e Sporting queriam mais cedo e o Benfica queria mais tarde. 

Não é de crer, no entanto, que o castigo a Samaris demore 9 meses a chegar, os mesmos 9 que demorou a chegar o castigo a Slimani depois da sua cotovelada sobre o mesmo Samaris na temporada passada. E porquê? Porque, francamente, parece mal.



Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

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