sábado, março 25, 2017

Núncio costureira e Núncio patroa

A revista à portuguesa já não é o que era. Quando Paulo Núncio resolveu reeditar a rábula clássica da Olívia costureira e Olívia patroa, todos ficámos com ainda mais saudades de Ivone Silva. Do ponto de vista do texto, Núncio começou por revelar imaginação: a actualização do número, transformando a dicotomia 
Olívia costureira/Olívia patroa na moderna Núncio advogado especialista em evasão fiscal/Núncio secretário de Estado dos 
Assuntos Fiscais, deu frescura e novidade à rábula. 
O problema é que Núncio, muito menos talentoso do que Ivone Silva, é manifestamente incapaz de representar duas personagens diferentes. O Núncio secretário de Estado mantinha a tal ponto as motivações e os tiques do Núncio advogado que era praticamente impossível distingui-los. Assim se vê a falta que faz um bom director de actores.
A rábula original vivia, precisamente, da tensão gerada, na mesma pessoa, por duas personalidades antagónicas. Em certo passo célebre, Ivone Silva queixava-se: “Ó mulher, tu sabes lá o que é uma 
pessoa adormecer do PCP e acordar do CDS.” Núncio não passou pelo mesmo problema porque, como ficou claro, adormeceu advogado e, enquanto secretário de Estado, esteve sempre a dormir. Perdeu-se por completo a densidade humorística – embora, curiosamente, haja quem tenha ficado a rir, e muito.

O momento em que a Olívia costureira topava no espelho com a Olívia patroa também não transitou para o novo número. Ivone Silva insultava-se a si mesma, porque na verdade tinha duas almas, ao passo que Núncio não tinha nenhuma, uma vez que a tinha posto à venda logo no começo da rábula. Desperdiçou-se uma oportunidade de ouro para fazer bons jogos de palavras, tão ao gosto popular. O Núncio secretário de Estado poderia esconjurar o Núncio advogado dizendo “Abrenúncio, Núncio!”, ou insultá-lo de “pafúncio Núncio”, por exemplo. Executada deste modo, a rábula teria feito rir a plateia. Assim, fez chorar os contribuintes. Também tem graça, mas é bastante mais amarga. E, para este tipo de espectáculo, o bilhete acaba por ser sempre mais caro.

Os apreciadores de teatro de revista terão sentido falta, também, do número musical que costumava fechar a rábula. Assunção Cristas bem tentou, mas apresentou-se desacompanhada de viola e guitarra, e a cantiga que entoou não conseguiu convencer ninguém. Foi pena.


Fonte: Ricardo Araújo Pereira @ Visão



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