domingo, dezembro 11, 2016

Trabalho infantil e não só

É de louvar o acórdão do Tribunal Arbitral do Desporto que ilibou o presidente do Sporting de qualquer dolo depois de analisados os fundamentos da participação que o Benfica, queixinhas, fez chegar aos escritórios da referida entidade. 

Vá lá saber-se porquê sentiu-se o Benfica difamado pelas declarações públicas do presidente do Sporting no correr da novela dos "vouchers" e entenderam os da Luz que melhor seria levar o caso até à autoridade disciplinar competente. Um ano depois de se ter dado início ao processo chegou, finalmente, o TAD a uma decisão que absolve Carvalho de qualquer ilícito criminal na matéria. 

Foi uma boa decisão inspirada, curiosamente, numa recentíssima deliberação de um outro órgão do nosso futebol, o Conselho de Arbitragem, que entendeu fazer chegar por carta registada a todos os árbitros a recomendação de não serem avaros no tempo concedido de descontos sempre que se depararem com o exercício livre do antijogo em atividade. 

E, assim, enquanto os árbitros devem dar o desconto justo também o Tribunal Arbitral do Desporto entendeu que se deve também dar o desconto às alocuções televisionadas do presidente do Sporting em função dos traços do seu caráter enquanto cidadão com "um estilo que faz parte de uma personalidade com uma noção de urbanidade sui generis, criticável e censurável no plano da vivência social" pelo que "é evidente que as afirmações proferidas por Bruno de Carvalho estão longe de se poderem considerar um modelo de relacionamento urbano". Foram estas as novidades da semana que antecede o dérbi: os árbitros têm de dar o desconto quando o antijogo impera e o país tem de dar o desconto devido a Carvalho quando extravasa os modelos de urbanidade no seu "tom exagerado, repetitivo e apologético" como se pode ler no acórdão do TAD. 

Dentro do mesmo espírito surgiu-nos novo episódio: um jogador federado das camadas jovens do Sporting utilizou as redes sociais para revelar a sua veia de poeta-pirómano numa quadra mal medida mas bem explícita quanto ao âmago do seu devaneio: diz que quer ver as bancadas da Luz a arder tal como aconteceu por ocasião de um dérbi em 2011. 

Certamente que a disciplina federativa não vai punir este lirismo odiento porque há que dar desconto à juventude do jogador transferido sensacionalmente do Pontinha para Alvalade no último verão, há que dar desconto ao facto de ser filho do presidente dos árbitros e de uma assessora do presidente da Liga e, sobretudo, há que lhe dar desconto porque somos um país de poetas. 

Deu-se aqui o caso de não ser o bom senso a falar 
O FC Porto resolveu a míngua de golos com uma sonora tareia aplicada ao campeão inglês e prepara-se para assistir no sofá ao Benfica-Sporting que lhe renderá dividendos porque um dos dois vai perder pontos. 

Até pode acontecer que percam pontos os dois dando-se o caso, corriqueiro, de o jogo terminar empatado. No universo portista é esta a questão que tem andado no ar: que resultado do dérbi melhor serviria os nossos interesses? 

As opiniões dividem-se como é costume nestas situações. No entanto, os mais ajuizados garantem que o melhor para o FC Porto seria não dar por garantida a vitória sobre o Feirense no lugar de se preocupar com o resultado da Luz. É o bom senso a falar. 

Veja-se, por exemplo, o caso do treinador do Sporting que anunciou com duas semanas de avanço a "Liga Europa muito bonita" que o Sporting ia fazer, esquecendo-se de que, para tal, ainda lhe faltava pontuar em Varsóvia, o que acabou por não suceder. Deu-se aqui o caso de não ser o bom senso a falar.


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha


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