sábado, setembro 03, 2016

A arte de aguentar calado

Esta semana trouxe, finalmente, lindas notícias para o futebol português no que ao bom-nome do dito futebol português diz respeito. E, convenhamos, o bom-nome é tudo numa "indústria" – há quem lhe chame assim – que movimenta milhões e desatina paixões muitíssimo para além do razoável.

Aconteceu que o novo Conselho de Disciplina da FPF instaurou um processo disciplinar ao presidente do Benfica acolhendo prontamente a queixa redigida pelo novo Conselho de Arbitragem em função do mau comportamento de Luís Filipe Vieira na tribuna do Estádio da Luz por ocasião do jogo com o V. Setúbal da 2ª jornada do corrente campeonato. Terá o presidente do Benfica expressado o seu descontentamento em tom desabrido numas quantas ocasiões tendo como interlocutor passivo (muito passivo) um dirigente do já referido Conselho de Arbitragem que assistia ao jogo a poucas cadeiras de distância. De acordo com o relato da imprensa, Vieira protestou no momento do golo em posição irregular que adiantou o V. Setúbal no marcador, insurgiu-se contra a complacência do árbitro face ao anti-jogo sadino, revoltou-se contra o tempo extra sovinamente concedido, em resumo comportou-se como um vulgar adepto e não como uma figura de Estado a quem se exige, acima de tudo, elevação. 

A excelente notícia é, portanto, a de que o novo Conselho de Disciplina não vai dar tréguas à figura do presidente- -adepto que, ainda muito recentemente no nosso país, era considerada o motor da evolução do futebol até ao patamar máximo da modernidade. E como a interpretação disciplinar destas ocorrências jamais poderá variar em função dos locutores e dos interlocutores dos dislates, estão reunidas as condições para uma temporada de total sossego. 
Ai de quem chamar gatunos aos árbitros. Ai de quem exigir a sua prisão por tempo indeterminado em consequência de um lançamento de linha lateral mal ajuizado. Ai de quem levantar suspeitas. Ai de quem enterrar reputações. Ai de quem depositar dinheiro na conta de um "bandeirinha". Numa só palavra, ai. 

O Benfica, felizmente, não reagiu à instauração deste processo ao seu presidente. Terá considerado que, nestes trâmites, é melhor acatar do que atacar. E é. Apenas Luisão, capitão já histórico da Luz, se insurgiu em meias palavras contra a intenção do Conselho de Disciplina. Lacónico, como sempre, Luisão pôs-se ao lado do seu presidente: "Aguentar calado não é fácil", disse esta semana o brasileiro. E não é. Solidário com Vieira nos protestos contra o árbitro da 2ª jornada, Luisão pôs o dedo na ferida. Ou nessa ou noutra ferida qualquer.


Fonte: Leonor Pinhão @ correio da manha

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